Novo comandante da PM toma posse seis dias após ação violenta durante protesto no Recife

A cerimônia contou com a participação do governador Paulo Câmara (PSB).

Em cerimônia fechada, novo comandante da PM toma posse seis dias após ação violenta durante protesto no Recife

José Roberto Santana ocupa o lugar de Vanildo Maranhão, que pediu exoneração, segundo o governo. Manifestação pacífica contra o presidente Bolsonaro aconteceu no sábado (29) e ação da polícia deixou dois homens sem parte da visão.

Por Pedro Alves, G1 PE

Toma posse o comandante da PM, Coronel José Roberto de Santana

O novo comandante a Polícia Militar de Pernambuco tomou posse nesta sexta-feira (4), em cerimônia realizada a portas fechadas, no Recife. O coronel José Roberto Santana substituiu o coronel Vanildo Maranhão, que, segundo o governo, pediu exoneração três dias após a repressão violenta de PMs ao protesto pacífico contra Bolsonaro, no sábado (29). Dois homens perderam a visão de um dos olhos na ação.

A posse do novo comandante ocorreu no Quartel do Derby, sede do comando da Polícia Militar em Pernambuco, na área central do Recife. A imprensa não pode participar da cerimônia, no Salão Nobre do edifício. A justificativa da corporação para limitar o acesso foi a pandemia de Covid-19.

A exoneração de Vanildo Maranhão e a nomeação de José Roberto Santana foram publicadas no Diário Oficial de terça-feira (1º).

A cerimônia contou com a participação do governador Paulo Câmara (PSB). Ele chegou ao Quartel do Derby por volta das 8h15. O chefe do Executivo estadual foi recepcionado pela vice-governadora Luciana Santos (PCdoB) e pelo secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua Cavalcanti.

O novo comandante não deu entrevista à imprensa. Na saída da cerimônia, o governador afirmou que Santana assume com a missão de "aperfeiçoar cada vez mais" políticas públicas na área de segurança.

Questionado sobre possíveis novas mudanças na Polícia Militar, Câmara afirmou que o comandante tem autonomia para montar a própria equipe.

"[O novo comandante] já fez uma substituição também do subcomando, e nós vamos nos reunir ao longo da semana. Inclusive, na próxima quinta-feira [10], já há reunião do Pacto pela Vida, para acompanharmos os resultados do mês de maio [...] e vamos discutir também, ao longo dessa reunião, todas as alterações necessárias na condição da política de segurança em Pernambuco", declarou.

Novo comandante da Polícia Militar de Pernambuco, José Roberto Santana (esquerda); ex-comandante da PM, Vanildo Maranhão; e o governador Paulo Câmara no Quartel do Derby, no Recife, nesta sexta-feira (4) — Foto: Reprodução/TV Globo

Na cerimônia de posse, o antigo e o novo comandante da PM se posicionaram em frente ao governador Paulo Câmara (PSB) e à bandeira nacional, fizeram a passagem de comando e se cumprimentaram.

Em seguida, ambos discursaram, seguidos pelo governador. Também participaram da posse o presidente da Assembleia Legislativa de Pernambuco, deputado estadual Eriberto Medeiros (PP), e chefes da Polícia Civil, Corpo de Bombeiros e Polícia Científica.

O novo comandante da PM ocupava o cargo de diretor de Planejamento Operacional da Polícia Militar, com a responsabilidade de coordenar as quatro Diretorias Operacionais da Corporação, correspondendo a um total de 51 unidades operacionais entre batalhões e companhias independentes, de área e especializadas.

Ele tem 31 anos de serviço à PM e foi declarado a aspirante oficial PM em 1992, pela Academia de Polícia Militar de Paudalho. Tem especialização em Gestão Governamental, curso de Aperfeiçoamento de Oficiais e Curso Superior de Polícia.

José Roberto Santana foi chefe da Unidade de Segurança do Palácio do Governo, entre 2001 e 2004; ajudante de ordem do governador, no período de 2005 a 2006 e assistente do Comando Geral da PMPE entre 2011 a 2017. Além disso, ele possui 14 condecorações de mérito.

Violência no Centro

A ação truculenta da PM provocou reações e a conduta da tropa foi questionada por especialistas. O adesivador de táxis Daniel Campelo, de 51 anos, e o arrumador de contêineres Jonas Correia, de 29 anos, ficaram com leões graves.

No ato, a vereadora Liana Cirne (PT) foi atingida por spray de pimenta no rosto. O cantor Afroito foi preso na manifestação e disse que temeu ser sufocado. Um advogado foi atingido por quatro balas de borracha disparadas pelos policiais.

No sábado, a vice-governadora Luciana declarou que o estado não tinha determinado a ação. O governador Paulo Câmara (PSB) informou, no mesmo dia, que tinha afastado o comandante da ação e policiais envolvidos na agressão à vereadora.

Inquéritos foram abertos para apurar a conduta dos policiais. São investigados, até o momento, um major, um capitão, um tenente, dois sargentos e três soldados.

O policial responsável pelo tiro que atingiu Jonas Correia foi afastado disciplinarmente pela Corregedoria da Secretaria de Defesa Social, mas não teve o nome divulgado. A Corregedoria também investiga uma possível omissão de socorro a Daniel Campelo.

"Os disparos efetuados contra manifestantes nas proximidades do Parque Treze de Maio, assim como o uso de spray de pimenta contra a vereadora Liana Cirne, estão sendo alvo dos trabalhos da corregedoria. Há a possibilidade de a mesma guarnição policial estar envolvida nesses atos", informiu a SDS em nota.

Outra investigação iniciada é sobre sobre a postagem em uma rede social, por parte de um perfil não-oficial de um batalhão da PMPE, supostamente enaltecendo a violência empregada.

Veja como foi a repressão da Polícia Militar ao protesto contra Bolsonaro no Recife

Na segunda (31), o secretário de Justiça, Pedro Eurico, repetiu que a ordem não partiu do governo e disse que "não há uma Polícia Militar paralela em Pernambuco".

Na terça (1º), o secretário de Defesa Social Antonio de Pádua esteve na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe). Ele participou de uma reunião na Comissão de Direitos Humanos, mas saiu sem falar com a imprensa. Para os parlamentares, falta esclarecer de onde partiu a ordem para atirar nos manifestantes.

O Ministério Público de Pernambuco abriu um inquérito civil. Na terça-feira (1º), o MPPE disse que o secretário Antônio de Pádua foi alertado para o protesto de sábado (29) pela 7ª Promotoria de Justiça e Direitos Humanos, que solicitou que ele orientasse a Polícia Militar para “evitar eventuais excessos”.

Imagens divulgadas pela TV Globo na quinta (3) mostram que PMs envolvidos na ação truculenta se negaram a socorre um dos feridos. Os vídeos mostram o momento do resgate de Daniel Campelo, adesivador de táxis anos que perdeu o olho esquerdo após ser atingido por uma bala de borracha (veja vídeo acima).

Na quinta, o secretário Antônio de Pádua afirmou que a ordem para agir de forma violenta no protesto teria partido dos próprios responsáveis pela ação que estavam na área. Em entrevista à TV Globo, ele disse que essa é uma das hipóteses investigadas pela Corregedoria Geral da SDS

https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2021/06/04/em-cerimonia-fechada-novo-comandante-da-pm-toma-posse-apos-acao-violenta-durante-protesto.ghtml