Filho se torna voluntário após pai morrer de coronavírus em SP

De acordo com Rodrigues, o pai era do grupo de risco para a doença

Pedro(ao centro) morreu aos 76 anos e filho resolveu eternizar, além da história dopai, outras vítimas do novo coronavírus — Foto: Arquivo Pessoal

Filho se torna voluntário em projeto para vítimas da Covid-19 após pai morrer da doença em SP

Rapaz de Santos, no litoral paulista, passou a integrar plataforma digital que, por meio de textos, forma um grande memorial sobre vítimas do novo coronavírus.

Por G1 Santos

Após o pai morrer com Covid-19 aos 76 anos, o publicitário Gustavo Fontes Rodrigues, de 43, resolveu se tornar voluntário em uma plataforma digital que presta homenagem a pessoas que morreram em todo o país pelo novo coronavírus. Natural de Santos, no litoral paulista, ele escreve de forma poética a história dessas pessoas, mostrando que nenhuma delas deve ser considera apenas mais um número.

O projeto, chamado "Inumeráveis", busca mostrar que as vítimas da doença são mais que estatísticas, são pessoas que têm histórias e famílias. "Acho uma ação muito bonita. Como não sou médico, nem cientista, essa é a forma que tenho de ajudar de alguma forma. É algo feito para manter viva a memória dessas pessoas. Recebemos a planilha da família com os escritos sobre a pessoa e damos um ar lírico e poético em cima do que eles escreveram. É bem legal", conta.

Rodrigues é filho único e há anos mora em São Paulo. Como a mãe faleceu ano passado e o pai tinha algumas comorbidades, resolveu levar ele de Santos para a Capital. Conforme relata, como o pai não queria morar na casa em que o publicitário vive com a família, eles optaram juntos por uma clínica de repouso, em janeiro deste ano.

De acordo com Rodrigues, o pai era do grupo de risco para a doença. Além de não andar, ele tinha diabetes e era hipertenso. "Eu o visitava e tomava café da manhã com ele todos os dias. No fim de março, quando apresentou isso do coronavírus, a dona da clínica fechou o espaço para visitas devido ao risco aos idosos de lá, então, passei a falar com ele apenas por videochamada", conta.

Pedro Rodrigues ainda estava lúcido e, no fim de abril, em um domingo, a dona da clínica liberou a visita, porque o idoso estava chateado de não ver o filho. "Na hora, achei ele bem caído. Estava com dor nas costas e febre. Bateu a preocupação, só que, até então, só sabíamos que ele estava com uma infecção urinária. Porém, depois do dia da visita, ele piorou muito, se sentia muito cansado. Na quinta-feira, ele teve que ir ao hospital, fez diversos exames e foi constatado que era coronavírus. Ele e outras três pessoas da clínica pegaram, mas não sabemos como. Pode ter sido por uma funcionária assintomática ou por meio da comida", diz.

O idoso foi internado e faleceu no dia 5 de maio, pela manhã. "Foi tudo muito rápido. Já não tinha vagas para os hospitais do plano dele, e ele acabou indo para uma unidade parceira. Eu não pude visitá-lo, ele ficou isolado. Apenas um dia antes dele morrer, a médica permitiu que eu o visse, porque ele já estava bem ruim , no quarto e sedado. Sabíamos que seria muito difícil por ele já ser do grupo de risco e ter a saúde debilitada. Tanto que, quanto ele foi internado, já estava com o pulmão 60% comprometido", afirma.

"É triste ver os comentários que desdenham a doença ou falam que 'mata apenas idosos'. Não são apenas os idosos que morrem, apesar de serem do grupo de risco. É uma doença muito nova, que mata muito, e por isso causa tanto medo. E todo mundo tem um idoso na família. Esses idosos têm filhos e netos que os amam. Sofremos muito pela perda. Por isso, resolvi fazer parte desse projeto, para mostrar que, assim que como o meu pai, essas pessoas não são números ou estatísticas, são seres humanos que têm famílias que viveram toda uma vida ao lado delas".

O sentimento de luto de Gustavo está sendo amenizado com as escritas que faz, eternizando histórias de vítimas da Covid-19. Como o publicitário gosta de escrever e conheceu o projeto por uma amiga, que é fundadora, resolveu ser voluntário.

"Eu conheci esse projeto alguns dias antes de o meu pai falecer, foi muito curioso. Na hora, pensei em participar. Aí, meu pai faleceu e eu conversei com essa amiga. Contei minha história e ela falou que eu poderia escrever o do meu pai. Falei que aceitava, mas que queria ser voluntário, também. Desde que ele morreu, já contei a história de uma ou duas pessoas por dia, que também morreram pela doença. Estamos eternizando essas pessoas. Elas merecem isso", conclui o rapaz.

https://g1.globo.com/sp/santos-regiao/noticia/2020/05/16/filho-se-torna-voluntario-em-projeto-para-vitimas-da-covid-19-apos-pai-morrer-da-doenca-em-sp.ghtml