Entrada de Caiado na corrida presidencial atrai o agronegócio e esfria adesão a Flávio Bolsonaro
Caiado tem relação longa com o agro e, durante sua gestão, implementou políticas que foram bem vistas pelo campo
Como governador, Caiado cavalga em evento ligado ao agro: setor “está acompanhando cenário”, diz presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de SP — Foto: Divulgação/12-4-2024
Ex-governador de Goiás tem relação longa com o setor e, durante sua gestão, implementou políticas que foram bem vistas pelo campo
Por Luísa Marzullo 05/04/2026
A entrada do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD) na corrida presidencial deve dividir o apoio do agronegócio e travar o movimento de aproximação do setor com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que esperava adesão ampla ao seu nome ainda na fase de pré-campanha. Ainda que distante do parlamentar nas pesquisas de intenção de voto, Caiado tem relação longa com o agro e, durante sua gestão, implementou políticas que foram bem vistas pelo campo. Dados do Ministério da Agricultura mostram, por exemplo, que o estado fechou 2025 com crescimento de 23% na exportação de grãos na comparação com o ano anterior.
Até a confirmação da postulação de Caiado, no início da semana passada, aliados de Flávio tratavam como questão de tempo a consolidação da adesão do agronegócio, diante das resistências ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tentará a reeleição. A avaliação interna era de que o alinhamento histórico com o bolsonarismo, consolidado desde 2018, se traduziria em apoio ao longo dos meses seguintes, mesmo que sem um anúncio prévio formal.
A estratégia previa um avanço em etapas, começando por manifestações mais discretas de parlamentares da bancada ruralista e lideranças regionais, seguidas pela aproximação de entidades representativas. Esse movimento, no entanto, acabou interrompido.
Lideranças do setor passaram a frear conversas mais avançadas com a campanha de Flávio e a evitar, por ora, qualquer gesto público de alinhamento. A ideia é manter canais abertos e ganhar tempo antes de fechar posição.
Embora a mudança de postura não represente um afastamento definitivo do agronegócio em relação ao filho de Bolsonaro, ela altera o ritmo e o método da aproximação. Com a entrada de um novo aspirante ao Planalto com trânsito próprio no setor, nomes de peso na área passaram a trabalhar com a possibilidade de divisão no primeiro turno, preservando uma margem para influenciar a corrida presidencial com mais vigor na reta final.
— O agronegócio vai ficar dividido entre Caiado e Flávio no primeiro turno. Não tem uma preferência. O setor está muito vocacionado nesses dois nomes e ainda está acompanhando o cenário — confirma o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles.
Segundo o dirigente, a atuação do setor é organizada a partir de uma pauta comum apresentada aos pré-candidatos, com demandas que passam por segurança jurídica no campo, previsibilidade a longo prazo para o Plano Safra, ampliação de seguros rurais e solução para gargalos estruturais, como a falta de armazenagem. Esse conjunto de propostas foi sistematizado em um documento entregue tanto a Flávio quanto a Caiado.
Na Tv, ‘padrinho’
A entrada do ex-governador altera esse equilíbrio não só por ampliar o número de candidatos, mas pelo capital político que ele carrega. Médico e pecuarista, Caiado construiu sua trajetória com atuação em prol dos interesses do campo e foi um dos fundadores da União Democrática Ruralista (UDR), que ganhou projeção nos anos 1980 na defesa da propriedade privada em meio a conflitos fundiários.
O mote vai ser usado pelo marqueteiro Paulo Vasconcelos já na pré-campanha, com o discurso de “padrinho do agro” aparecendo em inserções na TV. Também serão exploradas decisões recentes adotadas em Goiás, frequentemente citadas por lideranças como demonstrações concretas de alinhamento com o setor. A principal delas foi a extinção da contribuição ao Fundo Estadual de Infraestrutura, conhecida entre produtores como “taxa do agro”, que vinha sendo alvo de críticas.
O governo também vinculou recursos do fundo a obras de infraestrutura rural, como estradas e logística de escoamento. Além disso, aprovou a revisão e a anulação de multas aplicadas a pecuaristas em operações de venda de gado.
Na outra ponta, Lula também tentou fazer acenos ao agro neste terceiro mandato, ainda que em meio a sinais contraditórios, sobretudo por declarações mal recebidas no setor. Já no primeiro semestre do atual governo, por exemplo, o presidente foi alvo de reações após afirmar que “o problema deles conosco é ideológico”, não “de dinheiro”. Pouco antes, o petista havia dito, em feira agrícola na Bahia, que o evento faria inveja “a alguns fascistas” contrários à gestão.
Recém-saído do Ministério da Agricultura para disputar as eleições, o senador Carlos Fávaro (PSD-MT) tem bom trânsito com o campo, mas a abertura não se estendeu a Lula. O cenário não foi alterado nem com o recorde de recursos para financiamento da atividade via Plano Safra, que envolve subsídios para contratação de empréstimos e seguro.
Recentemente, diante dos impactos econômicos da ação militar dos EUA no Irã, estados produtores agrícolas demonstraram apoio à intenção do governo de editar uma Medida Provisória para subsidiar o diesel importado, devido ao alto custo do combustível para o setor. As novas movimentações, porém, não parecem suficientes, até agora, para redesenhar o quadro eleitoral.
Aposta em senadora
No entorno de Flávio, a mudança é tratada como um revés à estratégia inicial. O agronegócio era visto como um dos pilares que poderiam conferir credibilidade econômica ao projeto, o que agora vai exigir disputa. Até poucas semanas atrás, parte relevante do setor ainda demonstrava preferência por nomes como Tarcísio de Freitas (Republicanos) e pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL).
Com esses caminhos esvaziados, lideranças vinham, de forma gradual, se acomodando à candidatura de Flávio, em um fluxo paralisado com a entrada de Caiado. Coordenador da pré-campanha do herdeiro do bolsonarismo, o senador Rogério Marinho (PL-RN) minimiza o impacto do novo desenho e afirma que a aproximação será construída ao longo do processo:
— O setor sabe da afinidade que temos com ele, e vamos procurar todos na hora certa. Não será difícil.
Dentro da bancada ruralista, no entanto, não há consenso sobre o desfecho.
— Caiado com certeza qualifica o debate e endurece ainda mais o enfrentamento à esquerda. Melhor o Lula correr e ir preparando sua defesa — afirma o deputado Evair de Melo (PP-ES).
É nesse contexto que volta a ganhar força, dentro do PL, a possibilidade de composição com a senadora Tereza Cristina (PP-MS) como vice. Ex-ministra da Agricultura e uma das principais referências do setor no Congresso, ela é vista como um nome capaz de reduzir resistências e acelerar a adesão do agronegócio.
— Depende de muitos fatores, como os partidos que vão coligar. Tenho certeza de que ele vai escolher o melhor nome para que tenha sucesso — desconversa a parlamentar.
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/04/05/entrada-de-caiado-na-corrida-presidencial-atrai-o-agronegocio-e-esfria-adesao-a-flavio-bolsonaro.ghtml




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