L Debate será polarizado e personalista no Ceará

CAMPANHA ELEITORA

Com a definição do deputado estadual Camilo Santana (PT) para representar a aliança governista nas eleições de outubro, estudiosos avaliam que a disputa ao cargo máximo do Poder Executivo estadual deverá ser polarizada entre o candidato petista e o senador Eunício Oliveira (PMDB), sem maiores chances a candidaturas alternativas. Eles divergem, porém, quanto à saída encontrada pelo governador Cid Gomes (PROS) para manter a aliança ao lançar Santana em detrimento de especulados nomes de seu próprio partido.

A professora de Ciências Sociais Cristina Nobre, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), aponta que, embora o processo de escolha do candidato tenha sido "confuso e muito difícil", Cid sai do cenário fortalecido com o apoio nacional do PT. Para Sérgio Néry, professor de Ciências Políticas da Universidade de Fortaleza (Unifor), o governador sugeriu um nome mais interessante do que os outros pré-candidatos do partido. "Ele indicou um nome neutro. Todos os outros eram muito fracos no ponto de vista eleitoral", afirma.

Já na avaliação do cientista político Uribam Xavier, que leciona na Universidade Federal do Ceará (UFC), a decisão fez com que o governador Cid Gomes amargasse duas derrotas sucessivas: o racha da base aliada, perdendo o apoio para o PMDB, e a incapacidade de indicar um nome do próprio partido. "Demonstra fragilidade e um governador com medo", avalia. "Se Cid aponta um candidato do seu partido e ele perde, quem perde é o PROS. Quando ele indica um petista, se o candidato vier a ser derrotado, a perda é do PT".

Os cientistas ouvidos pelo Diário do Nordeste são unânimes ao apontar as semelhanças dos projetos políticos a serem defendidos pelos candidatos, uma vez que ambos faziam parte do mesmo governo. "São candidaturas que vão ter discursos parecidos em termos de projetos. Vão ter que se diferenciar pelo fato de o Eunício ter apoiado o grupo até agora, e de o Camilo, enquanto secretário, ter que arcar com suas responsabilidades", diz Cristina. "A diferença é mínima de uma candidatura para outra".

O professor Sérgio Néry destaca que ambos são candidatos alinhados ao Governo Federal, fazendo com que o Estado não venha a padecer por ser gerido por um "inimigo" do Palácio do Planalto. Para Uribam, os dois deverão defender a manutenção de projetos com bons índices e criticar as fragilidades do governo.

"Eunício vai prometer continuar o que tem de melhor e melhorar setores como saúde e segurança. Camilo, da mesma forma, vai dizer que tem que continuar o projeto anterior, superando dificuldades. Vai ser uma coisa muito parecida, de lenga-lenga de campanha", critica.

Personalista

Os especialistas acreditam que as candidaturas refletem o caráter personalista da política brasileira. "É falácia os candidatos dizerem que estão ali por questões de ordem maior que os interesses pessoais. O que prevalece é a força individual que cada um tem. Nas convenções só se fala de nomes e articulação de alianças, sem defender um projeto para o Estado", critica Uribam.

Cristina Nobre corrobora da opinião do cientista. "Por mais que não se tenham oligarquias tão fortes no Ceará, há núcleos familiares com capacidade de se manter no poder. O apoio é decisivo. Parece que cada vez mais se dissipa a força dos partidos e se afirma a das lideranças, que não necessariamente trilharam os próprios caminhos", aponta.

A professora ressalta que, assim como foi com a presidente Dilma Rousseff (PT) ao receber apoio do ex-presidente Lula, a candidatura de Camilo foi construída, já que ele não tem expressividade política nem foi lançado pelas bases do PT. "Em vez de ser a expressão de interesses mais amplos, acaba sendo de um grupo menor. É uma candidatura que é mais a expressão do interesse de uma família do que de um grupo (partidário)".

"Essa saída foi personalista, de projeto pessoal. A base nacional do PROS ainda é muito frágil, não restava outra saída do que se coligar com um partido grande", corrobora Sérgio Néry. "A candidatura de Camilo é à reboque do prestígio dos Ferreira Gomes", detalha.

Uribam aponta o monopólio do governo na condução da sucessão. "O PT deixou engessar que a escolha do sucessor cabia ao governo. Agora o PT se vê em uma situação esdrúxula, em que o partido terá um candidato próprio que não é próprio, porque foi escolhido por outro partido", diz. "A Luizianne Lins, que afirmou que não apoiaria candidatura indicada por Cid, não deve apoiar Camilo para prevalecer na coerência dela. O PT tem esse imbróglio para resolver", opina.