Órgãos envelhecem em ritmos diferentes e têm idades distintas, diz estudo

O processo não acontece de maneira uniforme em todo o organismo.

Pesquisadores usaram inteligência artificial para analisar mais de 25 mil imagens de 40 tipos de tecidos humanos e descobriram que diferentes órgãos seguem ritmos próprios de envelhecimento

Por Sarah Macedo - 14/08/2026 

Estudo indica que um exame de sangue poderá, no futuro, ajudar a identificar como diferentes órgãos estão envelhecendo — Foto: julien Tromeur/Unsplasj

Você fica mais velho a cada ano. Mas isso não significa que todas as partes do seu corpo tenham a mesma idade. Um novo estudo indica que órgãos humanos podem seguir trajetórias bastante diferentes ao longo da vida, e que essas diferenças podem ser identificadas por meio da arquitetura microscópica dos tecidos. No futuro, a descoberta poderá ajudar a monitorar a saúde dos órgãos a partir de um simples exame de sangue.

A pesquisa, publicada nesta sexta-feira (14) na revista Nature Medicine, foi conduzida por cientistas do Centro de Pesquisa em Medicina Molecular (CeMM), da Academia Austríaca de Ciências, e do Instituto Ludwig Boltzmann de Medicina em Rede (LBI-NetMed), da Universidade de Viena. O estudo combinou inteligência artificial com imagens histológicas de tecidos humanos para desenvolver os chamados “relógios teciduais”, capazes de estimar a idade biológica de diferentes órgãos.

Cada órgão tem seu próprio relógio

Uma das principais descobertas foi justamente a diferença entre os ritmos de envelhecimento dos órgãos. O processo não acontece de maneira uniforme em todo o organismo. Pulmões, rins, pâncreas e glândulas adrenais (órgãos endócrinos que ficam acima de cada rim), por exemplo, apresentaram sinais de envelhecimento acelerado já entre os 20 e os 40 anos. Outros tecidos seguiram trajetórias mais complexas, com períodos de envelhecimento acelerado aparecendo apenas mais tarde. O útero apresentou uma mudança particularmente marcante por volta da idade da menopausa.

Os pesquisadores também encontraram associações entre o envelhecimento de determinados tecidos e condições médicas. A insuficiência renal, por exemplo, esteve relacionada a sinais de envelhecimento acelerado em vários tecidos, enquanto a diabetes apresentou efeitos particularmente significativos no pâncreas.

“O que chama a atenção é como cada órgão envelhece de forma diferente e como isso se reflete na arquitetura dos tecidos”, disse Ernesto Abila, coautor principal do estudo, em comunicado. Para ele, os modelos de aprendizado profundo conseguem interpretar esses padrões espaciais e mostrar o envelhecimento como uma remodelação da arquitetura dos tecidos, e não apenas como uma alteração molecular.

Os relógios também identificaram indivíduos cujos tecidos apresentavam mudanças estruturais acentuadas antes do que seria esperado para sua idade cronológica. Isso sugere que a análise pode ajudar a identificar casos em que determinados órgãos estão envelhecendo de maneira atípica.

Como a pesquisa foi feita

Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram dados do Projeto de Expressão Genótipo-Tecidual (GTEx), que reúne amostras de 983 pessoas. O material possuía 40 tipos de tecido, incluindo cérebro, coração, pulmão, pâncreas, pele e intestino. Ao todo, foram analisadas 25.712 imagens digitais de alta resolução, correspondentes a cerca de 480 milhões de mosaicos individuais.

As imagens mostraram que a arquitetura dos tecidos guarda informações sobre o processo de envelhecimento. Mesmo sem receber instruções específicas para procurar a idade, os modelos de inteligência artificial identificaram esse fator como o principal elemento relacionado à aparência dos tecidos nos 40 tipos analisados.

A partir disso, a equipe desenvolveu modelos capazes de estimar a idade biológica de cada órgão com base em sua aparência microscópica. Os chamados relógios teciduais apresentaram um erro médio de previsão de 4,9 anos, e conseguiram identificar características relacionadas ao envelhecimento específicas de determinados tecidos. A idade biológica estimada pelos modelos também apresentou relação com características conhecidas do envelhecimento, como o encurtamento dos telômeros (extremidades dos cromossomos), alterações patológicas nos tecidos e a quantidade de doenças crônicas.

“Nossos tecidos carregam um registro notavelmente detalhado do processo de envelhecimento”, afirmou André Rendeiro, Investigador Principal do CeMM e autor correspondente do estudo, em comunicado. Segundo ele, a combinação entre imagens histológicas e inteligência artificial permite identificar padrões de envelhecimento biológico que não são perceptíveis ao olho humano.

O sangue pode ajudar

Apesar dos resultados, existe uma dificuldade, já que, para observar diretamente a arquitetura dos tecidos, seria necessário obter uma amostra do órgão. Como esse tipo de coleta não é possível ou adequada em muitas situações, os pesquisadores buscaram uma alternativa. A equipe relacionou os perfis de expressão gênica encontrados no sangue com as diferenças entre a idade cronológica e a idade dos tecidos estimada pelos relógios teciduais. Com isso, foi possível construir modelos capazes de prever características relacionadas à idade biológica de órgãos a partir de amostras de sangue.

“Este é um salto conceitual: usar a linguagem do envelhecimento tecidual, aprendida a partir de imagens, e traduzi-la em algo legível a partir de uma coleta de sangue de rotina”, disse Iva Buljan, coautora principal do estudo, em comunicado.

Os indicadores obtidos a partir do sangue conseguiram identificar padrões de envelhecimento associados a diferentes doenças, entre elas Alzheimer, doença de Crohn, fibrose cística, vasculite, diabetes e acidente vascular cerebral (AVC). Na doença de Alzheimer, o sinal mais forte de envelhecimento foi identificado especificamente no cérebro. Já na doença de Crohn, os pesquisadores observaram sinais de envelhecimento acelerado em todo o trato gastrointestinal.

“Este estudo destaca que o envelhecimento não é simplesmente uma questão de tempo cronológico”, afirmou Yimin Zheng, terceiro coautor principal da pesquisa, em comunicado. Segundo ele, os processos de envelhecimento dos diferentes órgãos parecem ser moldados por fatores sistêmicos e específicos de cada tecido.

Para os autores, a arquitetura dos tecidos pode funcionar como uma espécie de registro integrado de alterações moleculares e fisiológicas relacionadas tanto ao envelhecimento quanto às doenças. Ainda será necessário aprimorar a técnica, mas os resultados indicam que, no futuro, ela poderá ajudar a acompanhar o envelhecimento dos órgãos e a identificar possíveis alterações por meio de um simples exame de sangue, o que pode abrir caminho para formas menos invasivas de monitorar a saúde.

https://revistagalileu.globo.com/saude/noticia/2026/08/orgaos-envelhecem-em-ritmos-diferentes-e-tem-idades-distintas-diz-estudo.ghtml