Médicos alertam para complicações graves após infecção e a importância da imunização para pessoas acima dos 60 anos - Por Sarah Macedo - 08/04/2026
Fila de vacinação contra a gripe. Campanha nacional de vacinação contra a influenza teve início em 28 de março e deve seguir até 30 de maio, com prioridade para crianças, gestantes e pessoas a partir — Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Mesmo antes da chegada da temporada mais fria no Brasil, as internações de pessoas com 60 anos ou mais por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) causada por influenza — vírus da gripe — apresentaram um aumento significativo. Dados do SIVEP-Gripe (Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe) mostram que, de janeiro até a segunda semana de março, o número de internações nessa faixa etária cresceu 153% em relação ao mesmo período de 2025.
Os números foram compartilhados durante evento promovido pela biofarmacêutica Sanofi, em São Paulo, no dia 1º de abril. O encontro reuniu especialistas para discutir a temporada de gripe deste ano, assim como seus riscos e a importância da imunização para pessoas acima dos 60 anos.
Cenário da gripe no Brasil
No ano passado, durante a sazonalidade do vírus influenza, que se concentra de março a agosto — quando as temperaturas estão mais baixas e o ar mais seco —, as hospitalizações de idosos mais que dobraram em comparação com o mesmo período em 2024, saltando de 6.448 para 15.136 casos (um aumento de 134,7%).
O mesmo ocorreu com as internações em UTI, que passaram de 2.162 casos para 4.991, indicando um crescimento de 130,9%. Já os casos de óbitos foram de 1.237 para 3.068, representando aumento de 148%.
Em relação às hospitalizações no intervalo de janeiro até a segunda semana de março, no ano passado foram registrados 524 casos. Neste ano, o número chegou a 1.507.
Não à toa, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) faz um alerta de que a circulação do vírus influenza nas Américas pode começar mais cedo em 2026 e ter um maior impacto na população.
Para os especialistas, o momento exige um reforço na conscientização sobre a importância da vacinação, principalmente entre a população com mais de 60 anos.
"A gente ainda subestima a gripe, mas ela pode ser devastadora em pessoas mais velhas. Os dados mostram impactos relevantes na saúde pública por graves complicações da gripe que poderiam ser evitadas com vacinação", afirma o médico oncologista e comunicador Drauzio Varella, em fala durante o evento da Sanofi acompanhando pela GALILEU.
Pensando em atacar a alta no número de casos, a campanha nacional de vacinação contra a influenza foi antecipada, tendo início em 28 de março. Entretanto, existe o desafio de convencer a população sobre a importância da imunização, que vem tendo uma baixa adesão nos últimos anos.
Para o especialista, o principal problema é fazer a população entender o que é a gripe. “[A pessoa] espirra duas, três vezes e acha que está gripada. A gripe não é um resfriado, é uma doença que provoca inflamação nos brônquios e dor muscular intensa, que impede a pessoa de trabalhar e realizar atividades diárias”, explicou.
Drauzio Varella, médico oncologista e comunicador, durante evento sobre vacinação em São Paulo
Gripe ou resfriado?
O resfriado é uma infecção que pode ser causada por mais de 200 vírus, sendo o rinovírus o mais comum. Os sintomas são mais leves e atingem principalmente o nariz e a garganta, causando congestionamento nasal, coriza, tosse, dores musculares ou de cabeça e, caso houver, febre baixa. A recuperação costuma ocorrer em poucos dias.
Já a gripe, que é causada pelo vírus influenza, principalmente pelos tipos A (H1NI e H3N2) e B, resulta em uma infecção respiratória com sintomas mais intensos que o resfriado comum, como febre alta, fraqueza intensa, dores por todo o corpo e mal-estar, que podem durar semanas e, até mesmo causar morte — especialmente em idosos, gestantes, crianças pequenas e pessoas com doenças crônicas.
Gripe além de sintomas respiratórios
Especialistas apontam que os efeitos da infecção pelo vírus influenza podem ir além de sintomas respiratórios leves, principalmente em idosos. Ela também está associada a complicações mais graves, como pneumonia, agravamento de doenças crônicas (diabetes e hipertensão, por exemplo) e eventos cardiovasculares.
Caso um paciente tenha, por exemplo, uma doença respiratória como a DPOC (Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica) — que engloba enfisema pulmonar e bronquite crônica, frequentemente causados pelo tabagismo, e tem maior incidência em adultos acima dos 60 anos —, a infecção viral pode levar a uma hospitalização mais séria.
