Madrasta de rapaz linchado no Maranhão teve filho assassinado há sete anos
Estão levando todos os meus, um por um diz Maria, pouco depois de se recuperar do desmaio ao lado da cova.
Antonio Pereira e Maria José prestam homenagens no sétimo dia da morte de rapaz linchado no Maranhão Foto: Marcelo Theobald Luã Marinatto Sobre a sepultura de número 15, na seção C do Cemitério de Tibiri, em São Luís, no Maranhão, Antônio Pereira da Silva usa uma pedra para improvisar uma cruz e as iniciais C.P.S. junto à lápide. Enquanto isso, durante a cerimônia de Sétimo Dia, realizada na manhã de ontem, a auxiliar de cozinha Maria José Gonçalves Pires, esposa do lanterneiro, chora e revolve a terra. Contudo, a saudade que aperta o coração da madrasta de Cleidenilson Pereira da Silva, linchado após tentar roubar um bar no bairro Jardim São Cristóvão, há uma semana, não é endereçada só ao enteado. No mesmo túmulo, pelo qual a família humilde paga R$ 70 anuais desde 2008, jaz Adriano Pires Alves, seu filho, assassinado há sete anos com um tiro no peito. — Eu só queria entender o motivo de tanta violência. Estão levando todos os meus, um por um diz Maria, pouco depois de se recuperar do desmaio ao lado da cova. Sepultados um sobre o outro, Cleidenilson e Adriano guardam mais coisas em comum do que as mortes trágicas. De idades próximas — somente um ano os separava — e criados como se entre eles houvesse um laço de sangue, os dois eram extremamente ligados. Tanto que, na quarta-feira de junho em que perdeu a vida, Adriano meteu-se numa discussão em um bar justamente para defender o “irmão”. Quando os ânimos foram acalmados, decidiu voltar para casa. Quase na porta, porém, um dos envolvidos no bate-boca o alcançou e disparou contra ele, sem chances de defesa. A execução marcou a família, especialmente Cleidenilson. As autoridades levaram mais de seis anos, ou exatos 2.322 dias, para dar uma resposta à dor de Maria. Em 13 de outubro de 2014, o juiz Gilberto de Moura Lima, da 2ª Vara do Tribunal do Júri de São Luís, condenou Ivanor Pereira Santos, o Jiboia, a sete anos e sete meses de reclusão em regime semi-aberto pelo homicídio. Foragido, o réu sequer ouviu a sentença. Ele só seria preso semanas mais tarde, numa ocasião fortuita, quando presenciou, por ironia, uma briga de bar. — Será que vou passar por tudo isso de novo, tanto tempo para que haja um desfecho? Encontrar um culpado não traz meus filhos de volta, mas ajuda a aquietar o coração. O desabafo de um pai Ao discursar aos amigos e parentes que acompanharam a homenagem de ontem, Antônio, pai de Cleidenilson, não chegou a citar a morte de Adriano — assunto que ele prefere evitar. O lanterneiro, no entanto, fez questão de criticar a “violência que vem tomando conta do Maranhão e do país”: — As pessoas estão cansadas. Nós estamos cansados. E os políticos não fazem nada. Quando a cerimônia de uma hora teve fim, Antônio pediu, de novo, justiça: — Ele tinha os defeitos dele, mas ladrão sei que não era. Não imagino o que houve para fazer isso naquele dia. De qualquer forma, não poderia ter morrido assim. A revolta com a brutalidade dos agressores é partilhada por Maria José: — Ontem (sábado), estava dobrando as roupas dele. Parecia que ele estava ali, cheguei a ouvir o celular tocando o reggae de que tanto gostava. Saber que ele deve ter pedido socorro, do desespero que sentiu... É o pior de tudo.




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