Maior estudo genético sobre endometriose mostra que a doença nunca foi só ginecológica
O quadro que afeta uma em cada dez mulheres compartilha base genética com enxaqueca, ansiedade e depressão.
A cólica menstrual é o sintoma mais conhecido da endometriose — Foto: Sora Shimazaki para Pexels
Pesquisa com 1,4 milhão de mulheres identificou sobreposição genética com enxaqueca, ansiedade e depressão, e abre caminho para tratamentos além do hormônio
Por Marcella Centofanti, Em colaboração com Marie Claire — de São Paulo (SP)
28/06/2026
A endometriose ainda é vista pelo senso comum como uma condição ginecológica. No entanto, o maior estudo genético já realizado sobre a doença mostra que essa visão está incompleta. O quadro que afeta uma em cada dez mulheres compartilha base genética com enxaqueca, ansiedade e depressão. Essas comorbidades não seriam consequência da dor crônica imposta pela endometriose, mas mecanismos biológicos paralelos, que coexistem independentemente da intensidade dos sintomas.
O estudo, publicado em abril de 2026 no periódico Nature Genetics, analisou informações genéticas de cerca de 1,4 milhão de mulheres. Dentre elas, havia mais de 100 mil casos de endometriose. Trata-se da maior amostra já reunida para investigar a doença.
Os pesquisadores identificaram 80 regiões do genoma associadas ao risco de desenvolver a condição, das quais 37 eram até então desconhecidas. Além de mapear variantes genéticas, o estudo investigou como elas afetam o funcionamento de genes e proteínas em diferentes tecidos.
Os dados mostram que a doença atua por vários caminhos biológicos simultâneos, como inflamação, resposta imunológica, remodelação tecidual, proliferação celular e formação de novos vasos sanguíneos.
Para a ginecologista Rosa Maria Neme, doutora pela Faculdade de Medicina da USP e diretora do Centro de Endometriose São Paulo, o estudo aponta para uma transformação que ainda está por vir. "A medicina do futuro está se aproximando cada vez mais da gente", diz. "A endometriose não tem cura. Mas, a partir do momento que a gente consegue agir na causa exata do problema, pode conseguir curar a doença."
Relação entre endometriose e outras doenças
Um dos achados mais relevantes para as pacientes é a confirmação de que sintomas como enxaqueca, fadiga crônica, distensão abdominal e alterações de humor têm relação genética com a endometriose. "Antes a paciente ouvia que estava exagerando", diz Raquel Magalhães, ginecologista do Hospital Nove de Julho, da Rede Américas. "Hoje a gente sabe que não. Não é uma causa da dor, é uma relação genética de duas situações em paralelo."
A genética isolada não explica o desenvolvimento da doença. Fatores ambientais como estresse crônico e desregulação do sistema imune têm um peso grande. “Quando todos estão alinhados, o risco aumenta consideravelmente", diz Omero Poli Neto, professor associado da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.
A compreensão de que a endometriose envolve múltiplos mecanismos biológicos abre perspectivas para linhas de tratamento que vão além do bloqueio do ovário com uso de anticoncepcional.
O estudo aponta duas drogas já existentes como possíveis alvos terapêuticos. O neratinibe, usado no tratamento de câncer de mama, inibe uma proteína responsável pela proliferação celular excessiva, um dos mecanismos que o estudo associou à endometriose. Já o toremifeno atua bloqueando receptores de estrogênio nos tecidos, o mesmo mecanismo usado em alguns tratamentos de câncer de mama.
Isso não quer dizer, no entanto, que esses fármacos sejam indicados para tratar endometriose agora. "Não tem nenhum medicamento novo aprovado, mas a pesquisa abre essa possibilidade de estudar novas linhas de tratamento não hormonais para o futuro", afirma Magalhães.
Ausência brasileira no estudo
O trabalho também se destacou por incluir mulheres de diferentes ancestralidades, uma lacuna na pesquisa sobre endometriose, conduzida principalmente em populações europeias.
O Brasil, no entanto, ficou de fora. "A gente precisa urgentemente desenvolver um estudo de volume grande para nós", diz Poli Neto. "O Brasil é uma das populações mais diversas do ponto de vista genético que existe no globo. Se a gente tivesse uma coorte brasileira, seria espetacular para incluir nesse tipo de pesquisa."
https://revistamarieclaire.globo.com/saude/noticia/2026/06/maior-estudo-genetico-sobre-endometriose-mostra-que-a-doenca-nunca-foi-so-ginecologica.ghtml




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