Julio Casares renuncia ao cargo de presidente do São Paulo
Vice Harry Massis assume até o fim de 2026
Julio Casares antes de São Paulo x Fortaleza — Foto: Marcos Ribolli
Por Redação do ge — São Paulo - 21/01/2026
ge São Paulo traça linha do tempo do impeachment de Casares
Julio Casares renunciou ao cargo nesta quarta-feira e não ocupa mais a cadeira de presidente do São Paulo. O agora ex-dirigente fez uma publicação nas redes sociais para confirmar a saída do cargo máximo do executivo tricolor.
Depois de perder na votação do Conselho Deliberativo, Casares oficializou o seu pedido de renúncia antes da assembleia dos sócios, que poderia confirmar o impeachment. Agora, essa assembleia não vai mais acontecer.
No Conselho, 188 conselheiros votaram a favor do impeachment do presidente, em pleito na sexta-feira passada marcado por muitos protestos de torcedores contra Casares. Foram 45 votos contra e dois em branco.
Agora, o vice Harry Massis Junior, de 80 anos, assume a função até o fim do mandato, em dezembro de 2026.
Confira a carta de Casares na íntegra:
Ao longo de minha trajetória à frente da Presidência do São Paulo Futebol Clube, atuei com absoluta seriedade, firmeza, responsabilidade e compromisso com a defesa da instituição, sempre orientado pelo respeito à sua história, à sua grandeza e à sua torcida.
Nos últimos meses, o clube passou a viver um ambiente de intensa instabilidade, marcado por ataques reiterados, narrativas distorcidas e pressões externas que extrapolaram o debate institu-cional legítimo.
O que se iniciou como versões frágeis e boatos foi sendo reiteradamente reproduzido, amplificado e, gradativamente, tratado como verdade, mesmo sem a apresentação de fundamentos consistentes ou provas robustas.
Formou-se, assim, um contexto de grave contaminação do debate, no qual ilações passaram a ocupar o lugar dos fatos e suposições foram apresentadas como certezas, em um processo que, aos poucos, transformou versões construídas em verdades aparentes.
Não afirmo, neste momento, autoria, métodos ou responsabilidades específicas, até porque tais questões devem ser devidamente apuradas pelos órgãos competentes. Contudo, é impossível ignorar que houve articulações de bastidores, distorções deliberadas e uma trama política ardilo-sa, marcada por interesses, traições institucionais e expedientes incompatíveis com a história e os valores do São Paulo Futebol Clube — fatos que o tempo e a história haverão de registrar.
Esse cenário afetou profundamente a governança do clube e, de forma absolutamente inaceitável, ultrapassou os limites da esfera institucional, alcançando minha família e minha vida pessoal.
Não renunciei anteriormente porque entendi ser meu dever exercer, até o fim, o direito à ampla defesa e ao contraditório.
Enfrentei esse processo de maneira direta, presencial e com dignidade, mesmo diante de um am-biente já contaminado por narrativas previamente construídas.
Na prática, a manifestação realizada na tribuna foi o único espaço efetivo que me foi concedido para apresentar minha defesa, em um rito sumário que, ao meu juízo, restringiu a necessária produção de provas e o pleno esclarecimento dos fatos.
A decisão tomada por este Conselho encerra um processo de natureza política.
Respeito essa decisão, ainda que dela discorde, e reafirmo, com absoluta convicção, que jamais pratiquei qualquer irregularidade.
Minha renúncia não representa confissão, reconhecimento de culpa ou validação das acusações que me foram dirigidas.
Diante da continuidade desse ambiente, da necessidade de preservar minha saúde e, sobretudo, de proteger minha família de ataques e ameaças gravíssimas, bem como para evitar que essa disputa política continue a prejudicar o time de futebol e o ambiente esportivo do clube, apresento minha renúncia ao cargo de Presidente, com efeitos a partir desta data, antecipando, inclusive, o exercício do direito estatutário de aguardar a Assembleia Geral.
Faço questão de registrar que deixo um clube esportivamente estruturado, com um time competi-tivo, que voltou a disputar decisões, chegou a finais e conquistou títulos de grande relevância. Destaco, de forma especial, a conquista da Copa do Brasil de 2023, título inédito e histórico, que simboliza o trabalho sério, responsável e comprometido desenvolvido ao longo da gestão.
