Maracatus e cavalos-marinhos têm 1º carnaval após título de patrimônio
Mestres dos folguedos ainda não viram mudanças trazidas pela outorga.
Manifestações ganharam registro especial do Iphan em dezembro de 2014. Katherine CoutinhoDo G1 PE A diversidade cultural de Pernambuco é uma das marcas do estado. Os maracatus nação e de baque solto e a brincadeira popular conhecida como cavalo-marinho receberam o título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em dezembro de 2014. As três têm origens e pontos em comum, sendo as duas primeiras manifestações típicas do carnaval. O G1 convidou três representantes para mostrar o que é cada uma delas e o que significa, para eles, o título recém-concedido pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Brasil. A gente ainda vai entender melhor quando começarem a vir os resultados, mas acho que tudo que é direcionado para a cultura popular é bem vindo" Manoelzinho Salustiano, presidente da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco Manoelzinho Salustiano, presidente da Associação dos Maracatus de Baque Solto de Pernambuco, vem de uma família intimamente ligada à cultura popular e, desde criança, viveu de perto o maracatu de baque solto. Em todo o estado, há registrados 119 maracatus desse tipo. "O [título de] patrimônio imaterial vem para dar um complemento, uma ajuda. A gente ainda vai entender melhor quando começarem a vir os resultados, mas acho que tudo que é direcionado para a cultura popular é bem vindo", acredita. As dificuldades são muitas para manter as tradições vivas e ativas. Dos 15 grupos de cavalo-marinho de Pernambuco, apenas 12 ainda se apresentam de fato nas festas dos padroeiros e com dificuldade. "É um espetáculo muito bonito, conta a história do dia a dia de cada um, do cotidiano. Na minha vida, cavalo-marinho foi tudo, foi minha escola, faculdade. Esse patrimônio significa a gente dar um passo a mais, para a nossa cidade olhar um pouco para a gente, governo, o pessoal dos órgãos públicos olhar um pouco mais para a gente", conta Mestre Grimário -- José Grimário da Silva, representante do cavalo-marinho Boi Pintado de Aliança. Se o cavalo-marinho é ligado à festa dos santos da Igreja Católica, como Sant'anna, que abre o período da brincadeira em julho, o maracatu nação, também conhecido como baque virado, está relacionado ao candomblé. Por isso mesmo, enfrenta preconceito, muitas vezes. "O povo acha que é uma macumba, que é uma feitiçaria e que vai fazer mal aos outros. Ao contrário, o maracatu é uma das coisas de maior união entre os povos. As nações de maracatu são onde a gente consegue falar a mesma língua", conta Fábio Sottero, presidente da Associação de Maracatus Nação de Pernambuco. O maracatu é uma das coisas de maior união entre os povos. As nações de maracatu são onde a gente consegue falar a mesma língua" AuFábio Sottero, presidente da Associação de Maracatus Nação de Pernambuco Para quem não está acostumado a ver os três grupos na rua, há características únicas. O maracatu baque solto tem como figura mais imponente o caboclo de lança, conhecido por sua grande cabeleira colorida. Também chamado de maracatu rural, o folguedo vem da Zona da Mata Norte, intimamente ligado à cultura canavieira, sendo resultado da fusão de expressões populares, como cambindas, bumba-meu-boi e cavalo marinho e coroação de reis negros. O maracatu nação, também conhecido como baque virado, é muito ligado à Região Metropolitana do Recife. A percussão, marcada pelo som das alfaias, é uma de suas características fundamentais. Há um cortejo, com direito a rei, rainha, vassalos e escravos, entre outras figuras que compõem o séquito. Nas nações não podem faltar as calungas - bonecas negras confeccionadas com madeira ou pano - consideradas ícone do fundamento religioso e marco identitário dos maracatus nação. Já o cavalo-marinho é como uma grande peça cantada, com 76 personagens. Durante a encenação ocorrem danças com personagens mascarados e bichos, como o boi e o cavalo, que dá nome à brincadeira. O ciclo natalino encerra o período das brincadeiras, que ocorrem geralmente nas festas dos santos padroeiros do interior. Esse patrimônio significa a gente dar um passo a mais, para a nossa cidade olhar um pouco para a gente, governo, o pessoal dos órgãos públicos olhar um pouco mais para a gente" Mestre Grimário, do cavalo-marinho Boi Pintado de Aliança Patrimônio O Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC) de cada uma dessas manifestações foi entregue ao Iphan em 13 de agosto de 2013. Foi na 77ª Reunião Deliberativa do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, realizada no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília, que o registro de título de Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil foi decidido. O conselho é formado por especialistas de diversas áreas, como cultura, turismo, arquitetura e arqueologia. Ao todo, são 23 conselheiros que representam instituições como o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Ministério da Educação, o Ministério das Cidades, o Ministério do Turismo, o Instituto Brasileiro dos Museus (Ibram), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e mais 13 representantes da sociedade civil, com conhecimento nos campos de atuação do Iphan.


















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