‘Escondi dinheiro até me separar do meu ex violento’: independência financeira ajuda mulheres a saírem de relações abusivas
Conheça essa história para a independência da vida e libertação das garras do ex-marido
A servidora pública Romilda Estácio — Foto: Arquivo pessoal
Por Hysa Conrado, redação Marie Calire — São Paulo - 03/04/2026
A carioca Romilda Estácio viveu cerca de 30 anos refém de um marido violento e possessivo, e só conseguiu se libertar quando teve o próprio dinheiro. Pesquisa aponta que autonomia financeira já é mais desejada pelas mulheres do que romance
“Não precisa trabalhar que eu te sustento.” Muitas vezes, o início da dependência financeira em um relacionamento aparece travestida de cuidado e gentileza. O homem pronto para assumir o papel de provedor. Em outras vezes, o controle financeiro faz parte do sentimento de posse e da tentativa de manter a mulher aprisionada no relacionamento. Foi o que aconteceu com a servidora pública Romilda Estácio, 55 anos.
Moradora do Rio de Janeiro (RJ), ela conta que começou a se relacionar ainda adolescente com o ex-marido e ficou cerca de 30 anos refém das manipulações e violências cometidas por ele.
“Eu trabalhava quando ele me conheceu. Depois que tive meu primeiro filho, eu parei, porque ele era um homem muito possessivo, do tipo que achava que a mulher precisava ficar em casa para cuidar das crianças. Então, eu deixei de trabalhar e foi a pior burrada que eu fiz na minha vida”, conta, em entrevista a Marie Claire.
Dois anos depois, Romilda teve gêmeos, o que impossibilitou ainda mais a retomada da sua vida profissional. Totalmente dependente do dinheiro do marido, o ciclo de abuso e xingamentos passou a afetar também os filhos, que se tornaram alvos da violência paterna.
“Você fica isolada, sozinha no sofrimento, sem saber o que fazer. Eu ficava esperando meus filhos crescerem, porque achava que aí poderia dar um rumo na minha vida. Mas não via saída, também por medo. A gente sempre vê casos de feminicídio, de homens que não aceitam a separação”, desabafa.
Além do temor de não conseguir sustentar os filhos, Romilda também teve que lidar com a cultura da igreja que frequentava, que difundia a crença de que as mulheres deveriam ser submissas aos maridos.
“Na minha cabeça, eu tinha que ser o exemplo. Olha que idiotice: um casamento falido, horrível, e eu preocupada em não me separar para não dar mau exemplo para os meus filhos”, lamenta.
Foi a filha de Romilda que, aos 17 anos, a alertou sobre a realidade em que a família vivia. “Ela falou: ‘Mãe, a senhora não percebeu que vive num relacionamento abusivo?’. E fui procurar saber o que era, porque quando você está na situação, acha que tudo aquilo é normal, que todo casamento é assim”, lembra a servidora pública.
A autonomia financeira como retomada da vida
Aos 37 anos, Romilda passou em um concurso público, mas, mesmo assim, levou tempo para conseguir ter autonomia sobre o próprio dinheiro.
O ex-marido pegava empréstimos em seu nome e administrava seus recursos, mantendo o controle financeiro dentro de casa. “Quando fui chamada [para assumir], ele não gostou, porque viu que poderia perder o controle”, afirma.
A reviravolta só começou a acontecer quando Romilda decidiu abrir outra conta e passou a guardar dinheiro em segredo. Com os filhos crescidos, ela reuniu forças para sair da relação em 2019, com 48 anos.
"Minha autonomia financeira me ajudou muito, porque eu não dependia mais dele para nada. Eu tinha meu dinheiro, tinha onde morar. Meus filhos estavam do meu lado, querendo que o relacionamento acabasse, porque não aguentavam mais. Todos nós éramos prisioneiros daquela situação.
Dinheiro na mão, o que fazer?
A história de Romilda mostra que, quando se trata de relacionamentos abusivos, não há plano de fuga perfeito: a autonomia financeira é fundamental, sim, mas apenas ter acesso ao dinheiro nem sempre é a resposta definitiva.
A pesquisadora Thaise Xavier, fundadora do Elas Trabalham, explica que há uma série de fatores que dificultam até mesmo a forma como elas vão conseguir gerenciar os recursos.
