Amigos terminam desenho inacabado de grafiteiro morto por modelo em SP

Artista grafitava um muro quando foi agredido com um skate pelo modelo.

Familiares e amigos do grafiteiro Wellington Dias Bezerra, mais conhecido como Leto, morto no dia 24 de outubro em São Vicente, no litoral de São Paulo, se reuniram neste sábado (1°) para realizar uma Caminhada pela Paz em sua memória e finalizar o desenho no qual o artista trabalhava quando foi agredido com um skate pelo modelo fotográfico Eloy Buono.

A ideia de dar continuidade à obra inacabada de Leto partiu de seus amigos. “Desenhamos o que estamos sentindo neste momento, que é a grande perda do nosso amigo. E ele sempre quis deixar os muros vivos, colorir a cidade”, explica o grafiteiro e amigo do artista, Wilis Cavalcante.

A concentração para a caminhada ocorreu na sede das Oficinas Culturais da cidade, na Rua Tenente Durval do Amaral, no bairro Catiapoã. De lá, familiares e amigos seguiram até a Rua Alcides Araújo, onde Leto grafitava um muro quando foi agredido. O trabalho foi concluído pelos artistas em homenagem à vítima.

O objetivo da ação foi pedir justiça e paz, e que a morte de Leto não seja esquecida. A irmã do grafiteiro, Noemi Alves, estava emocionada.  “Não desejo mal para a família do agressor, porque ele tem mãe e eu sou mãe também. A única coisa que a gente deseja é justiça, que ele pague pelo que fez com o meu irmão, só isso”, desabafa.

Caso
Leto realizava uma pintura artística no muro de uma residência em São Vicente. De acordo com sua esposa, a também artista de rua Erica Maurício da Cunha, conhecida como Kiika, ao notar o trabalho do grafiteiro, um homem, identificado apenas como tio do modelo fotográfico Eloy Buono, abordou o artista, que explicou ter autorização do dono do imóvel.

Kiika afirma que, em seguida, o modelo apareceu e passou a discutir com Leto, o atingindo na cabeça com um skate. Eloy fugiu do local e Leto foi levado ao Hospital Municipal de São Vicente, onde foi constatado que ele havia sofrido um afundamento de crânio. A vítima foi colocada em coma induzido.

Eloy se apresentou no 1° Distrito Policial de São Vicente no dia 17 de outubro, afirmando que atacou Leto apenas para se defender. Durante o depoimento prestado pelo modelo à polícia, foi descoberto que Leto e Eloy já se conheciam. De acordo com Marcos Alexandre Alfino, delegado titular do 1° DP de São Vicente e responsável pelo caso, o modelo afirmou que ele teria ido a um estúdio de tatuagem para fazer um desenho e que Leto trabalhava como estagiário no local. “A vítima, segundo consta, era estagiária em um estúdio de tatuagem e teria feito um esboço no Eloy. Ele disse que não gostou do trabalho e por isso o desenho não foi concluído, motivo pelo qual a tatuagem não foi paga. O Eloy disse que, momentos antes da agressão, esse fato veio à tona. O modelo diz que foi ele quem lembrou, e que Leto teria dito que fez a tatuagem de graça. Todas essas circunstâncias serão investigadas”, afirmou na época.

O suspeito confirmou o fato, mas diz que Leto teria machucado a pele dele durante os trabalhos feitos no estabelecimento. “O único contato que tive com ele foi em um estúdio de tatuagem onde ele trabalhava. Ele me pediu para procurar o desenho que eu queria na internet, e disse que o computador estava ruim. Eu acabei fazendo um serviço no computador dele, não cobrei nada, e então ele começou a fazer a tatuagem. Chegou a completar o desenho, mas quando começou a preencher, arrancou um pedaço da minha pele, e eu parei, não quis continuar. Ele me machucou, causou uma lesão no meu corpo, e eu dependo da minha integridade física para meus trabalhos, porque sou modelo fotográfico profissional”, disse.

Eloy afirma, entretanto, que o fato não possui nenhuma relação com a agressão. "Não foi desavença alguma, foi um trabalho que ele fez que não fiquei satisfeito. Foi algo totalmente profissional. Não tive nenhum problema pessoal com ele, não gostei e por isso não paguei a tatuagem". Leto continuou internado na UTI do Hospital Municipal de São Vicente e acabou falecendo na noite do dia 24 de outubro.

Do G1 Santos