No encerramento da série sobre desperdício, temos o trabalho da Embrapa em busca de alimentos mais duráveis, a fortaleza da agricultura familiar, as feiras agroecológicas, o êxito de uma produção de atas e uma entrevista com o representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic
Na contramão do desperdício, pesquisadores da Embrapa Ovinos e Caprinos, em Sobral, usam o laboratório para oferecer à sociedade e ao mercado produtos mais duráveis, que não fiquem tão expostos ao desgaste causado pelo tempo
Fortaleza/Sobral/General Sampaio. O pesquisador Ebenézer de Oliveira Silva, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) - Agroindústria Tropical - se diz perplexo com o desperdício do caju no País. "Segundo a FAO, em 2011, o Brasil produziu 1.788.312 toneladas de caju. Na indústria, estima-se que o aproveitamento do pedúnculo esteja em torno de 10%, incluindo suco integral (5%), ração animal (2,5%), cajuína, doces e outros (1,5%). Supondo que o balanço de massa, em termos percentuais, do total produzido seja exato, o País consumiu 5% do caju in natura, processou 10% e perdeu nada menos do que 85% na pós-colheita".
Em relação ao melão, os índices são também preocupantes, aponta Ebenézer. "Em 2011, numa área de vinte mil hectares, em números arredondados, o Brasil produziu 500 mil toneladas de melão. Desse total, exportou 170 mil toneladas. Internamente, foram consumidas 97 mil toneladas. O restante, aproximadamente 233 mil toneladas, foi perdido, uma vez que a indústria brasileira do melão é insignificante. Supondo que a balança de massa, em termos percentuais do total do prejuízo, seja exato, nós consumimos 19% do melão in natura, exportamos 34% e perdemos 47% na pós-colheita. São percentuais realmente impressionantes", frisa Ebenézer.
Na Embrapa Caprinos e Ovinos, em Sobral, pesquisadores apostam no aproveitamento integral dos alimentos para minimizar essa situação. "É um absurdo. Nós estamos em quarto lugar no mundo em termos de produção de alimentos e também somos um dos campeões do desperdício, chegando a perdas de um bilhão de reais por ano, o que seria suficiente para alimentar 500 mil famílias, ou seja, produzimos 25% a mais do que necessitamos", alerta o pesquisador Luís Laguna.
Alimentos sadios
"Há anos estamos pesquisando e trabalhando no sentido de buscar alimentos mais sadios, usando a nossa biodiversidade. Em relação ao doce de leite tradicional, por exemplo, utilizava de 25% a 30% de teor de açúcar. Fazendo uso do leite de cabra, conseguimos baixar esse percentual para 12,5%. Isso possibilitou que o teor de proteína dobrasse de 6% para 12%".
O doce de leite de cabra em tabletes é outra boa alternativa oferecida pela Embrapa. Ele pode ser conservado por um maior espaço de tempo antes da comercialização, evitando a deterioração e as perdas. Na forma natural ou adicionado de gergelim, castanha de caju, cravo moído, coco ralado ou canela em pó, é uma ótima alternativa para regiões que não possuem sistema de energia elétrica ou de refrigeração, possibilitando o processamento artesanal, ao nível de agricultura familiar, e a comercialização em feiras livres, devido ao fato de poder ser conservado à temperatura ambiente sem perder suas características.
O pesquisador Antônio Silva do Egito revela que a Embrapa trabalha também no sentido de aproveitar o soro do leite que é descartado no meio ambiente e é considerado um poluente. "Não se justifica esse desperdício. Nas grandes indústrias, isso é destinado para algum lugar. Na Europa eles transformam em soro em pó. Só que esse processo é muito caro. Uma das possibilidades interessantes é aproveitarmos esse soro fazendo o queijo ricota. A proteína que fica no soro é em grande quantidade e pode ser recuperada".
No início
Conforme Egito, a Embrapa Caprinos e Ovinos e a Embrapa Agroindústria de Alimentos trabalham com a ideia de hidrolisar o soro com enzimas. Esses hidrolisados seriam testados para possibilitar, por exemplo, substâncias microbianas. É um processo que está no início.
"Podemos utilizar o soro junto aos alimentos, como o feijão, já que, além das proteínas, possui também minerais. O que não se justifica é jogá-lo fora. Em último caso, que se dê aos animais. "O desperdício é uma questão cultural, a começar pelo fato de as pessoas comprarem muito mais do que necessitam. Na Europa, se adquire só o necessário. É preciso que as novas gerações mudem essa realidade", sugere.
Solidariedade
Indo de encontro a uma legislação incoerente e contraditória com a realidade do País e, ao contrário da maioria dos donos de restaurante, Antônio Nonato Sousa Silvestre, o Cambista, todos os dias aproveita a comida que é feita e não é consumida na Churrascaria Sol Nascente, de sua propriedade, localizada em General Sampaio, para o seu próprio consumo, da sua família, dos seus funcionários e de pessoas necessitadas que não têm dinheiro para se alimentar e passam pedindo o que comer.
"Fui uma pessoa muito sofrida. Sei como é difícil e importante para quem não tem praticamente nada conseguir o que comer. Por isso mesmo, acho um crime jogar alimento no lixo. Não faço isso de jeito nenhum"conta o Cambista, apelido que ganhou desde a época que fazia o jogo do bicho.
Antônio Nonato, que é natural de Itatira, conta que seu pai era deficiente e vivia da agricultura. "As dificuldades enfrentadas eram enormes. Nós praticamente só fazíamos uma refeição, o almoço, e, quando dava, tomávamos um café de manhã. Por isso, com 10 anos, comecei a trabalhar. Aprontava 16 quilos de algodão que eram transportados num burro. Apesar disso, meu pai conseguiu criar os onze filhos", relata. Em 1995, Nonato se transferiu, com a segunda esposa, para General Sampaio. Trabalhou como cambista até essa data, pois "o jogo do bicho estava muito fraco". Aos poucos, começou a fazer caldo. Em seguida, passou a assar carneiro. Até que, em novembro de 2012, inaugurou a churrascaria.
Cambista frisa que "a maioria das pessoas pede muito mais do que consome. Observando isso foi que passei a servir as porções, principalmente de arroz e baião de dois, acompanhadas de uma colher grande, dessas que não cabe na boca de uma pessoa. Com isso, não tem perigo de ninguém ter contato através da saliva com essa sobra. Ao recolher a mesa, os funcionários já sabem que aquele alimento servirá para todos nós e principalmente para quem mais precisa, que são os pedintes", explica Cambista.
A reportagem indagou ao representante da FAO no Brasil, Alan Bojanic, sobre a postura de Antônio Nonato. "Excelente. Ele é um exemplo a ser seguido, sem dúvida alguma. O combate ao desperdício e à fome passa por uma mudança de postura de toda a sociedade. Ele tem essa consciência de que muitos necessitam daquela comida que a maioria joga no lixo".
Congresso
A legislação brasileira é um verdadeiro gargalo para os donos de restaurante que desejam doar a comida que não é consumida. Se ficar constatado que alguém adoeceu após ingerir esses alimentos, o dono do estabelecimento pode ser processado e pegar até cinco anos de prisão. No Congresso tramita projeto de lei que propõe a revisão dessa lei nos termos do que acontece na Europa e EUA, onde a punição só acontece se ficar provado que o comerciante agiu de má-fé, ou seja, sabia que a comida repassada estava em estado impróprio para o consumo. (FM)




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