Em uma entrevista emocionante à CRESCER, a cuidadora Nathalia Moniza conta como lidou com a perda da filha após um acidente de engasgo. “O mais difícil é ter que sobreviver em meio a tanta dor”, ela desabafou
Por Amanda Oliveira - 13/02/2026
Era para ser um domingo normal. A cuidadora Nathalia Moniza tinha saído para trabalhar enquanto a filha, Naienny Sunamitha, ficou com a tia em casa, em Recife (PE).
Ela jamais imaginou que aquela seria a última vez que veria sua menina. A pequena faleceu, aos 10 anos, naquela tarde, após se engasgar com um pedaço de carne.
O acidente aconteceu no dia 18 de maio do ano passado. Quase um ano depois, Nathalia — ainda vivendo este luto doloroso — decidiu contar como tudo aconteceu.
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O dia do acidente
Por volta das 13 horas, Naienny foi até a cozinha, pegou seu prato de almoço e foi para a sala. “Ela tinha o costume de comer a comida primeiro e, depois, a carne”, a mãe explicou. O engasgo ocorreu quando a pequena mordeu o pedaço de bife.
Naquele momento, o irmão e o primo estavam próximos, mas não perceberam que a menina estava com dificuldade para respirar. “Ela não fez barulho nenhum, então, não sabemos por quanto tempo ela tentou se desengasgar sozinha.”
Quando percebeu a situação, a tia foi socorrer a sobrinha. Ela tentou fazer a manobra de emergência, porém, a menina acabou perdendo a consciência. Logo depois, a pequena foi levada para o hospital por um vizinho.
“Assim que minha irmã chegou com ela, uma equipe a pegou e tentaram reanimá-la, mas ela já chegou ao hospital sem vida. Foram 50 minutos de reanimação e, infelizmente, não adiantou.”
Fiquei por alguns minutos chorando no chão, sentada, tentando absorver o que tinha acontecido
Nathalia com a filha — Foto: Arquivo Pessoal
Naienny tinha apenas 10 anos — Foto: Arquivo Pessoal
Naienny faleceu após se engasgar com um pedaço de carne — Foto: Arquivo Pessoal
“Desmoronei no chão de tanta tristeza”
Nathalia estava no trabalho quando recebeu a notícia de que a filha havia sofrido um acidente. “Saí desesperada. Chegando lá, quem deu a notícia foi minha irmã, chorando muito. Me abraçou e falou da fatalidade. Desmoronei no chão de tanta tristeza”, a mãe lembrou.
Para a pernambucana, parecia um pesadelo. “Fiquei por alguns minutos chorando no chão, sentada, tentando absorver o que tinha acontecido. Pensei que iria acordar a qualquer momento.”
Em seguida, a cuidadora foi levada para uma sala, onde pôde receber suporte da assistente social. A mãe ainda contou com o apoio de amigos e familiares.
É uma dor na alma inexplicável. O mais difícil é ter que sobreviver em meio a tanta dor
Recomeçando do zero
Após a perda, Nathalia decidiu mudar de estado e, hoje, mora no Espírito Santo com o filho, que é autista. “Não consegui permanecer onde tudo aconteceu”, ela desabafou.
Agora, o que fica são as lembranças que a mãe guarda da filha. Nathalia descreve Naienny como uma menina curiosa que adorava a vida. “Ela gostava de passear, aproveitar cada momento como se fosse único. Amava nadar, brincar de boneca, andar de bicicleta e fazer novas amizades. Tinha muitos planos; falava em ser veterinária ou professora. Era uma criança muito carinhosa, carismática.”
A pequena também tinha um costume muito especial: antes de dormir, dava 10 beijos na testa da mãe e dizia que a amava. Nathalia conta que um dia antes do acidente sentiu que a filha estava se despedindo.
“Foi um dia inesquecível! Ela pediu para fazer um lanche e chamar os primos para comer com ela. Me pediu para dormir em seu quarto, ao lado dela, e pediu para assistir a um filme. Durante o filme, ela se emocionou e chorou bastante, me abraçou e falou para que eu não a deixasse e disse que sentia muita falta da vovó dela, que havia falecido em 2023. Eu a consolei, ela me deu os 10 beijos na testa, eu a beijei. Ela se acalmou, assistiu um pouco e foi dormir.”
