Casos de fratura peniana crescem no carnaval; Souza Aguiar lidera atendimentos no Rio com quase um caso por dia durante a folia
As sequelas podem ultrapassar as barreiras físicas e ir para traumas psicológicos.
O médico urologista Leandro Koifman com resultados de exames mostrando a fratura peniana: 'Não é algo que nos surpreenda, mas é algo que preocupa', diz ele sobre a fratura peniana — Foto: Júlia Aguiar
Dados da Secretaria Municipal de Saúde do Rio mostram que, de 2024 até 8 de fevereiro deste ano, a rede municipal fez 571 atendimentos
Por Anna Bustamante - — Rio de Janeiro - 20/02/2026
Em um mês comum, o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro do Rio, registra em média quatro casos de fratura peniana — uma emergência considerada rara. No carnaval passado, porém, essa média foi ultrapassada em apenas cinco dias: deu um caso por dia durante a folia. Entre o Natal e o réveillon de 2025, em apenas uma semana, outros oito homens passaram pela mesma situação. Enquanto as baterias de escolas de samba e dos blocos dão o ritmo na Sapucaí e nas ruas da cidade, a emergência urológica do hospital entra em outro compasso, onde a fratura peniana — ainda cercada de tabu e silêncio — atinge seu pico.
Dados da Secretaria Municipal de Saúde do Rio (SMS-RJ) mostram que, de 2024 até 8 de fevereiro de 2026, a rede municipal de urgência e emergência fez 571 atendimentos de fratura peniana. O Hospital Municipal Souza Aguiar lidera entre as unidades que mais recebem esses pacientes e se consolidou como referência mundial no tratamento.
— A gente atende fratura peniana o ano inteiro. Mas nos períodos festivos, como carnaval, Natal e férias de verão, o número aumenta de forma evidente. Somos referência estadual em emergência urológica há 25 anos. Já catalogamos mais de 550 casos nesse período. Não é algo que nos surpreenda, mas é algo que preocupa — explica o urologista Leandro Koifman, chefe do setor de Urologia do Souza Aguiar.
Segundo o médico, a primeira coisa que é preciso desmistificar sobre o tema é que pênis não tem osso. Quando falamos em fratura, não estamos falando de um osso quebrado.
— O que se rompe é a túnica albugínea, uma camada fibrosa que envolve os corpos cavernosos, que são as estruturas que se enchem de sangue durante a ereção. É uma ruptura grave, dolorosa e que precisa de cirurgia imediata — esclarece Koifman.
Essa “capa” tem cerca de 2 milímetros quando o pênis está flácido. Em ereção, afina dramaticamente — chega a cerca de 0,25 milímetro.
— Se há um trauma contuso, uma dobra brusca, a pressão interna aumenta muito e ocorre a ruptura. Esse é o conceito de fratura peniana: uma lesão traumática em um pênis ereto — diz o médico.
Estalo, dor e a ‘berinjela’
O quadro clínico é inconfundível. O paciente geralmente descreve a mesma cena ao médico: estava tendo relação sexual, ouviu um estalo, sentiu uma dor intensa e o pênis perdeu a ereção imediatamente. Em seguida, surge um inchaço importante, com deformidade e coloração arroxeada.
— Não é algo imperceptível. É um evento marcante. É o que chamamos de aspecto em "berinjela", um quadro clínico clássico. Quando o paciente conta essa história, praticamente não há dúvida diagnóstica — diz o urologista.
Em alguns casos, a lesão pode ser ainda mais grave, atingindo os dois corpos cavernosos e até a uretra. Segundo o médico, são situações que exigem cirurgia imediata porque, quanto mais cedo operar, menores as chances de complicações como curvatura permanente e disfunção erétil.
Após a cirurgia, a alta costuma ocorrer em 24 horas. Mas há um detalhe que nenhum folião quer ouvir: repouso sexual mínimo de 30 dias — podendo ser maior, dependendo da gravidade.
— Não dá para voltar para o bloco no dia seguinte — resume Koifman, com a sobriedade de quem já viu a euforia retornar ao centro cirúrgico.
Carnaval, álcool e drogas
A matemática é simples: mais festas, mais encontros, mais álcool, mais ousadia. Segundo o médico, nos períodos festivos os casais ficam mais próximos, há mais encontros casuais e mais relações fora do ambiente doméstico.
— Os relatos passam por relações no carro, banheiro, locais improvisados. Soma-se a isso o consumo de álcool e drogas, que diminuem reflexos de dor e percepção de risco — afirma o urologista.
Nos estudos realizados pela equipe do hospital, duas posições aparecem com mais frequência nos relatos: “Mulher por cima e a posição de quatro apoios são as mais associadas. Quando o pênis sai e, na tentativa de reintrodução, bate no osso do púbis, pode ocorrer a flexão abrupta”.
‘Dobrou, doeu’
Foi o que pensou Rafael (nome fictício), psicólogo de 39 anos. Ele não imaginava que uma noite de samba terminaria numa fratura peniana. Até então, o assunto era distante, quase folclórico. Naquele sábado de julho de 2024, Rafael estava brigado com a parceira. O relacionamento era aberto, mas o clima entre os dois não era dos melhores. Mesmo assim, ele decidiu sair para um samba em Santa Teresa, no Centro do Rio. No embalo da noite, misturou álcool e LSD.
— Eu saía muito aos finais de semana naquela época. A gente estava brigado. Resolvi ir para um samba para espairecer. Usei balinha e bebi. Queria desligar a cabeça — conta Rafael. — Não demorou para o celular vibrar. Era ela. A mensagem foi direta: "Me encontra. Quero você". A gente ainda estava chateado um com o outro, mas aquela tensão virou desejo.