“Muitas mulheres, quando percebem que precisam sair da relação, não têm essa autonomia porque passaram a vida delegando a gestão financeira ao homem. Às vezes, até tinham renda, mas nunca administraram o próprio dinheiro. E aí saem da relação sem nada, seja porque não sabem reivindicar o que lhes cabe, seja porque o parceiro tomou decisões ruins e comprometeu o patrimônio”, destaca.
Neste sentido, a pesquisadora explica que a relação com o dinheiro precisa passar por alguns processos: o primeiro é entender se realmente não existe nenhuma renda. Muitas mulheres realizam atividades que geram dinheiro – como vender produtos, fazer artesanato ou prestar pequenos serviços – e não reconhecem isso como trabalho.
“É importante, porque pensar apenas em um emprego formal pode parecer algo distante demais, especialmente para quem está fora do mercado há muito tempo ou tem filhos pequenos. O segundo passo é começar a valorizar essas atividades e enxergá-las como fonte de renda possível”, explica.
E o terceiro passo, que costuma ser o mais difícil, é o enfrentamento: iniciar uma mudança dentro de casa, assumir mais controle sobre a própria vida financeira e passar a construir caminhos para essa autonomia – como aconteceu com Romilda, que encontrou uma forma de preservar o próprio dinheiro.
“Existe esse duplo movimento: o enfrentamento dentro da relação e a busca por caminhos práticos de autonomia. E não é fácil. Isso é importante deixar claro para não parecer que ‘é só sair’. Não funciona assim. Existe violência psicológica, dependência emocional, uma série de fatores que dificultam essa saída”, ressalta Thaise Xavier.
Buscar apoio emocional
No processo de compreender que vivia uma relação abusiva até conseguir sair dela, Romilda também contou com grupos de apoio, que lhe ofereceram acolhimento, compreensão e a percepção de que a vida poderia existir em outros cenários.
Foi nesse contexto que ela conheceu o Grupo Sementes de Girassol e a terapeuta Bárbara Costa, que ressalta a importância de ressignificar a própria história, especialmente no contato com outras vivências semelhantes.
“Uma das maiores dificuldades para as mulheres em relacionamentos abusivos é desvencilhar dor, manipulação e maus-tratos de amor. E também deixar de normalizar o ódio do homem, como se atitudes agressivas e impulsivas fossem situações normais do sexo masculino, ou uma questão passageira, de ciúmes”, ressalta.
Elas querem liberdade primeiro
A terapeuta Bárbara Costa afirma que a dependência financeira aparece como um dos maiores empecilhos para que mulheres consigam sair de relações abusivas, correspondendo a quase 80% dos casos que ela atende no Grupo Sementes de Girassol
Neste contexto, a pesquisa “Mulheres e Mercado de Trabalho 2026”, realizada pela Consultoria Maya com o apoio da empresa Koru, revela que a maior parte das mulheres ouvidas tem como principal desejo ter autonomia financeira (37,3%); sendo que saúde mental e física vem em segundo lugar (31,1%), depois, realização profissional (23,2%), e apenas 7,9% tem a realização amorosa como prioridade.
A pesquisadora Thaise Xavier acredita que esses números refletem uma rachadura entre o ideal do amor romântico e a realidade prática dos relacionamentos.
“Talvez as mulheres estejam entendendo qual de fato é o lugar do amor na vida delas. Porque começamos a perceber que a construção desse amor romântico, do casamento, da felicidade conjugal não é a mesma para homens”, afirma.
Além de evidenciar a importância das discussões que têm movimentado o debate de gênero nas últimas décadas, especialmente o papel fundamental da Lei Maria da Penha na amplificação do reconhecimento das diferentes formas de violência doméstica – como a psicológica, patrimonial, sexual e física, entre outras –, temas que foram difundidos por meio da internet e dos meios de comunicação.
https://revistamarieclaire.globo.com/violencia-de-genero/noticia/2026/04/escondi-dinheiro-ate-me-separar-do-meu-ex-violento-independencia-financeira-ajuda-mulheres-a-sairem-de-relacoes-abusivas.ghtml




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