Esses impactos estão diretamente ligados à imunossenescência — envelhecimento natural do sistema imunológico que reduz a capacidade do organismo reagir a infecções.
“Se esse doente tem uma infecção e não está protegido, não está vacinado, ele forçosamente vai para a terapia intensiva, tem um risco imenso de ser colocado em ventilação mecânica. Isso vai aumentando a morbidade e a mortalidade”, destacou a pneumologista Margareth Dalcolmo.
Como pontua o médico cardiologista Mucio Tavares, a gripe também pode ser responsável por desencadear eventos cardiovasculares já a partir dos 40 anos de idade, aumentando em oito vezes o risco de AVC (Acidente Vascular Cerebral), em dez vezes o risco de infarto e apresenta um crescimento de 33% no número de hospitalizações por insuficiência cardíaca.
Isso acontece principalmente devido à resposta inflamatória sistêmica, um processo em que o corpo produz diversas substâncias para combater a infecção viral. Quando produzidas em excesso, essas substâncias se tornam tóxicas para o organismo, resultando em uma disfunção de órgãos e tecidos — sobretudo o coração.
“O fenômeno inflamatório sistêmico leva à liberação de substâncias inflamatórias, migração de células, aumento da coagulabilidade e atividade de plaquetas. Existe mais ruptura de placas [coronarianas] e a ocorrência de coagulação. [Consequentemente], há mais AVC e infarto”, ressaltou o cardiologista.
O especialista ainda relatou que no pronto-socorro do InCor, hospital onde atua, aproximadamente 30% dos pacientes que chegam com algum problema do coração — como infarto, angina instável ou insuficiência cardíaca descompensada — relatam uma síndrome gripal nos últimos dez dias.
A pneumologista Margareth Dalcolmo e o cardiologista Mucio Tavares durante evento sobre vacinação em São Paulo
Desinformação ainda é obstáculo
Drauzio Varella destacou que os efeitos da desinformação sobre as vacinas vão além da circulação de conteúdos falsos, atingindo diretamente a confiança da população em relação às vacinas.
“A pessoa que é levada ao médico ou ao posto de vacinação precisa acreditar que aquela vacina é segura. Se você lança uma dúvida dizendo que a vacina pode não ser segura, você cria um problema grave. É muito difícil conseguir combater esse tipo de notícia falsa”, disse Drauzio Varella. “Eu acho que as redes sociais poderiam colaborar muito ao evitar esse tipo de informação falsa”, completa.
Um dos exemplos mais comuns de desinformação envolve a crença de que a vacina da gripe pode causar gripe, algo frequentemente disseminado, apesar de não ter qualquer base científica.
O boato se baseia no fato de versões do imunizante serem produzidas com pedaços do próprio vírus. Só que, no caso das vacinas, o vírus está “morto” (inativado), e não tem a capacidade de se replicar no organismo - e, por tabela, não pode causar a infecção.
Algumas pessoas podem apresentar reações leves ao se vacinar, como febre baixa, mal-estar ou dor no corpo. Nesses casos, o que acontece é uma resposta do sistema imunológico à vacina para criar proteção. Além disso, o corpo leva cerca de duas semanas para desenvolver proteção após a vacina. Caso uma pessoa fique gripada logo após tomar a dose, é possível que ela já tenha sido infectada pelo vírus influenza ou até mesmo outro vírus respiratório que circula no mesmo período.
Vacinar é o caminho
A infectologista Rosana Richtmann reforça que a vacinação é a principal estratégia para reduzir os casos de hospitalizações e mortes. “A hora que vem o agente agressor, o idoso tem anticorpos preparados para enfrentar [a infecção]. O objetivo principal de uma vacina para qualquer vírus respiratório, não é que você não tenha a doença, é que você não tenha uma doença grave, que aquele vírus não te leve para uma emergência”, disse.
A campanha nacional de vacinação contra a influenza teve início em 28 de março e deve seguir até 30 de maio, com prioridade para crianças, gestantes e pessoas a partir dos 60 anos.
A vacina está disponível tanto na rede pública quanto na privada. No Sistema Único de Saúde (SUS) é oferecida a versão trivalente, produzida pelo Instituto Butantan e utilizada nas campanhas do Ministério da Saúde.
Na rede privada, também há a oferta de vacinas quadrivalente, incluindo versões de alta dose indicadas para pessoas acima de 60 anos, que podem ampliar a proteção contra formas mais graves da doença.
https://revistagalileu.globo.com/saude/noticia/2026/04/gripe-avanca-mais-cedo-e-internacoes-de-idosos-disparam-no-brasil.ghtml