Segundo Rafael, eles se encontraram em casa e foi uma relação intensa, quase agressiva. Em determinado momento, na posição de quatro apoios, aconteceu o trauma. Ele lembra da sensação física, mas admite que os detalhes ficaram embaralhados pela droga:
— Dobrou. Doeu, mas eu estava anestesiado pelas drogas.
Ele foi ao banheiro, olhou, tentou continuar a relação, mas não deu. No dia seguinte, ainda tentou ter relação novamente. Só na segunda-feira, quando os efeitos químicos cessaram, a dor ganhou outra dimensão. O pênis estava inchado, com um edema.
— Eu olhei, mas não parecia algo tão grave. Voltei e ainda tentei fazer sexo de novo. Só que já não conseguia manter a ereção. No domingo de manhã, estava dolorido, mas achei que fosse passar. À noite, ainda fui a um samba, voltei para casa e dormi. A ficha só caiu na segunda-feira. Quando o efeito das drogas passou, a dor veio mais forte. Eu vi que já tinha um edema, estava inchado, escuro — recorda-se ele.
Vergonha
A fratura peniana é sempre tratada como emergência cirúrgica. Rafael demorou, mas depois procurou uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) mais perto. De lá, foi encaminhado ao Souza Aguiar. Na fila da cirurgia, dois outros homens aguardavam com ele.
— Estavam sozinhos. Lembro que disseram que tinham traído as namoradas e estavam ali, escondidos — conta Rafael.
Durante o carnaval, o perfil predominante é mais jovem. Ao longo do ano, a faixa etária é variada. O constrangimento, porém, é quase universal. O médico explica que a maioria dos casos demora a chegar à unidade e o principal motivo da demora é a vergonha.
— Muitas vezes estão em relações extraconjugais. A primeira pergunta que fazem é: "O que eu vou dizer em casa?". Mas nenhuma vergonha pode ser maior do que o risco de perder a função sexual — enfatiza o chefe do setor de Urologia do Souza Aguiar.
Segundo ele, não existe tratamento conservador eficaz. A cirurgia deve ser feita o mais rápido possível. Quanto mais cedo o paciente é operado, menores as chances de complicações.
— Se o paciente demora, pode haver cicatrização inadequada, levando à curvatura permanente do pênis. Isso pode dificultar ou até impedir a relação sexual. Também pode ocorrer disfunção erétil. Em casos mais graves, a lesão atinge estruturas adicionais. Além dos dois corpos cavernosos, temos a uretra, por onde passa a urina. Ela também pode se romper — afirma Koifman, acrescentando que, nesses casos, a cirurgia que leva em média 40 minutos é mais complexa e demora mais.
O ideal é que o homem procure uma emergência médica mais perto para ser avaliado pelo especialista e, caso seja diagnosticada fratura de pênis, o tratamento é cirúrgico e imediato.
Recuperação e responsabilidade
Na maioria dos casos, a alta hospitalar ocorre em 24 horas. O pós-operatório, no entanto, exige disciplina.
— O paciente precisa evitar atividade sexual por, no mínimo, 30 dias — explica o médico. — Dependendo da gravidade, o tempo pode ser maior. O repouso é fundamental para uma boa cicatrização.
Após o procedimento, Rafael recebeu orientações dos médicos. A mais difícil para ele: nada de relação sexual por meses.
— É muito doloroso. E homem tem ereção involuntária à noite. Justamente quando eu não podia, parecia que só tinha sonho erótico, doía bastante. O médico falou em seis meses sem ter relações sexuais. Eu acho que eles falam um prazo maior porque sabem que a gente não vai respeitar totalmente. No meu caso, eu não aguentei mais de 20 dias.
Segundo Koifman, as sequelas podem ultrapassar as barreiras físicas e ir para traumas psicológicos.
— Alguns pacientes desenvolvem medo de voltar a ter relação sexual. Criam uma barreira psicológica. Já tivemos casos de refratura. Quando identificamos esse trauma, encaminhamos para apoio psicológico.
Tabu
O urologista e o paciente Rafael concordam que a saúde sexual masculina ainda é cercada por silêncio e desinformação. Muitos homens demoram a procurar atendimento por vergonha ou por acreditarem que “vai melhorar sozinho”. Esse silêncio, segundo o urologista, contribui para a subnotificação dos casos:
— A fratura peniana é subnotificada por causa desse tabu. O homem não fala sobre isso, não se informa e acha que nunca vai acontecer com ele. A maior prevenção é o conhecimento. Saber como acontece, entender os riscos e evitar comportamentos de maior perigo, principalmente em momentos de euforia. Prazer e responsabilidade não são opostos. Informação é a melhor ferramenta para preservar a saúde sexual.
Rafael reconhece que também subestimou o problema. Durante a recuperação, precisou manter o órgão voltado para cima para favorecer a cicatrização e conviver com a ansiedade de retomar a vida sexual. Hoje, ele fala sobre o assunto com franqueza.
— Acho que os homens deveriam falar mais sobre sexualidade. Eu me considero curioso, informado, mas não sabia quase nada sobre fratura peniana até acontecer comigo. Demorei para procurar ajuda. Ninguém fala abertamente sobre saúde sexual masculina. Eles têm vergonha. Mas isso pode custar muito caro.
https://oglobo.globo.com/rio/noticia/2026/02/20/casos-de-fratura-peniana-crescem-no-carnaval-souza-aguiar-lidera-atendimentos-no-rio-com-quase-um-caso-por-dia-durante-a-folia.ghtml




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