Indústria não se mostra animada para o segundo semestre

FALTA POLÍTICA PARA O SETOR

Se no comércio o clima é de otimismo diante das peculiaridades que, em geral, o segundo semestre reserva - em decorrências das datas comemorativas próprias do período -, na indústria, o cenário tanto em âmbito estadual quanto nacional, não é nada animador, apesar do novo pacote de políticas para o setor anunciado pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, na última quarta-feira. Segundo economistas e consultores na área, os incentivos, já batizados de "pacote de bondades", são apenas paliativos, no sentido de mascarar o clima de incertezas e alavancar o setor, diante de quedas recorrentes de produção pelas quais vem passando.

Por meio desse conjunto de medidas, o governo acena com a manutenção do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), o retorno do Reintegra, as novas diretrizes para o Refis da Crise e com a prorrogação do prazo de implementação das regras da Norma Regulamentadora número 12 (NR 12), que trata de segurança do trabalho para máquinas e equipamentos. "Esse (pacote) é mais um paliativo, diante da inexistência de uma política industrial definida, enquanto se espera a chegada do próximo governo", avalia o economista e consultor industrial, Alcântara Macêdo.

Desempenho

No primeiro trimestre deste ano, a indústria cearense registrou crescimento de apenas 1,7%, ante 4,8% anotados em igual período do ano passado. No País, a projeção dos institutos de pesquisa econômica é que a economia cresça entre 1,5% e 1,6%, revelando um cenário de dificuldades para o setor, no semestre que já se avizinha.

A indústria de produtos da chamada linha marrom (televisores, sistemas de som etc), por exemplo, será, de acordo com o economista Fernando Castelo Branco, uma das que mais sentirá no segundo semestre, tendo em vista a antecipação das vendas nesta primeira metade do ano e o consequente endividamento do consumidor. Para ele, o segmento de alimentação deve se manter aquecido, por razões óbvias e a indústria gráfica anotar crescimento no período eleitoral, mas é só.

Luz amarela

Conforme opina Alcântara Macêdo, o processo de desindustrialização - alertado no ano passado - já foi iniciado, podendo ser verificado na indústria química, na de brinquedos e até na indústria automobilística, a que mais incentivos vem recebendo do governo. "Acho que o processo de desindustrialização já começou, no País", corrobora Fernando Castelo Branco.

Para ambos, há vários fatores externos, macroeconômicos e conjunturais, que vem inibindo a recuperação da produção industrial e que fizeram acender a "luz amarela" no setor. Eles citam a elevada carga tributária, as altas taxas de juros e a inflação ascendente, o aumento do custo Brasil, a burocracia e a redução continuada das transações correntes, que estaria minando as reservas cambiais, como fatores que, por si só, já justificariam a preocupação com a indústria nacional. "Estamos em alerta, com a luz amarela, e o pior sem uma política industrial definida no País", reitera Alcântara Macêdo.

Sem mudanças

Entretanto, ambos rejeitam o pessimismo, dizem que o ano ainda não acabou, mas avaliam que dificilmente haverá mudanças de cenário até o fim de 2014, ano de eleições. "O Brasil (o governo) precisa estar mais atento para o aparelho produtivo, industrial, sob pena de ampliarmos, cada vez mais, a nossa dependência para a indústria internacional", alerta Macêdo.

Para ele, o Brasil precisa aproveitar esse período eleitoral, de discussões dos rumos políticos e econômicos do País, para construir uma política industrial com pressupostos de regionalização, que permita imprimir ritmos diferenciados de crescimento nas diferentes regiões, e reduzir as desigualdades. "Que esse período seja profícuo para um debate dos grandes projetos industriais do País", sugere. (CE)