Rã invasora da América do Norte ameaça fauna em Santa Catarina e põe pesquisadores em alerta
Encontrado pela primeira vez em 2025, animal pesa até 1,5 kg. Órgãos buscam evitar expansão em áreas de preservação
Por Lívia Nani — Rio - 13/07/2026
Rã-touro, originária da América do Norte, colocou órgãos ambientais em alerta — Foto: Reprodução/UFRGS/Márcio Borges-Martins
O som lembra o mugido de um boi, mas vem de dentro dos açudes. O autor pode chegar a 15 centímetros de comprimento, pesar até 1,5 quilo e engolir peixes, cobras, aves, pequenos mamíferos e até outras rãs. A rã-touro (Aquarana catesbeiana), originária da América do Norte e presente em vários estados brasileiros, colocou órgãos ambientais e pesquisadores de Florianópolis em alerta ao ser encontrada no ano passado, pela primeira vez, na capital catarinense.
Listada entre as cem espécies exóticas invasoras mais problemáticas do mundo, ela é considerada um risco potencial para a fauna nativa da Ilha de Santa Catarina. Desde que foi identificada pela primeira vez no estado, em outubro de 2025, em uma propriedade no bairro Ratones, passou a ser monitorada por uma força-tarefa formada pela Fundação Municipal do Meio Ambiente (Floram), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), ICMBio, Ibama e Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina (IMA).
A preocupação envolve a transmissão de doenças. A rã-touro pode carregar o fungo causador da quitridiomicose e o ranavírus, patógenos que afetam anfíbios e peixes. Embora não representem risco à saúde humana, essas doenças podem afetar espécies silvestres e causar prejuízos ambientais e econômicos.
O motivo de alerta em Florianópolis se deu porque a capital catarinense não possui registro de ranários — criadouros destinados à produção de carne e pele de rãs, e que despontaram no país na década de 1930, como uma alternativa de renda para pequenos produtores rurais. Pesquisadores apontam que a atividade é historicamente mal fiscalizada, e que alguns produtores vendem os filhotes de rãs, o que pode facilitar a difusão da espécie.
Até agora, a presença da rã-touro foi confirmada em três propriedades em Florianópolis. Em duas operações de campo, os pesquisadores capturaram 11 exemplares entre novembro de 2025 e março deste ano. Os animais foram encaminhados ao Laboratório de Herpetologia da UFSC, onde passam por análises para detectar a presença de doenças.
Auxílio da população
Equipes da UFSC, da Floram e do IMA vêm orientando moradores sobre como identificar a rã-touro. Ao escanear um QR Code, a população pode ouvir o som do animal e comparar, caso tenha identificado algo parecido. Caso constate que se trata da espécie, o passo seguinte é informar a localização para que a equipe faça a vistoria.
— A gente não tem equipes suficientes para estar em todos os lugares. Quando o morador aprende a identificar a rã-touro e comunica a ocorrência, conseguimos agir mais rapidamente — afirma o analista ambiental do ICMBio, Leoncio Pedrosa.
O sucesso da rã-touro como espécie invasora está ligado a um conjunto de características que favorecem sua adaptação. Além do grande porte, outro fator é a alta capacidade reprodutiva. Cada fêmea pode produzir milhares de ovos, permitindo que a população cresça rapidamente. Sem predadores naturais em quantidade suficiente para controlar sua expansão, a espécie ocupa o espaço de anfíbios nativos.
— Há uma tendência de esses animais viverem em condições próximas do ser humano. Tem espécies invasoras que não conseguem se estabelecer na Amazônia, por exemplo, porque já existe um grau de competitividade muito grande — diz Gabriel Jorgewich-Cohen, pesquisador do INPA e um dos autores de estudo genético sobre as populações de rã-touro no país.
De acordo com Paulo Garcia, professor da UFSC e doutor em Zoologia, a falta de interesse no consumo da carne da rã-touro pelos brasileiros e a dificuldade de manejo da espécie também favoreceram seu avanço. À medida que ranários fecharam, vários animais foram soltos ou fugiram.
— A gente não tem aqui predadores para essa rã, e ela passa a competir com a fauna nativa. Nessa competição, ela está em situação privilegiada, por atingir grande porte e se reproduzir com uma quantidade muito grande de ovos — explica.
A espécie também vem sendo monitorada em outros estados do Sul e do Sudeste. O Instituto Estadual de Florestas, em Minas Gerais, elabora uma lista estadual de espécies exóticas invasoras, para servir de base ao monitoramento e controle desses animais. Iniciado em 2024, o projeto está em fase de consulta pública.
https://oglobo.globo.com/brasil/noticia/2026/07/13/ra-invasora-da-america-do-norte-ameaca-fauna-em-santa-catarina-e-poe-pesquisadores-em-alerta.ghtml



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