Ambiente atrativo se desfez e CE vem perdendo investidores


Mesmo com um dos maiores potencias eólicos do País, o Estado tem cada vez menos projetos em leilões

AUSÊNCIA DE POLÍTICAS Os cerca de 526,8 MW de capacidade instalada oriundos de parques eólicos instalados no Ceará já deveriam estar disponíveis desde o mês passado, mas seguem sem conclusão As iniciativas que levaram o Ceará ao pioneirismo na geração de energia eólica do País e foram um verdadeiro marco para a experiência com matrizes energéticas alternativas vêm, há um bom tempo, perdendo fôlego - ou a força dos ventos. Com cerca de 526,8 MW de capacidade instalada que já deveriam estar disponíveis desde o mês passado, mas ainda aguardam a conclusão de parques eólicos que nem chegaram a ser concluídos, o Estado enfrenta a falta de interesse dos investidores e a demora do poder público em realizar ações que incentivem ou, no mínimo, permitam a aposta nesse tipo de geração por aqui. Apesar de ter um dos maiores potencias eólicos do Brasil, o Estado ainda não possui uma orientação das direções em que sopram os melhores ventos para o investimento nesse setor. O último atlas eólico cearense foi elaborado há 15 anos e não passou por atualização deste então. "Naquela época, o atlas foi feito baseado em medições precárias, está tudo obsoleto. O que temos no Governo do Estado do Ceará é um mau exemplo extremamente negativo. Se chego para investir e olho para o Ceará, com um atlas eólico do ano 2000, e na Bahia tem atlas eólico de 2014, claro que vou para a Bahia", compara o presidente da Câmara Setorial de Energia Eólica do Ceará e diretor do Centro de Energias Alternativas do Ceará (Cenea), Adão Linhares. A Bahia, inclusive, inaugurou, no fim de janeiro, a segunda unidade industrial eólica do Estado. Dessa vez, uma joint venture que vai produzir torres de aço para aerogeradores, fruto de uma parceria da Andrade Gutierrez com a Alstom. Usinas e capacidade Ainda na comparação com outros Estados, o Ceará, apesar de ter fechado o mês de novembro de 2014 como líder da geração eólica do País, segundo boletim divulgado em janeiro pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica, perde para o Rio Grande do Norte em quantidade de usinas e capacidade instalada. A competitividade, entretanto, não contempla apenas essas diferenças. "Não é apenas questão de competição, o dinheiro vai para onde tem possibilidade de se manter. Não adianta ficar esperando que, só porque tem vento, vão vir investimentos para o Ceará. O Estado não atrai, não dá credibilidade para os investidores", atesta Linhares. Condições Facilidade de espaço, boa recepção e indicativas de credibilidade são, segundo o diretor do Cenea, as condições mínimas para que o Estado volte a se tornar interessante para empreitadas nesse setor. "A situação aqui é tão esdrúxula que, se você tentar fazer um parque eólico no litoral, a recomendação é que não faça, procure outro lugar, porque o Ministério Público é contra. Aliás, os ambientalistas do Brasil são contra energia eólica. Onde já se viu isso?", questiona. A iniciativa mais presente do governo também é cobrada pelo presidente da Braselco, especializada em consultora para desenvolvimento de projetos de energia renováveis, Armando Abreu. 'Caminho das pedras' "Não subsídios ou facilitismos, é simplesmente criar um ambiente em que o investidor, quando chegar, saiba exatamente qual o caminho das pedras e para que organismos ambientais, Ministério Público e os responsáveis por vias, estradas, trabalhem em integração, de maneira a evitar pequenos obstáculos, às vezes um pouco ridículos. A licença ambiental de um parque eólico não pode estar na mesma fila da licença de uma varanda de um prédio", exemplifica, tocando mais uma vez na ferida que marca o desenrolar dos projetos eólicos no Estado. Para Abreu, a falta de sensibilidade do governo estadual no que diz respeito ao potencial eólico cearense levou à perda de espaço, fazendo que outros estados emplaquem mais projetos de matrizes alternativas nos leilões de energia. Dificuldades "Já aconteceu de investidor ganhar leilão e, por dificuldades várias, principalmente ambientais, ter de se mudar do Ceará para o Rio Grande do Norte", lembra o presidente da Braselco. Mesmo nesse cenário de dificuldades, ainda há possibilidades para colocar o Ceará novamente na rota eólica do País, segundo as projeções otimistas do presidente da Braselco. "Estamos em altura ótima, em um momento de transição no Governo do Estado. Essa é época de sensibilizar o governador também para essa questão. Ainda dá tempo porque todos os anos há leilões, e o governo está anunciando mais, com possibilidades para energia eólica", adianta Abreu. (JC)