PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
Fortaleza. Quando renasceu, Arnete já tinha 32 anos. Mas para nascer de novo, só precisou acordar com o dia. E primeiro pensou que estava morrendo. Essa não é só a história de Maria Arnete Borges, de Limoeiro do Norte, que foi dormir "normal" em uma noite também normal e amanheceu sem os movimentos de perna e braço, mas é uma história da luta pela acessibilidade no Ceará.
Foram muitos meses até um diagnóstico médico preciso de que sofreu uma lesão na medula advinda de um problema congênito. Mas para Arnete a sua vida 'comum" seria a pré-história, então sua "verdadeira' narrativa tem início com o primeiro fim. Contudo, o novo início é trágico e mais comum do que muitos imaginam.
Atravessar pelos direitos de ir e vir é sacrifício de milhões de Brasileiros. Acima da média do País, o Ceará tem mais de 2 milhões de pessoas com alguma deficiência. E são aproximadamente 80 mil cadeirantes. São quase invisíveis da porta de casa para fora.
E quando saem, para que passem por outras portas foi necessária uma portaria normativa da presidência da República determinando um mínimo de 80 centímetros de largura. Isso bem depois do dispositivo constitucional 5.296, a "lei da acessibilidade". Como lei e cumprimento não mantém uma relação de mutualismo, as associações municipais das pessoas com deficiência, e seus conselhos também municipais, são instrumento de luta para ver direitos garantidos. E mesmo assim, a julgar pelas calçadas no Interior e na Capital, é como se não existissem-em 2010, apenas 1,6% das ruas de Fortaleza possuíam rampas de acessibilidade, segundo IBGE.
Para quem precisa de cadeira de rodas, a calçada que termina no meio porque começa a de nível diferente é só a ponta da falta de acessibilidade. Arnete não sabia disso, como muitos que só percebem a dimensão de um problema quando estão dentro dele.
Quando não sentir nada parecia pior que qualquer dor, mexeu-se. Foi ao sentir-se inútil na cadeira de rodas que Arnete Borges precisou se levantar. "Fui pesquisar como eu poderia melhorar minha vida e a de outras pessoas com deficiência". Havia outras pessoas com o mesmo interesse no município e todas passaram a fazer parte da associação.
"Não só aqui, mas em todo lugar, como o cadeirante vai sair de casa se não tem como sair, atravessar? Tem sempre alguma coisa para dificultar". Antes de remover as pedras no meio da calçada, Arnete viu que poderia remover pedras humanas. "Uma das maiores dificuldades que a pessoa com deficiência enfrenta são os familiares. Não to dizendo que são culpados, estão apenas querendo proteger. É pela falta de acessibilidade que muitos deixam de ir a uma escola, uma praça". A cadeirante foi para a rua, às emissoras de rádio locais, convocar as pessoas com deficiência a saírem de casa, mostrar que "somos capazes". Fazerem-se reconhecidos. E saíram entre paralelepípedos para desviar os carros estacionados pelas calçadas. "O desejo de meus filhos de verem o mundo me fez sair de casa". De diversas formas, a dor rompe o silêncio e vira uma aventura. Sem ter nenhuma deficiência aparente, Artur e Victor Borges tiveram que descobrir serem também capazes. Precisavam ser. Quando a mãe acordou sem movimentos, os meninos tinham quatro e cinco anos de idade, respectivamente. E quando tão jovens entenderam as limitações da mãe, transpuseram os seus próprios limites. Há 15 anos são os cuidadores da mãe. E dessa forma participaram de todas as reuniões do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, em Limoeiro; também as reuniões de Fortaleza e muitas em Brasília, onde a mãe atuou por três anos - e até este mês - como membro do Conselho Nacional das Pessoas com Deficiência, do Ministério das Cidades.
Desconhecimento
"Os governantes dizem que a gente vive nessa miséria porque não tem recurso. É mentira. Não falta dinheiro, falta humildade e organização". E rampas que acessam direitos e deveres. A história de Arnete Borges é tão comum quanto desconhecida. "Se eu não tivesse saído para a rua, estaria evitando que muitos outros também saíssem", reflete. Mas agora está preocupada porque os filhos cresceram, terminaram o Ensino Médio e "precisam seguir o caminho deles". Artur tem 19 e Victor tem 20 anos.
Para Arnete, o renascimento só foi trágico em seu início. Mas não se considera um poço de felicidade porque há dias altos e baixos. Queria não depender de alguém para ir e vir, não por orgulho, mas por liberdade. E enquanto pensa numa forma de ver os filhos "seguindo caminho" - do tipo ter uma cuidadora de confiança para acompanhá-la, ela segue também uma rotina doméstica. Com o braço que se movimenta, varre casa, passa pano e lava louça, acessa o computador. Acorda cedo para contemplar os filhos dormindo e se sentir "a mãe mais realizada".
Mais Informações:
Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa com Deficiência do Ceará - CEDEF
Telefone: (85) 3101-2870
(88)9782-4152 (Arnete Borges)
Melquíades Júnior
Repórter




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