CRATO Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto comemora 200 anos
Festejos pelos dois séculos de existência do grupo musical contará com extensa programação cultural
Terreirada marcará festa de um dos grupos musicais mais antigos do País FOTO: ELIZÂNGELA SANTOS Crato. Dois séculos de uma tradição que resiste ao tempo e a quatro gerações, descendentes dos índios kariri. A Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto comemora 200 anos de resistência, com todo vigor das gerações que já passaram pela formação do grupo. A festa de aniversário contará com o bolo do parabéns e grupos de tradição numa terreirada de frente à casa de mestre Raimundo Aniceto, com 82 anos e ativo na banda, no próximo domingo, em Crato. Em 12 de janeiro, o mais antigo integrante do grupo, o Mestre Raimundo Aniceto, o primeiro pife da banda, faleceu, mas as gerações vão dando sequência ao legado. Junto com as comemorações de aniversário, que serão iniciadas a partir das 14 horas, na rua Manoel Macedo, no Seminário, haverá o lançamento do livro 'Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto: Memórias e Afetos', que reúne vários artigos de pessoas que têm de alguma forma uma relação com o grupo, e um acervo fotográfico para fazer um registro da data. Também será descerrada uma placa em homenagem aos integrantes da banda, como patrimônio imaterial. Cabaças Todos os anos o grupo comemora o aniversário no último domingo de maio. Para o mestre Raimundo Aniceto esse é um momento diferente. Ele lembra dos seus ancestrais, desde o avô que fundou a bandinha, até o seu pai, José Lourenço da Silva, um índio kariri que trouxe consigo as cabaças e também a alcunha de Aniceto. E a alegria do grupo veio se espalhando pelo mundo. Eram dez filhos de Zé Aniceto, seis deles homens, que passaram a integrar a banda. O mais velho, Francisco, liderou o grupo por décadas. Depois veio João, Luiz, Antônio, que se foi recentemente. Agora está o mestre Raimundo, que carrega consigo a responsabilidade de preparar os outros integrantes. De segundo pife à linha de frente. Para ele, uma tarefa difícil ter que substituir o mestre Antônio, primeiro pifeiro do Brasil, considerado um rei desse instrumento, na sua missão junto ao grupo. A dança e a música dos Aniceto têm como raiz os primeiros habitantes do Cariri e se traduz na formação ancestral do povo da região. Para a secretária de Cultura do Crato, Dane de Jade, é uma característica única e diferenciada dos outros grupos do Brasil. O uso da cabaça e a própria dança são identidades peculiares dos grupos da região, segundo ela. A Secretaria de Cultura do Crato estará realizando as homenagens ao mesmo tempo em que irá encaminhar projeto para o reconhecimento, por meio de decreto, dos irmãos Aniceto como patrimônio imaterial, no município. Ela ainda afirma que a data de aniversário vem sendo marcada pelo próprio grupo, que entra para a sua quarta formação. O mestre Antônio deu lugar a um dos seus filhos, Ciço, que além de tocar pife, dá o tom no tarol e no zabumba. Perda O sentimento ainda é forte com a perda de um dos grandes líderes que passou pelo grupo, deixando uma marca de alegria e resistência pela preservação da cultura. O mestre Raimundo Aniceto traduz o mesmo pensamento do seu irmão, quanto à permanência da tradição. "A família não é grande, mas é comprida. O grupo só termina se o mundo acabar de uma vez só", brinca mestre Raimundo. E ele está seguro quanto a isso. Entre primos e irmãos, o grupo está formado e ainda há a bandinha mirim. A terreirada, desde o mestre Elói Teles, conforme Dane de Jade, permanece. Ela destaca a importância desse momento de interação dos mestres dos grupos com a própria comunidade. Com isso, ressalta a importância de fortalecer essas ações no município do Crato. O diferencial da banda, que se destaca no Cariri é que já gravou quatro discos, um deles com a Orquestra Eleazar de Carvalho, e o último com o cantor Calé Alencar, que está no resgate da ancestralidade. Para Dane de Jade, isso faz com que a história passe por uma sequência desde o aldeamento indígena e se mantem dentro de uma estrutura familiar ordenada. A dança que veio dos índios em seus primeiros passos foi repassada pelo mestre Zé Aniceto. E foi ele que, aos cem anos, ainda fez apresentações durante uma das reinaugurações do Theatro José de Alencar e seguiu com a banda para o Rio Grande do Sul, no mesmo período, para realizar shows. "Era lúcido e ainda brincava", afirma mestre Raimundo. Com o pai aprendeu danças como o Corta Tesoura, Pula Cobra, Trancelim, e depois vieram passos como Amassa Barro, retirada do trabalho de construção das casas de taipa. Mestre Raimundo diz que a banda tem a missão de levar a alegria e também de fazer o grupo feliz. Do batizado, renovação, festas de aniversário, e velórios, os integrantes levam a missão de saudar o divino e incorporar o ritmo da música, com o som inspirado na natureza. Já percorreu diversos estados do Brasil, com apresentações em Crato e Portugal. E o grupo segue a sina adiante. Para o mais experiente do grupo, o pessoal já está no jeito. E pensar em se acabar a tradição, o nunca vem sem titubear na voz do mestre. "Se isso acontecer, é porque o mundo vai junto", finaliza. Mais informações: Banca Cabaçal dos Irmãos Aniceto Rua Manoel Macedo, 301 Bairro Seminário Crato Telefone: (88) 3523.2365




Comentários