Polícia faz operação para desarticular 'núcleo político' do Comando Vermelho no Amazonas

As investigações apontam que os suspeitos facilitavam a contratação de empresas de fachada nos setores de transporte e logística.

Segundo a polícia, desde 2018 o esquema criminoso movimentou R$ 70 milhões, utilizando empresas de fachada para comprar drogas na Colômbia e distribuí-las. Entre os alvos estão a ex-chefe de gabinete do prefeito de Manaus, uma policial e três ex-assessores de vereadores.

Por Alexandre Hisayasu, Maria Eduarda Furtado, Lucas Macedo, Sabrina Rocha, Rede Amazônica, g1 AM - 20/02/2026 

Polícia Civil faz operação contra núcleo político do Comando Vermelho no Amazonas

A Polícia Civil do Amazonas deflagrou, na manhã desta sexta-feira (20), uma operação contra um esquema ligado ao Comando Vermelho que, segundo as investigações, mantinha um "núcleo político" com acesso aos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário com atuação estruturada voltada ao tráfico de drogas no Estado. Até a última atualização desta reportagem, 14 suspeitos foram presos, sendo oito no Amazonas.

Entre os presos está Anabela Cardoso Freitas, integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus e ex-chefe de gabinete do prefeito da capital, David Almeida (Avante) - ele não é alvo, nem investigado. 

A investigação da polícia indica que a quadrilha ligada à facção teria movimentado cerca de R$ 1,5 milhão para a organização criminosa por meio de empresas de fachada. Além de Anabela, também foram alvos um servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas e ex-assessores de três vereadores.

Ao todo, a Justiça expediu 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão. Também foram autorizados bloqueio de contas, sequestro de bens e quebra de sigilo bancário. As ordens são cumpridas em Manaus e em Belém (PA), Ananindeua (PA), Belo Horizonte (MG), Fortaleza (CE), Teresina (PI) e Estreito (MA). A polícia identificou movimentações financeiras das conexões operacionais do esquema nestes Estados durante investigações. 

Veja os nomes dos alvos no AM:

• Izaldir Moreno Barros – servidor do Tribunal de Justiça do Amazonas;

• Adriana Almeida Lima – ex-secretária de gabinete de liderança na Assembleia Legislativa do Amazonas;

• Anabela Cardoso Freitas – investigadora da Polícia Civil e integrante da Comissão de Licitação da Prefeitura de Manaus. Foi chefe de gabinete do prefeito da capital até 2023;

• Alcir Queiroga Teixeira Júnior – citado na investigação como ligado a movimentações financeiras suspeitas;

• Josafá de Figueiredo Silva – ex-assessor parlamentar;

• Osimar Vieira Nascimento – policial militar;

• Bruno Renato Gatinho Araújo – investigado por participação no esquema.

• Ronilson Xisto Jordão – preso em Itacoatiara

Elo com o tráfico

Segundo a polícia, a organização criminosa movimentou cerca de R$ 70 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 9 milhões por ano desde 2018, e atuava em conjunto com traficantes do Amazonas e de outros estados.

Operação apura organização criminosa do Comando Vermelho com núcleo político no Amazonas — Foto: Lucas Macedo/g1 AM

As investigações apontam que os suspeitos facilitavam a contratação de empresas de fachada nos setores de transporte e logística. Na prática, essas empresas seriam usadas para comprar drogas na Colômbia e enviá-las a Manaus. Da capital amazonense, os entorpecentes seriam distribuídos para outras unidades da federação.

Os investigados devem responder por organização criminosa, associação para o tráfico de drogas, corrupção ativa e passiva, violação de sigilo funcional, lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e violação de sigilo funcional.

O g1 tenta localizar a defesa dos alvos da operação. O gabinete do prefeito de Manaus também foi procurado para comentar a operação que teve como alvo a ex-assessora do político.

Início da investigação

As apurações da Polícia Civil começaram após a apreensão de 500 tabletes de entorpecentes do tipo maconha skunk, sete fuzis de uso restrito, duas embarcações utilizadas no transporte da droga, um veículo utilitário empregado na logística terrestre, além de aparelhos celulares. Um dos envolvidos foi preso em flagrante na ocasião.

A partir do flagrante foi instaurado inquérito com o objetivo de identificar a cadeia de comando, os operadores logísticos, os financiadores e os colaboradores do esquema criminoso. A apuração apontou que o grupo atuava de forma organizada, com divisão de tarefas e estruturação em núcleos operacional financeiro e de apoio logístico.

Ainda de acordo com a investigação, a organização criminosa utilizava rotas fluviais e terrestres para o transporte de entorpecentes, bem como veículos alugados em nome de terceiros, com o intuito de dificultar o rastreamento pelas autoridades. Também foi identificado o uso de empresas formalmente registradas nos ramos de transporte e locação, com indícios de funcionamento apenas documental, utilizadas para a movimentação e ocultação de valores de origem ilícita.

Relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações bancárias atípicas de elevado valor, com transferências entre investigados, empresas vinculadas ao grupo e pessoas situadas em diversos estados da federação. As análises indicam incompatibilidade entre o volume financeiro movimentado capacidade econômica declarada pelos envolvidos.

Os elementos reunidos apontam, ainda, indícios de tentativas de obtenção indevida de informações sigilosas relacionadas a procedimentos criminais, com o objetivo de antecipar ações policiais e judiciais, fato que segue sob apuração específica.

https://g1.globo.com/am/amazonas/noticia/2026/02/20/operacao-mira-lavagem-do-comando-vermelho-com-nucleo-politico-no-am.ghtm