Advogado sequestrado pelo PCC pediu socorro a cliente em 'tribunal do crime', mas foi ignorado

O cliente morreu baleado em um confronto com a Polícia Militar (PM) na Operação Patrocínio Fiel, deflagrada depois do sequestro de Rafaell.

Rafaell Roque ligou para José Carvalho, o Boqueta, que foi ao cativeiro, mas se recusou a interceder. Cliente morreu dias depois após confronto com a PM, durante o cumprimento de mandados da Operação Patrocínio Fiel.

Por g1 Santos - 17/08/2026 

Advogado sequestrado pelo PCC ligou para o cliente José Armerindo, o Boqueta, pedindo ajuda em "tribunal do crime", mas não foi defendido por ele.

O cliente do advogado morreu na última quarta-feira (12). Ele foi baleado pela Polícia Militar durante o cumprimento de um mandado de prisão.

O sequestro durou cerca de 6 horas em Cubatão (SP). A vítima foi liberada após prometer que deixaria uma ação judicial contra um integrante da facção.

O advogado denunciou o caso ao Ministério Público após o ocorrido. O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado assumiu as investigações.

O advogado criminalista Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, contou que ligou para um cliente ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) para pedir socorro enquanto era julgado em um "tribunal do crime" em Cubatão (SP). Segundo Rafaell, o homem foi ao local e se recusou a interceder pela vida do profissional.

O cliente era José Armerindo Santos de Carvalho, o Boqueta. Ele morreu na quarta-feira (12) após ser baleado em um confronto com a Polícia Militar (PM) na Operação Patrocínio Fiel, deflagrada depois do sequestro de Rafaell. Segundo a corporação, uma pistola calibre 9 mm foi apreendida com ele.

Rafaell lamentou o desfecho de Boqueta, a quem defendia em processos por porte ilegal de arma e ações contra o Estado — em um dos casos, conseguiu um habeas corpus e uma indenização de R$ 2 mil para o homem. Após o cliente se recusar a ajudá-lo no cativeiro, o advogado rompeu o contrato e renunciou à defesa dias depois do sequestro.

“Não desejava a morte de ninguém, ainda mais dele, porque assim, eu conheci ele sofrendo uma injustiça [...] Eu tentei fazer ele mudar de vida, sair do crime, ele não quis. E, infelizmente, ele teve essa consequência do que ele plantou”, disse.

Motivação do sequestro

Rafaell foi sequestrado após ajuizar uma ação contra uma empresa comandada pelo suposto integrante da facção Wagner Rodrigues dos Santos. O objetivo do grupo era forçar o advogado a abandonar o processo e fornecer o endereço do cliente (e ex-sócio de Wagner) que ele representava.

O profissional explicou que entrou com a ação porque seus clientes teriam sido "expulsos" da empresa por Wagner, com quem tinham relação desde a infância. O suspeito teria prometido pagar um valor referente à parcela dos sócios para que eles deixassem o negócio, o que não aconteceu.

O advogado apontou que o empreendimento, em Guarujá (SP), era de interesse do grupo criminoso por ter 440 m² em área portuária, três barcos pesqueiros, duas câmaras frigoríficas, três máquinas de limpar camarão e uma de fabricar gelo.

O g1 tentou contato com a defesa de Wagner, mas não conseguiu localizá-la até a última atualização desta reportagem.

Rafaell Câmara Roque ligou para José Armerindo Santos de Carvalho, o Boqueta, durante o cárce-re. — Foto: Arquivo pessoal e Reprodução

Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, contou ter sido sequestrado e levado para uma comunidade, onde participou de um tribunal do crime do PCC — Foto: Arquivo pessoal e Ministério Público

José Armerindo Santos de Carvalho morreu durante um confronto com policiais militares em São Vicente — Foto: Arquivo Pessoal e Reprodução/Redes sociais

Rafaell Câmara Roque, de 36 anos, contou ter sido sequestrado e levado para uma comunidade, onde participou de um tribunal do crime do PCC — Foto: Arquivo pessoal

A emboscada

O crime aconteceu em 11 de junho, na Vila Esperança, em Cubatão (SP). Rafaell contou que nunca havia conversado com o suspeito William Nascimento Boaventura (que acabou preso na operação policial), mas foi ao local após ele entrar em contato solicitando um serviço de advocacia. O objetivo da contratação seria tentar a liberação de outro suposto integrante do PCC que havia sido preso.

Em vez de ir a uma delegacia, o profissional foi orientado a encontrar o homem em uma comunidade. "No trajeto, eu percebi que estava numa fria. Só que eu só tive certeza quando eu cheguei no barraco e eu vi que era um tribunal do crime", relatou.

Rafaell foi mantido em cárcere das 19h à 1h da madrugada seguinte e, segundo ele, sofreu tortura psicológica durante o período. Cerca de 30 pessoas participaram do “tribunal do crime”, algumas delas por videochamada.

A reportagem também tentou contato com a defesa de William, mas não obteve retorno.

Denúncia e impactos

Apesar de ter cedido inicialmente à condição imposta pelos criminosos, Rafaell procurou o Ministério Público para denunciar o caso. A investigação foi assumida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Mesmo com o receio de sofrer represálias, o advogado decidiu tornar o caso público. “Aprendi com Martin Luther King que o problema do mundo não é o barulho dos maus, mas o silêncio dos bons. Enquanto a gente não abre a boca, os ratos estão fazendo a festa”, afirmou.

Ele também apontou a contradição da facção, que usa o lema "Paz, Justiça e Liberdade". Para o profissional, o grupo agiu com injustiça e cerceou sua liberdade, ultrapassando os limites do próprio discurso.

O episódio abalou a saúde mental e a rotina de Rafaell, que passou a desconfiar de ligações de desconhecidos e viu pessoas próximas se afastarem por medo.

"Eu fiquei quinze dias sem dormir. Eu tenho medo, pânico às vezes. Meu psicológico ficou muito abalado [...] Não sabia que eu ia perder tudo que eu perdi [após entrar com a ação]. Perdi a minha paz, a minha liberdade”, lamentou.

https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2026/08/17/advogado-sequestrado-pelo-pcc-pediu-socorro-a-cliente-em-tribunal-do-crime-mas-foi-ignorado.ghtml