Petrobras descobriu fraudes em licitações antes da Lava Jato

Em 2007, estatal ajudou a Polícia Federal a chegar a servidores que participavam das irregularidades

Plataforma de exploração de petróleo no Rio de JaneiroDivulgação da Petrobras Por Edson Luiz O esquema de fraudes em licitações na Petrobras não é uma novidade para a empresa. A própria estatal tinha condições de desvendar as irregularidades detectadas pela Operação Lava Jato, como aconteceu em 2007, quando a área de inteligência da petrolífera ajudou uma investigação da Polícia Federal a desbaratar um grupo de funcionários que recebia propina para fraudar contratos de reforma de plataformas de exploração de petróleo. E tudo foi descoberto, meses antes, levando para a cadeia funcionários da companhia, servidores públicos de outros órgãos, empresários e até integrantes de uma organização não governamental. A investigação contou com a ajuda da área de inteligência da Petrobras, cujo trabalho foi feito com extremo sigilo, e resultou em um relatório detalhado que deu origem à Operação Águas Profundas. A ação da PF resultou em 24 prisões, incluindo cinco técnicos da estatal, inclusive com cargos de gerência e servidores especializados em concorrências. Ao todo, segundo o Ministério Público Federal, havia irregularidades envolvendo as plataformas P-22, P-10, P-14 e P-16. Tudo começou quando foi realizada a licitação envolvendo a plataforma P-10. A Polícia Federal não podia fazer a investigação de forma ostensiva e, por isso, optou por utilizar escutas telefônicas em torno dos diretores de uma das empresas participantes do processo. Foi quando veio à tona a participação de funcionários da Petrobras, que facilitava a negociação em favor de um dos participantes da concorrência para a reforma da plataforma. A investigação mostrou  que os contratos foram aditados com base em informações incorretas, inseridas com o objetivo de beneficiar empresas. Além disso, os funcionários da Petrobras presos davam às firmas contratadas acesso a informações privilegiadas de dentro da estatal. A presença da Petrobras foi necessária no momento em que a Polícia Federal percebeu o grande volume de fraudes. "Precisávamos, de alguma forma, obter maiores dados sobre as pessoas envolvidas no esquema, bem como tentar alguns meios investigativos  que nos abrissem portas dentro da estatal", contou o delegado Cláudio Nogueira, durante uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado, em 2009. Além dos dados, a Polícia Federal necessitava de apoio para outras medidas, como a realização de escuta ambiental no local de trabalho dos suspeitos. Conforme o Ministério Público Federal no Rio de Janeiro, local onde foi deflagrada a Operação Águas Profundas, em julho de 2007, a estatal fez um trabalho minucioso sobre o esquema de fraude. "Soube demonstrar tecnicamente as fragilidades dos diversos processos licitatórios e dos respectivos contratos", elogiou o procurador da República Carlos Alberto Gomes de Aguiar, que conduziu as investigações pelo Ministério Público. Ele contou que a área de inteligência da Petrobras foi fundamental para que as fraudes viessem à tona. As investigações da Polícia Federal começaram dois anos antes de a operação acontecer. Mas a área de inteligência começou a trabalhar em fevereiro de 2007, prosseguindo até junho do mesmo ano. Um mês depois, a PF desencadeou sua ação. O resultado final dos trabalhos foi a demissão por justa causa de três servidores e o afastamento de outros dois por cerca de um mês cada.