Dor, sangramento, inchaço: sinais e sintomas de câncer que passam despercebidos pelas mulheres

Alerta, muitos tumores podem começar de forma silenciosa ou com sinais e sintomas inespecíficos, passando despercebidos no dia a dia.

Manifestações inespecíficas muitas vezes podem indicar condições benignas também, mas merecem investigação quando persistem

Por Marcella Centofanti, Em Colaboração para Marie Claire — de São Paulo - 08/04/2026 

O nódulo não é o único ponto de atenção para o câncer de mama — Foto: Pexels

O diagnóstico precoce ainda é um dos principais fatores que determinam o prognóstico do câncer. Quando a doença é identificada nas fases iniciais, as chances de cura aumentam muito e os tratamentos tendem a ser menos agressivos e com menor impacto na qualidade de vida. O problema é que muitos tumores podem começar de forma silenciosa ou com sinais e sintomas inespecíficos, passando despercebidos no dia a dia. 

O Instituto Nacional de Câncer (Inca) estima 704 mil novos casos por ano no país entre 2023 e 2025. Os tipos mais incidentes entre mulheres incluem tumor de mama, de intestino, de colo do útero e de pulmão — os três primeiros com alto potencial de detecção precoce.

Ainda assim, o caminho até o diagnóstico pode ser tortuoso. “Muitos sintomas iniciais são inespecíficos e acabam sendo atribuídos a estresse, alterações hormonais ou problemas digestivos. Entre os mais frequentemente negligenciados estão: cansaço persistente, perda de peso sem causa aparente, alterações intestinais, sangramentos fora do padrão menstrual, dor pélvica e distensão abdominal”, afirma Michelle Samora, oncologista do Hcor. “Quando persistem, podem ser sinais de doenças mais importantes.” 

De acordo com a médica, evidências mostram que o atraso no diagnóstico está frequentemente relacionado à forma como as pacientes interpretam os primeiros sinais, um fenômeno conhecido como appraisal delay. Muitas mulheres tendem a atribuir sintomas inespecíficos a causas benignas, postergando a busca por avaliação médica.

No entanto, para a médica de família e comunidade Sanni Silvino Parente, membro da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC), é importante evitar uma leitura simplista ou alarmista dos sintomas.

Ela enfatiza que não existe um conjunto único de sinais que, isoladamente, indica câncer, já que muitas manifestações são comuns a diferentes condições do dia a dia. O mais importante é estar atenta aos padrões físicos e reconhecer quando algo foge do habitual.

“Existe uma cultura consolidada entre nós, mulheres, de buscar por defeitos e quaisquer indícios de ‘erros’ do nosso corpo, antes mesmo do aparecimento de sintomas”, diz. “A minha principal orientação é: se conheça. Faça um movimento verdadeiro de busca pelos detalhes do seu corpo, com curiosidade e não com insegurança de encontrar algum ‘defeito’ ou ‘sinal precoce’.”

A seguir, veja os principais sinais e sintomas que merecem atenção, sobretudo quando persistem ou fogem do padrão habitual.

Alterações além do nódulo

O câncer mais comum entre mulheres no Brasil é o de mama, sem contar o de pele não melanoma. Seu sinal notório, claro, é o caroço. “Nem todo nódulo é câncer, mas todo nódulo novo precisa ser avaliado”, afirma Samora.

Mas o alerta não se limita a ele. Mudanças no formato ou no tamanho do seio, retração da pele ou do mamilo, vermelhidão persistente, aspecto de “casca de laranja” e saída de secreção, sobretudo sanguinolenta, também exigem atenção. “Qualquer um desses achados, além da identificação de nódulo mamário, se associados à idade acima de 50 anos e histórico familiar de câncer de mama são os sinais suspeitos”, aponta Parente.

Sangramentos fora do padrão

Alterações no padrão de sangramento também estão entre os sinais que merecem investigação. Sangramentos fora do período menstrual, após a menopausa e após relação sexual devem ser investigados, assim como aumento do fluxo e ciclos muito irregulares sem explicação. 

“Esses sinais podem estar associados a alterações benignas, mas também a câncer de colo do útero ou de endométrio”, aponta a oncologista.

Parente ressalta que uso de medicações, privação do sono, rotina exaustiva, tabagismo, padrões alimentares e diversos outros fatores podem ocasionar irregularidade menstrual, sangramento excessivo ou ausente ou outros distúrbios do padrão menstrual. “Tente conhecer seu corpo e como ele se manifesta através das variações do ciclo menstrual”, orienta a médica de família e comunidade.

Sintomas intestinais persistentes

Alterações no funcionamento do intestino costumam ser atribuídas à alimentação, ao estresse ou a quadros passageiros, mas, quando não passam, merecem atenção. O câncer colorretal, um dos mais incidentes entre as brasileiras, pode se manifestar com sinais e sintomas que passam despercebidos no dia a dia.

Mudanças do padrão do cocô, presença de sangue nas fezes, dor e distensão abdominal, diarreia, obstipação e sensação de evacuação incompleta estão entre as manifestações que devem ser avaliadas. “O ponto chave é a persistência: sintomas que duram mais de algumas semanas ou que se intensificam devem ser investigados”, afirma a oncologista.

Inchaço e desconforto abdominal

Entre os tumores ginecológicos, o câncer de ovário é um dos que mais desafiam o diagnóstico precoce. Isso porque os sinais iniciais costumam ser difusos, pouco específicos e confundidos com alterações digestivas ou hormonais, o que pode atrasar a investigação.

“Os sintomas costumam ser sutis, como desconforto pélvico ou abdominal (40%), sensação de inchaço ou aumento do volume abdominal (39%) ou perda de apetite ou saciedade precoce (15%)”, lista Samora. “As mulheres muitas vezes atribuem a processos naturais, como envelhecimento, estresse ou menopausa.”

Alterações na pele

Mudanças em pintas ou lesões ao longo do tempo são um dos principais pontos de atenção para o câncer de pele, o mais comum no Brasil. Alterações progressivas, especialmente em áreas expostas ao sol, devem ser observadas com atenção. 

A regra prática é observar pintas que mudam ao longo do tempo. Sinais de alerta incluem assimetria, bordas irregulares, cores diferentes na mesma lesão, aumento de tamanho e lesões que sangram ou não cicatrizam.

Medidas preventivas

Além de ficar atenta ao próprio corpo, Samora aponta a importância dos exames de rastreamento, como o de câncer de mama e de colo de útero, que permitem identificar alterações antes mesmo do surgimento de sintomas. A vacinação contra o HPV também é uma das principais estratégias de prevenção do câncer de colo do útero e de outros tumores relacionados ao vírus. 

Já Parente ressalta que hábitos de vida têm impacto relevante no risco de câncer. “Quase 40% dos casos em mulheres em países industrializados estão relacionados a tabagismo, padrões alimentares ruins, consumo de álcool e sedentarismo”, diz. “Se você fizer um movimento de autoconhecimento e redução da exposição a esses hábitos, está em um caminho mais coerente do que o de seguir correntes de medo em redes sociais e busca excessiva por exames.”

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