Um domingo antes do acidente, a família comemorou o Dia das Mães na piscina. Nathalia lembra de ver a filha se divertindo muito. “Foi um dia incrível, inesquecível e único.”
Para as mães que também estão vivendo o luto, a cuidadora deixa uma mensagem especial: “Perder um filho é uma dor que ninguém deveria experimentar, e é normal sentir-se perdido e sem esperança. Quero que saiba que você não está sozinho(a). Há pessoas que te amam e te apoiam, mesmo que não estejam sempre presentes. Permita-se sentir a dor, chore, grite, mas também permita-se lembrar dos momentos felizes e da vida que vocês compartilharam. Você é forte, você é capaz de superar isso”, finalizou.
O que fazer em casos de engasgo?
Vivenciar uma situação de engasgo é um pânico para qualquer família. Afinal, é preciso agir rápido para evitar um desfecho trágico. Em outubro do ano passado, a American Heart Association (AHA) — entidade referência na área de reanimação cardiopulmonar (RCP) — publicou novas atualizações sobre as técnicas de desobstrução das vias aéreas.
Abaixo, confira o passo a passo de como realizar a manobra de desengasgo em crianças:
Verifique se a criança está com obstrução severa das vias aéreas. As manobras de desengasgo só são realizadas se a criança:
1. Não consegue tossir
2. Não consegue chorar
3. Muda de cor, podendo ficar pálida ou cianótica (coloração roxa)
4. Fica mais mole
5. Não consegue respirar
Se seu filho não apresenta nenhum desses sinais, a orientação é observar e estimular a tosse.
Caso a criança tenha algum sinal de obstrução severa grave, a primeira atitude é ligar para o SAMU e iniciar as manobras de desengasgo. Confira!
👧 Crianças (a partir de um ano)
• Para ajudar a criança que está engasgada, posicione-se ajoelhado atrás dela.
• Utilize o calcanhar da sua mão para aplicar cinco pancadas firmes nas costas da criança entre as escápulas (não são tapinhas leves). Anteriormente, começava-se já com as compressões abdominais, conhecidas como manobra de Heimlich.
Se as pancadas não resolverem a obstrução, faça as compressões abdominais (5 vezes).
• Envolva os braços em volta da cintura da criança de forma que uma de suas mãos fique à frente. Faça um punho com uma das mãos e posicione o lado do polegar junto à cintura da criança.
• Faça os movimentos acima do umbigo e bem abaixo do osso do peito.
• Segure o punho com a outra mão. Em seguida, faça compressões rápidas e firmes para dentro e para cima do abdômen, certificando-se de que o movimento vá para cima e não para trás.
Alterne entre as cinco pancadas firmes e as compressões abdominais até a expulsão do objeto ou até a criança perder a consciência.
Compressões no peito
• Se não for possível colocar os braços em volta da cintura da criança ou ela estiver na cadeira de rodas, faça compressões no peito em vez de abdominais.
• Feche uma das mãos em punho e coloque-a com o polegar contra o tronco da criança.
• Coloque seus braços sob as axilas da criança e sua mão no centro do peito dela.
• Puxe-a para trás para dar impulso.
Ressuscitação cardiopulmonar (RCP)
• Se a criança ficar inconsciente, deite-a em uma superfície, apoiando sua cabeça e pescoço
• Comece as 30 compressões torácicas, ou com uma mão só, ou com uma mão sobre a outra. Com o braço bem esticado, comprima e solte.
• Verifique se é possível ver o objeto, se sim, o retire.
• Faça duas ventilações (“respiração boca a boca”) cobrindo a boca da criança e tampando o nariz.
• Observe a elevação do tórax.
• Faça essas manobras até o SAMU chegar ou a criança voltar a respirar.
É importante que os pais e cuidadores façam um curso de primeiros socorros do AHA (chamado Família e Amigos) de 2 horas de duração, que ensina todas as manobras expostas acima.
https://revistacrescer.globo.com/maes-e-pais/historias/noticia/2026/02/dor-na-alma-inexplicavel-diz-mae-apos-filha-de-10-anos-morrer-engasgada-com-pedaco-de-carne.ghtml