Guedes diz que é 'irresponsável' furar teto de gastos 'para fazer política, para ganhar eleição'

Racha sobre financiamento do Renda Cidadã provoca reação no mercado financeiro

Ministro disse que concorda em alterar limite de gasto público para 'salvar vidas', por exemplo, em uma segunda onda da pandemia. Custeio do Renda Cidadã intensificou atritos no governo.

Por Mateus Rodrigues e Laís Lis, G1 — Brasília

Racha sobre financiamento do Renda Cidadã provoca reação no mercado financeiro

O ministro da Economia, Paulo Guedes, criticou em entrevista nesta sexta-feira (2) um suposto interesse em furar o teto de gastos da economia brasileira para "fazer política" e "ganhar eleição".

"Uma coisa é você furar o teto porque você está salvando vidas em ano de pandemia, e isso ninguém pode ter dúvidas. Se a pandemia recrudescer e voltar em uma segunda onda, aí sim nós decisivamente vamos fazer algo a respeito. E aí sim, é o caso de você furar o teto", declarou.

"Agora, você furar teto para fazer política, para ganhar eleição, para garantir, isso é irresponsável com as futuras gerações. Isso é mergulhar o Brasil no passado triste de inflação alta", prosseguiu.

Guedes falou à imprensa após supostas críticas feitas pelo ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, em reunião com investidores na manhã desta sexta.

Furar teto de gastos 'para fazer política, para ganhar eleição' é irresponsável, diz Guedes

Segundo reportagem do serviço Broadcast, do jornal "O Estado de S. Paulo", Marinho disse que foi Guedes o autor da proposta de usar dinheiro de precatórios para financiar o novo programa social do governo, chamado Renda Cidadã. O ministro da Economia rechaçou a ideia publicamente nesta quarta (30).

Mais cedo, Guedes já tinha dito que não acreditava nessas possíveis declarações. Mas disse também que, se Marinho falou isso, é "despreparado", "desleal" e "fura-teto".

Em nota divulgada pouco antes da fala de Guedes, o ministério informou que não houve "desqualificações ou adjetivações de qualquer natureza contra agentes públicos".

Guedes diz que, se Marinho falou mal dele, é 'despreparado', 'desleal' e 'fura-teto'

O ministro da Economia também foi questionado sobre outra possível fala de Marinho, que teria dito que o Renda Cidadã sairia "de qualquer jeito".

"Isso é uma opinião dele. Ele deve estar mais informado do que eu, como não entendo nada de política, ele deve saber tudo de política, deve sair alguma coisa. O que eu digo é que temos o compromisso de manter o teto", afirmou.

Guedes não respondeu se conversou com o ministro Marinho nesta sexta, mas disse que a relação deles está tranquila. "Tranquilo. Problema zero. Eu tenho a vantagem de ter essa transparência e espontaneidade e isso explica a minha confiança no presidente e a confiança do presidente em mim”.

Teto de gastos e Renda Cidadã

O teto de gastos citado por Guedes é uma regra criada em 2016 para segurar as despesas públicas do governo federal. Na prática, ele impede que os gastos do governo cresçam mais que a inflação do período, o que prejudicaria o controle da dívida brasileira.

O governo Jair Bolsonaro tenta viabilizar um programa social chamado Renda Cidadã para incorporar e substituir o Bolsa Família, aumentando o repasse por família. Mas, sob o teto de gastos, o governo ainda tenta encontrar a melhor forma de encaixar os custos adicionais no orçamento.

https://g1.globo.com/economia/noticia/2020/10/02/guedes-diz-que-e-irresponsavel-furar-teto-de-gastos-para-fazer-politica-para-ganhar-eleicao.ghtml