Sob tensão, CPI ouve delator que confirmou propina ao PT

Audiência do ex-gerente de Serviços da Petrobras Pedro Barusco pode ocorrer a portas fechadas. Em delação, ele citou propina de até US$ 200 mi ao PT

O ex-gerente de Serviços da Petrobras, Pedro Barusco (VEJA.com/Divulgação) Por: Marcela Mattos, de Brasília No momento de maior tensão provocado em Brasília - em especial, no Palácio do Planalto - pelo escândalo do petrolão até aqui, a comissão parlamentar de inquérito (CPI) que investiga as irregularidades na petrolífera ouve na manhã desta terça-feira o ex-gerente de Serviços Pedro Barusco. O executivo é considerado peça-chave para detalhar o pagamento de propina de até 200 milhões de dólares ao tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, entre 2003 e 2013, conforme relatou à Justiça em acordo de delação premiada. Barusco será o primeiro depoente da nova CPI da Petrobras, instalada há duas semanas em meio a delações de empreiteiros e ex-executivos da estatal que comprovam não apenas que o megaesquema de corrupção existiu, mas contou com a participação de graúdos políticos - a maior parte deles, da base do governo. O ex-gerente de Serviços era braço-direito de Renato Duque, que comandava a Diretoria de Serviços da Petrobras por indicação do ex-ministro da Casa Civil e mensaleiro condenado José Dirceu. No depoimento à Justiça, Barusco afirmou que Duque e o tesoureiro do PT tinham um "contato muito forte" e costumavam se encontrar no Hotel Windsor, no Rio, e no Meliá, em São Paulo. Os encontros tinham finalidade clara: trocar informações sobre o andamento de contratos, projetos e licitações da Petrobras. Barusco disse ainda que Vaccari recebeu entre 150 milhões e 200 milhões de dólares em propina por meio de desvios e fraudes em contratos com a Petrobras - o que coloca o caixa do PT no centro do escândalo do petrolão. Na última sexta-feira, o Supremo Tribunal Federal aceitou o pedido de investigação contra o tesoureiro petista, classificado pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, como um dos operadores do esquema de corrupção. "Poucos como Barusco sabem o que é ilegal nas doações de campanha ao PT. Ele deve saber detalhes de todo o dinheiro que foi dado aos políticos. Se, sozinho, o executivo colocou 100 milhões de dólares na conta dele, imagina o que ele sabe sobre o que foi injetado no bolso das autoridades", disse o vice-presidente da CPI, Antônio Imbassahy (PSDB-BA). O tucano faz referência ao acordo do executivo com a Justiça de devolver aos cofres públicos impressionantes 97 milhões de dólares recolhidos a partir do megaesquema de cobrança de propina na Petrobras. Blindagem petista - Apesar das declarações de Barusco colocarem o PT no centro da Operação Lava Jato, deputados do partido costuraram a convocação do executivo como uma última esperança de ampliar a investigação da CPI para o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso e, assim, tentar atingir a oposição. Isso porque, em depoimento, o ex-gerente de Serviços afirmou que recebeu propina da empresa holandesa SBM Offshore em 1997, durante o governo FHC. O próprio Barusco afirmou, no entanto, que o esquema de corrupção foi "institucionalizado" em 2003, no governo Lula, e atingiu as principais diretorias da estatal. O presidente da comissão, Hugo Motta (PMDB-PB), sob a batuta do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), rejeita a proposta de estender o escopo da CPI por questões regimentais: o requerimento que instaurou o colegiado limita a investigação de 2005 a 2015 - ou seja, somente durante a gestão petista. Em meio à expectativa do primeiro depoimento da CPI, a defesa do delator quer que a sessão aconteça a portas fechadas, e restrita a parlamentares. O pedido da advogada Beatriz Catta Preta foi protocolado na Câmara nesta segunda-feira, mas o colegiado decidirá se o aceita ou não. "Se houver alguma intenção de deputados petistas em abafar a audiência, vai ficar provado que o governo é responsável no esquema de corrupção. Foi no governo petista que ficou estabelecida uma verdadeira cadeia de corrupção em três diretorias", afirmou o líder do DEM, deputado Mendonça Filho.