SANTO ANTÔNIO: A FESTA DA ALEGRIA, DA FÉ E DO AMOR

A grandeza, a importância e o significado simbólico dessa festa

SANTO ANTÔNIO: A FESTA DA ALEGRIA, DA FÉ E DO AMOR

Rosemberg Cariry 

Há mais de 50 anos, acompanho, registro e estudo a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha, com grande interesse, chegando mesmo a ajudar no seu reconhecimento como patrimônio cultural do povo brasileiro. Pediram-me um artigo para defender a festa diante de alguns ataques recentes. Como se precisasse de uma defesa. Não precisa. A grandeza, a importância e o significado simbólico dessa festa, para além da sua importância social e cultural, situa-se na força de um arquétipo do sagrado, ligado à fertilidade da terra e à renovação cósmica do mundo, onde o profano é o outro lado da mesma moeda. 

O corte do pau da bandeira é um ritual muito sério e acontece com um compromisso ecológico pactuado, com permissão técnica do Ibama, onde para cada árvore derrubada são plantadas cem novas árvores. O carregamento do pau, parece um carnaval com suas inversões da situação social mais ordinária, mas trata-se de um ritual de fé, onde são pagas promessas, onde tem o foro privilegiado de uma irmandade em movimento, a responsabilidade e ética, no sentido do cuidado com o outro e com a própria população, para não acontecerem acidentes. Conheço não apenas o capitão do pau da bandeira, Rildo Teles, mas também grande parte dos carregadores, desses sou amigo e sei das suas imensas responsabilidades e crenças. 

A entrada triunfal do pau da Bandeira na cidade é um momento de grande alegria e emoção, porque mais do que a força do macho, o “pau da bandeira” representa o corte simbólico do “falo”, após fertilizar a terra e simbolicamente permitir a fartura e a beleza da vida. Trata-se, na verdade, de um rito antiquíssimo que permanece com uma força renovadora admirável numa sociedade cada dia mais economicista e mercantilizada, de puro culto ao consumo de supérfluos e cultura de entretenimento descartável.

Pegar no mastro cortado, para as mulheres representa não apenas a possibilidade do amor e do casamento, mas também o pedido de afastamento dos maus casamentos e da perversidade de muitos homens (já que o Cariri tem altas taxas de violência contra as mulheres). Assim é que, muitas devotas de Santo Antônio, preferem ficar solteiras, numa espécie de feminismo que afronta o patriarcado e constrói suas próprias regras sociais, numa sociedade sufocante e machista. Algumas ainda querem se casar. Essas se casam e fazem bonito na Festa das Noivas de Santo Antônio, um momento de grande alegria, o lado mais amoroso e fraterno dos festejos do Santo Padroeiro de Barbalha, onde as mulheres brilham e os homens ali são coadjuvantes. 

Santo Antônio, para além do teólogo, do grande e erudito pensador da Igreja, foi transformado pelo povo em um amigo de confidências, de folias e de intermediações milagrosas. É, talvez, o Santo mais popular de todo o cristianismo. Fazer festa para Santo Antônio é um ritual de comunhão com o sagrado e de fortalecimento do vínculo social. Pessoalmente, dos milagres de Santo Antônio, dou o meu testemunho: quando nasci, na pequena cidade de Farias Brito, a parteira Raimunda Rosa, a mais famosa da região, ao fazer o parto de minha mãe, Dona Anita, percebeu que eu tinha nascido laçado pelo cordão umbilical. Era um presságio de vida difícil, que só poderia ser desfeito, se na pia batismal eu recebesse o nome de Antônio. Aqui estou eu, Antônio Rosemberg de Moura, sempre muito grato à vida que me foi dada viver. Assim, todos os anos que posso, costumo ir a Barbalha para reinventar a minha fé, na vida e no Espírito, louvando Santo Antônio. Sim, confesso sem medo: gosto muito dessa festa. 

Crônica enviada por Roberto Maguila