Esse desempenho é fruto do esforço conjunto de atletas, comissão técnica e profissionais do clu-be, aos quais manifesto meu respeito e confiança.
Tenho absoluta convicção de que seguirão honrando essa camisa e lutando por títulos, com o apoio da torcida e da instituição.
Meu afastamento também tem como objetivo permitir que eventuais apurações ocorram de forma ampla, técnica e isenta, sem qualquer alegação de interferência, para que a verdade possa ser plenamente buscada e alcançada.
Reitero, por fim, minha certeza de que o São Paulo Futebol Clube é maior do que qualquer cargo, circunstância ou narrativa construída.
Ao São Paulo Futebol Clube, amor de infância e da minha vida, jamais renunciarei. Renuncio, sim, ao ambiente de conspirações, distorções, mentiras e disputas de poder que ultrapassaram os limites democráticos e tentaram manchar trajetórias, biografias e a própria história do clube.
Despeço-me com respeito, gratidão e amor permanente por esta instituição, que sempre honrarei.
Júlio Casares
Caio Dominguez comenta o afastamento de Casares da presidência do São Paulo
A gestão Casares
Foi no dia 12 de dezembro de 2020 que começou a gestão Julio Casares, eleito a primeira vez para o triênio 2021-2023. No período, registrou a conquista do Campeonato Paulista em 2021 sob o comando de Hernán Crespo, encerrando um jejum de 16 anos no Estadual. Em 2022, foi vice do mesmo Paulistão e também da Sul-Americana, sob o comando de Rogério Ceni.
No fim de 2023, foi reeleito para o triênio 2024/2026. Em seu primeiro ano, tirou o time da fila da Copa do Brasil, com a conquista sob o comando de Dorival Júnior. No ano seguinte, venceu a Supercopa contra o Palmeiras, com Thiago Carpini.
A conquista da Copa do Brasil, porém, teve um preço alto para o clube, que fez contratações de impacto, com Lucas Moura e James Rodríguez, e recusou algumas ofertas de vendas a jogadores como Pablo Maia, Welington e Rodrigo Nestor. A dívida, então, saltou de R$ 635 milhões de 2021 para R$ 968 milhões em 2024. O desequilíbrio obrigou o clube a mudar sua rota, adotando práticas administrativas diferentes a partir da criação do Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC).
Em 2025, o péssimo desempenho esportivo somado às negociações de jovens jogadores a preços abaixo de mercado derrubaram a popularidade de Casares. No fim do ano, a confiança do torce-dor na gestão despencou com a publicação do ge sobre a venda clandestina de um camaro-te do Morumbis.
Em áudio, Mara Casares e Douglas Schwartzmann admitiam participar de um esquema para uso clandestino de um camarote no show da Shakira, em fevereiro de 2025.
Impeachment
Conselheiros do São Paulo protocolaram em 23 de dezembro, dias antes do Natal, um requerimento com 57 assinaturas pedindo a convocação de reunião extraordinária para discutir o impeachment do presidente Julio Casares. O documento foi protocolado pelo grupo que reúne conselheiros da oposição do São Paulo, o Salve o Tricolor Paulista, com a assinatura, também, de 13 membros de grupos de situação.
Enquanto o caso do camarote ganhava destaque, a Polícia Civil já mantinha inquérito aberto atu-ando em algumas frentes de investigação, uma delas sobre supostas irregularidades no departa-mento de futebol, e outra em relação às contas bancárias do São Paulo Futebol Clube e de Julio Casares.
A Polícia Civil investiga, por exemplo, a razão do recebimento de R$ 1,5 milhão por depósitos em dinheiro nas contas de Julio Casares. Outra investigação tenta explicar a razão de 35 saques nas contas do clube entre 2021 e 2025, totalizando R$ 11 milhões.
https://ge.globo.com/futebol/times/sao-paulo/noticia/2026/01/21/julio-casares-renuncia-ao-cargo-de-presidente-do-sao-paulo.ghtml




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