Clubes brasileiros têm dificuldade em reduzir salário dos jogadores

O cenário do Brasil é oposto ao restante do globo ou dos grandes centros da modalidade

Na Europa, jogadores como Messi, foram responsáveis por mediar negociações - VALERY HACHE/AFP

Por Alexandre Mota

Cenário é bem diferente na Europa, onde os próprios jogadores puxam redução dos salários. No Brasil, situação financeira é ponto-chave para que negociações não evoluam. Poucos, como Ceará e Fortaleza, têm tido sucesso

O futebol parou. Por todo o mundo, as principais ligas foram suspensas devido à pandemia do novo coronavírus. E o dilema é apenas um: "Não há dinheiro para manter o espetáculo". Acostumado com altos investimentos - e dívidas - o grande desafio é seguir com o funcionamento de clubes mesmo sem jogos, bilheteria ou produtos vendidos.

No esboço da solução, sem formas de receita, a mais viável é abdicar do próprio salário para auxiliar a instituição em que trabalha. Assim, alguns times conduziram negociações internas para resolver o aporte financeiro, a exemplo de Ceará e Fortaleza, os dois cearenses na 1ª divisão.

A dupla não apenas conseguiu impor negociação rápida com os respectivos elencos, como foram os primeiros times da Série A do Campeonato Brasileiro a ter um plano. A sequência contou com Atlético/MG e Grêmio, mas parou aqui. O restante, 16 equipes, segue sem acordo.

O cenário do Brasil é oposto ao restante do globo ou dos grandes centros da modalidade. Enquanto a Federação Nacional de Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf) recusou a oferta de diminuição do salário em 25% realizada pela Comissão Nacional de Clubes (CNC), ídolos do futebol abriram mão dos vencimentos para aliviar os cofres dos clubes.

O argentino Lionel Messi, por exemplo, liderou a corrente de diminuição dos salários e acertou um corte de 70% no que os atletas do Barcelona recebem. O italiano Chiellini, da Juventus, convenceu os companheiros a também recuarem para garantir o emprego dos outros funcionários.

E o enredo não busca encontrar malfeitores ou heróis. Todos se incluem no aspecto da necessidade de dinheiro como sustento das respectivas famílias. No que já foi chamado de país do futebol, 82% de todos os atletas profissionais ganham até R$ 1 mil.

Aos que ganham tal quantia, fica difícil se abster do próprio bolso quando o recebido já é mínimo. Por isso, o exemplo é cobrado do alto, ou melhor, daqueles 0,28% que recebem entre R$ 100 mil e R$ 200 mil - dados de pesquisa de 2019 da Pluri Consultoria.

No meio disso, a fala do lateral-esquerdo Guilherme Arana, do Atlético/MG, expõe a contradição. "A gente, jogador, não tem nada a ver com isso. Temos que seguir as coisas que o pessoal vem passando na TV, o que os doutores falam. Essa redução de salário, na minha opinião, não convém porque é o mundo que está paralisando", afirmou em entrevista à Fox Sports.

O discurso, inclusive, foi o estopim para a diretoria do Galo reduzir os salários do elenco em 25% sob a alegação de que "se alguém estiver insatisfeito, a gente faz o desligamento", como pontuou o presidente Sérgio Sette Câmara.

No fim, o novo coronavírus é social. Corrói a perspectiva de funcionamento da sociedade ao impedir o trabalho e o convívio em coletivo, o afeto e o contato. Do empregador ao empregado, a perda é geral, com diferentes escalas financeiras - para além dos aspectos de saúde.

A questão é: por que a Europa consegue reduzir o salário dos gigantes e o Brasil, não? Para o comentarista esportivo dos canais ESPN, Leonardo Bertozzi, o primeiro ponto na comparação é a dificuldade financeira dos clubes no País, fator que diminui o respaldo com os jogadores.

"O futebol brasileiro já mostra poucos times que normalmente têm a situação confortável. Então, na Série A, o mais normal é ter salário atrasado, clube com dificuldade, antecipação de cota, então... A dificuldade financeira é quase uma realidade da maioria dos clubes aqui. A crise só faz agravar. Entendo que não seja simples o clube se colocar em uma posição de pedir sacrifícios a jogadores que não recebem salário há muito tempo, que em alguns casos acontece", explicou.

Bertozzi analisa que é preciso uma maior compreensão e empatia dos jogadores quanto à classe de futebol profissional. O contexto comunitário dos atletas brasileiro é distinto entre si, logo a hierarquia compromete a unidade.

"Talvez o jogador aqui no Brasil tenha mais dificuldade até para entender que o jogador de alto nível, de elite, ele já é, de certa forma, privilegiado em relação à média do jogador de futebol, porque a maioria dos jogadores no Brasil são os caras que, às vezes, não joga a temporada inteira. Às vezes, joga um Estadual e vai fazer bico no resto do ano, joga de contrato curto, joga por um salário mínimo", declarou o comentarista.

O Flamengo, atual campeão nacional e da Libertadores, das poucas exceções, anunciou que pretende manter o salário integral do elenco. Apenas em 2019, o Rubro-Negro investiu R$ 215 milhões na aquisição de reforços.

Acompanham-no na decisão, o Bragantino e o Coritiba - ambos oriundos da Série B e com projeção de pagamento sem corte. Mas a saúde financeira está longe da unanimidade. O São Paulo, hexacampeão brasileiro, precisa vender atletas para equilibrar o orçamento.

O Sport, único pernambucano na elite, tem débitos com a Fifa e a Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD) que ultrapassam R$ 18 milhões. De consenso, a certeza de que a Covid-19 apresentou ao País um velho problema: a falta de responsabilidade fiscal dos times de futebol. O esporte precisará ser remodelado ao fim da quarentena.

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