Bolsonaro inaugura linha do Sirius e ministro projeta laboratório nível 4 em Campinas

Em seu pronunciamento, Bolsonoro defendeu que é por meio da tecnologia que se pode buscar "a independência da nação"

Bolsonaro inaugura linha de pesquisa do Sirius e ministro projeta laboratório de biossegurança 4 em Campinas 

Presidente falou da possibilidade da região se transformar em 'Vale do Silício de Biotecnologia' e que pode sugerir à Petrobras que destine recursos para isso; elogiado pelo chefe do Executivo, superlaboratório ainda precisa de R$ 180 milhões para concluir 1ª fase em 2021.

Por Arthur Menicucci e Fernando Evans, G1 Campinas e região

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) inaugurou nesta quarta-feira (21) a primeira linha de pesquisa do Sirius, superlaboratório de luz síncrotron de 4ª geração instalado em Campinas (SP). Maior investimento da ciência brasileira, o acelerador de partículas prevê a montagem de 14 linhas de luz na 1ª fase, mas a conclusão dessa etapa em 2021 ainda depende da liberação de recursos pelo governo federal - veja mais abaixo. Depois da cerimônia, a comitiva presidencial pousou com dois helicópteros em Elias Fausto (SP), onde Bolsonaro lanchou em uma padaria.

Dizendo-se "apaixonado" pela estrutura do laboratório de Campinas, que visitou pela primeira vez e que já opera em caráter emergencial desde julho para auxiliar no combate à Covid-19, Bolsonaro projetou, apesar de citar dificuldade por recursos, a possibilidade da região se transformar em um Vale do Silício da Biotecnologia, já que deve abrigar o primeiro laboratório de biossegurança nível 4 (NB4) do Brasil - o projeto foi contratado e anunciado pelo ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes.

"Faltam palavras pra definir essa obra. Ela materializa para todos nós o futuro. Conversando há pouco com o José Roque [diretor do CNPEM], dado a excelência das empresas que circunvizinham essa obra, porque não temos aqui o Vale do Silício da Biotecnologia. E ele falou a palavra mágica: recurso. E também Petrobras. Eu não posso interferir na Petrobras, mas a título de sugestão, porque não destinar recursos para essa obra?", disse o presidente.

Em seu pronunciamento, o presidente defendeu que é por meio da tecnologia que se pode buscar "a independência da nação", e citou a Amazônia como uma das regiões mais fartas e abundantes para o campo da biotecnologia.

'Aqui realmente podemos buscar a independência da nossa nação. Quando se fala em Vale do Silício de Biotecnologia, temos a mais farta e abundante tecnologia do mundo, não só na região Amazônica, que é nossa e não pega fogo, assim como nosso Cerrado."

'Resposta a futuras pandemias'

Durante o evento, o ministro Marcos Pontes defendeu que a criação do laboratório de biossegurança máxima (NB4) dentro do Centro Nacional de Pesquisa em Energias e Materiais (CNPEM), que abriga o Sirius, será uma resposta do Brasil para futuras pandemias.

"Vão acontecer outras e a gente tem que estar preparado. Aumentamos 14 laboratórios de Nível de Biossegurança 2 para Nível de Biossegurança 3 para poder tratar com pandemia. Mas, do México para baixo, na América Latina, a gente não tem nenhum NB4. E isso é necessário. Se entrar um vírus ou alguma coisa de alta letalidade, alta periculosidade, um Ebola por exemplo da vida, alguma coisa desse tipo, nós não temos instalação para isso por enquanto. Mas nós teremos. Aqui", disse.

Segundo Pontes, o ministério já contratou, com os recursos disponibilizados para o combate à Covid-19, a fase de projeto do NB4. Somente após essa etapa que o governo terá detalhes da construção, custo e prazos.

Diretor-geral do CNPEM e do projeto Sirius, Antônio José Roque da Silva explicou que o ministério liberou, durante a pandemia, R$ 45 milhões para um conjunto de várias atividades relacionadas ao coronavírus no CNPEM. Desse recurso, cerca de R$ 3 milhões foram destinados ao pré-projeto do NB4.

"Vamos procurar acoplar esse centro de biossegurança 4, mas que conterá também um prédio de biossegurança 3, que é necessário para a Covid-19, e biossegurança 2, então um espectro amplo de vírus e patógenos, acoplado a linhas de luz que a gente tem aqui", disse Roque da Silva.

