Empresário que derrubou casas no Ceará é preso meio milhão de reais

Moradores ocupam a área há mais de 60 anos.

Empresário que derrubou casas no Ceará é preso meio milhão de reais, além de cédulas de dólar e euro — Foto: PCCE/Divulgação

Empresário suspeito de derrubar casas no Ceará para construir usina é preso com meio milhão

Investigado foi detido em Brasília com R$ 500 mil e uma quantia em dólar e euro. Homem é investigado por agressões, dano qualificado e tentativa de homicídio.

Por G1 CE

Um empresário foi preso nesta segunda-feira (7) suspeito de ser o mandante de ações violentas para expulsar moradores de uma comunidade na cidade de Beberibe, litoral do Ceará. O investigado, que não teve o nome divulgado pela polícia, foi detido em Brasília com R$ 500 mil em reais, além de uma quantia em dólares e euros.

Além da suspeita de expulsar as famílias das casas, o empresário ainda é investigado por tentativa de homicídio e dano qualificado. Outros cinco inquéritos apuram atos de violência cometidos pelos suspeitos na região.

Segundo a Polícia Civil, o empresário mandou derrubar casas na comunidade com um trator. Conforme a Defensoria Pública do Estado do Ceará, que acompanha o caso, os moradores disseram que os ataques foram feitos por homens encapuzados que usavam máquinas para afugentar a população.

Os crimes ocorreram durante a madrugada. Cento e cinquenta pessoas vivem na comunidade tradicional da pesca e da agricultura. Eles ocupam a área há mais de 60 anos.

Conforme os levantamentos feitos pela Polícia Civil, foram registradas duas ocorrências recentes nas quais os homens armados teriam ido ao terreno onde os moradores possuem casa para derrubar as edificações, utilizando tratores. No fim de setembro, os criminosos derrubaram duas casas. O terceiro imóvel só não foi destruído porque a família se pôs à frente da edificação e impediu que o veículo passasse por cima da propriedade.

No início de dezembro, segundo a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), o segundo ataque foi registrado. Desta vez, a terceira casa dos moradores era o alvo, mas, de novo, o bando armado não conseguiu demolir o imóvel. Em todas as ações, o grupo armado fazia questão de dizer que estavam a serviço do empresário, conforme apontam as investigações.

Armados e mascarados

Um morador que não quis se identificar relatou ao G1 que os ataques acontecem há cinco anos. Os crimes não são executados de forma frequente, mas em madrugadas diversas e em regiões diferentes do local.

"Ele (o mandante) nunca vem, sempre são pessoas armadas, mascaradas. Ele sabe, é tudo arquitetado. Até por onde ele passa para as pessoas não verem e avisarem pra gente", narra.

Ainda segundo o morador, quando houve o ataque criminoso de setembro, foram derrubadas duas casas que estavam em construção e a tentativa de avançar por uma outra. Nesta, duas mulheres e duas crianças dormiam no momento. "No começo, foi bem difícil. Não podia ouvir uma zoada que todo mundo já ficava alerta, principalmente na madrugada", explica.

Na última ação, em 30 de novembro, os criminosos atiraram nas portas de moradores, agrediram uma senhora idosa e utilizaram spray de pimenta contra a comunidade.

Após a detenção do suspeito, no entanto, há um sensação mista no grupo. "A gente fica feliz por ele estar preso, pagando por isso, mas fica apreensivo porque sabe que ele tem dinheiro, tem muita influência em cima de algumas pessoas. Isso pode ser bom pra gente, mas também pode ser ruim".

Agressões

De acordo com a Defensoria, o último atentado violento ocorreu no último dia 30 de novembro, no qual moradores foram agredidos fisicamente. Em setembro deste ano, casas construídas foram demolidas pelos criminosos.

"Os atos de violência são constantes. Em setembro, a demolição só parou porque as pessoas se colocaram em frente a uma casa onde crianças dormiam. Então, uma tragédia pode acontecer a qualquer momento. Estamos acompanhando a questão junto às autoridades policiais do município, a fins de garantir e proteção e a integridade das famílias, a manutenção de posse e a reparação de danos”, disse Mariana Lobo, defensora pública e supervisora do Núcleo de Direitos Humanos e Ações Coletivas (NDHAC).

A Polícia Civil informou que deve divulgar novos detalhes sobre o caso durante uma entrevista coletiva, nesta terça-feira.

https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2020/12/08/empresario-suspeito-de-mandar-derrubar-casas-e-agredir-moradores-para-construir-usina-eolica-no-ceara-e-preso-com-r-500-mil.ghtml