O prédio ficaria do lado de fora do Sirius, mas com linhas extralongas que entrariam na estrutura e permitiriam que as técnicas de síncrotron e se acoplassem à biossegurança, o que seria único no mundo, segundo o diretor. No entanto, o projeto está em estudo e ainda não tem a viabilidade garantida.

"Temos que conversar com o Ministério da Saúde, da Agricultura, da Defesa, [com] os diferentes órgãos que teriam interesse na utilização para justamente compreender a necessidade e conseguir fazer um projeto para atender todas as necessidades".

Presidente Jair Bolsonaro visita acelerador de partículas Sirius, no CNPEM, em Campinas — Foto: Ricardo Custódio / EPTV

Verbas para o Sirius

Com a cerimônia desta quarta-feira, a linha de luz batizada de Manacá é a primeira das 14 previstas na primeira fase do Sirius a operar oficialmente e passa a aceitar propostas de outros objetos de estudo que não a Covid-19.

O diretor-geral do CNPEM afirmou que a organização social vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTIC) tem recursos garantidos para a montagem de seis dessas 14 linhas de luz. Para o restante, o projeto ainda depende de verba que não está garantida.

"Precisaria de algo em torno de R$ 180 milhões no ano que vem, mas os recursos estão em negociação, ainda estamos no Congresso com o projeto de leio orçamentária. Somente após esse trâmite podemos saber ao certo sobre os recursos, mas o ministério entende que é uma obra prioritária e o presidente deu a entender que tem prioridade", disse Silva.

Aberto aos pesquisadores

Dedicada a técnicas de Cristalografia de Proteínas por Raios X, a estação de pesquisa Manacá pode ajudar cientistas no avanço de pesquisas em áreas como biotecnologia industrial, biorrenováveis, biocombustíveis, biologia vegetal, agricultura, nutrição, busca de novos candidatos a medicamentos e doenças, como Alzheimer, câncer, esquizofrenia, cardiopatias, dentre outras.

Entenda o Sirius, o novo acelerador de partículas do Brasil

Uma força-tarefa vem sendo realizada desde o início da pandemia para entregar as primeiras linhas de luz do Sirius. Depois da Manacá, a expectativa dos cientistas é colocar em operação, ainda neste ano, a Cateretê.

Outras quatro linhas devem ser montadas até o fim de 2020, mas o comissionamento deve ocorrer no primeiro semestre de 2021.

Funcionalidade

O Sirius realizou em julho os primeiros experimentos ao obter imagens em 3D de estruturas de uma proteína imprescindível para o ciclo de vida do novo coronavírus.

Em setembro, um grupo do Instituto de Física da USP de São Carlos utilizou o acelerador na busca por uma "chave" para desativar o novo coronavírus. Foi o primeiro experimento de pesquisadores externos no Sirius.

O circo e a mexerica...

Para ser ter uma ideia do que os cientistas que trabalham no Sirius tentam "enxergar" e entender com a ajuda do superlaboratório, basta ver a comparação feita pela pesquisadora do CNPEM, Daniela Trivella.

"Se uma célula humana fosse do tamanho de um circo, o vírus seria o equivalente a uma mexerica."

Com as linhas de pesquisa, os cientistas esperam ver e distinguir a interação do vírus em tanto espaço. E com a potência do equipamento será possível enxergar, inclusive, até os pequenos "gominhos da fruta", estruturas menores que as proteínas do Sars-Cov-2, por exemplo.

O que é o Sirius?

Principal projeto científico do governo federal, o Sirius é um laboratório de luz síncrotron de 4ª geração, que atua como uma espécie de "raio X superpotente" que analisa diversos tipos de materiais em escalas de átomos e moléculas.

Além do Sirius, há apenas outro laboratório de 4ª geração de luz síncrotron operando no mundo: o MAX-IV, na Suécia.

Para observar as estruturas, os cientistas aceleram os elétrons quase na velocidade da luz, fazendo com que percorram o túnel de 500 metros de comprimento 600 mil vezes por segundo. Depois, os elétrons são desviados para uma das estações de pesquisa, ou linhas de luz, para realizar os experimentos.

Esse desvio é realizado com a ajuda de imãs superpotentes, e eles são responsáveis por gerar a luz síncrotron. Apesar de extremamente brilhante, ela é invisível a olho nu. Segundo os cientistas, o feixe é 30 vezes mais fino que o diâmetro de um fio de cabelo.

https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2020/10/21/bolsonaro-inaugura-linha-de-pesquisa-do-sirius-e-ministro-projeta-laboratorio-de-biosseguranca-4-em-campinas.ghtml