Aumento de casos de sarampo em São Paulo acende alerta para outros estados; entenda o risco de disseminação
Em 2026, o Brasil já confirmou 18 casos da doença. Quinze deles estão em acompanhamento no estado de São Paulo
Aumento de casos de sarampo em São Paulo acende alerta para outros estados; entenda o risco de disseminação — Foto: Adobe Stock
A estratégia amplia a imunização de pessoas de 6 meses a 59 anos em três municípios; cobertura abaixo da meta favorece cadeias de transmissão em grupos vulneráveis.
Por Silvana Reis, g1 02/08/2026
A ampliação da vacinação contra o sarampo em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo, inclusive para pessoas que já estão com o esquema vacinal completo, é uma tentativa de interromper rapidamente uma cadeia de transmissão antes que o vírus encontre novos grupos vulneráveis e se espalhe.
Em 2026, o Brasil já confirmou 18 casos da doença. Quinze deles estão em acompanhamento no estado de São Paulo: 12 na capital, dois em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos. A concentração de casos levou o Ministério da Saúde a recomendar a vacinação de todas as pessoas de 6 meses a 59 anos que moram ou trabalham nesses três municípios, independentemente do histórico vacinal.
A estratégia começa nesta segunda-feira - 3 de agosto - e segue até 1º de setembro. Não será necessário comprovar as doses anteriores. Mesmo quem já recebeu as duas doses da tríplice viral — que protege contra sarampo, caxumba e rubéola — poderá receber novamente o imunizante.
A medida chama atenção porque o Brasil recuperou, em 2024, o certificado de país livre do sarampo, depois de ter perdido o reconhecimento em 2019, quando registrou cerca de 18 mil casos. Agora, o desafio é impedir que as novas infecções deem origem a uma circulação mais ampla do vírus.
Por que São Paulo preocupa?
São Paulo reúne características que tornam a entrada e a disseminação do vírus especialmente preocupantes.
Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), destaca que cerca de 20% da população brasileira vive no estado e 10% está concentrada na Grande São Paulo. A região metropolitana tem alta densidade populacional, grande circulação diária de pessoas e intenso fluxo internacional.
A região também concentra importantes pontos de entrada e circulação de viajantes, como o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Kfouri reforça ainda a grande circulação de pessoas no porto de Santos e no aeroporto de Campinas, além dos constantes deslocamentos entre municípios e bairros.
Esse conjunto de fatores torna mais difícil bloquear rapidamente a transmissão quando o vírus começa a circular.
“Em São Paulo há, sem dúvida, uma zona de muito perigo para a reintrodução do vírus e de mais difícil controle de bloqueio dessas ações”, afirma Kfouri.
Dos 15 casos registrados no estado, 12 ocorreram na capital. Dois foram importados: um paciente esteve na Bolívia e outro retornou da Guatemala. Os demais foram transmitidos dentro da cidade. Os dois pacientes de São Bernardo do Campo foram infectados após contato com casos da capital.
Segundo o Ministério da Saúde, São Paulo é atualmente o único estado brasileiro com casos confirmados de sarampo, em uma situação caracterizada como surto ativo por haver casos interligados formando uma cadeia de transmissão.
O sarampo pode avançar para outros estados?
Pode. E o risco não depende apenas do tamanho das cidades ou da quantidade de viajantes que passam por determinada região.
Kfouri explica que o principal fator para que uma cadeia de transmissão consiga se estabelecer é a existência de baixas coberturas vacinais. Se uma pessoa infectada chega a um local onde encontra um número suficiente de pessoas suscetíveis, podem surgir casos secundários.
Todos os locais são passíveis de surto, segundo o especialista.
Isso significa que grandes metrópoles apresentam riscos relacionados à densidade populacional, às portas de entrada internacionais e à intensa circulação de pessoas, mas cidades menores também podem enfrentar transmissão se tiverem grupos não vacinados.
Kfouri explica que o risco diminui quando a cobertura vacinal é alta e homogênea — ou seja, quando a proteção não está concentrada apenas em determinadas regiões ou grupos.
Por isso, o controle do sarampo depende de dois pilares em todo o país:
• manter coberturas vacinais altas e homogêneas em todas as faixas etárias
• e ter uma vigilância capaz de identificar rapidamente casos suspeitos.
Ao detectar uma possível infecção, é necessário isolar o paciente, confirmar o diagnóstico, realizar vacinação de bloqueio e rastrear os contatos, explica o especialista.
Por que vacinar novamente quem já tomou duas doses?
A vacinação ampliada nas três cidades paulistas é uma estratégia para atingir rapidamente o maior número possível de pessoas diante da transmissão em curso.
Segundo Kfouri, a chamada vacinação indiscriminada ajuda a alcançar pessoas que não foram imunizadas, mesmo que não saibam ou não consigam comprovar seu histórico vacinal. Ao mesmo tempo, quem já está com as doses em dia recebe um reforço.
O especialista explica que a vacina não apresenta eficácia de 100% e que uma dose adicional também pode aumentar a proteção de pessoas que eventualmente não responderam adequadamente às doses anteriores.
Não significa que a vacina perdeu eficácia, mas sim uma medida para reduzir o número de suscetíveis durante um cenário de risco.
“Uma dose adicional reduz esse risco de falha vacinal, mas tomar uma dose a mais não traz nenhum malefício”, afirma.
A vice coordenadora do Departamento Científico de Imunização da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (ASBAI) Ana Karolina Marinho acrescenta que a vacinação ampliada faz parte das estratégias de bloqueio e é uma medida reconhecida internacionalmente para controle da doença.
“Ao aumentar rapidamente o número de pessoas protegidas ao redor dos casos e em áreas de maior risco, diminui-se a quantidade de indivíduos suscetíveis e reduz-se a possibilidade de o vírus continuar circulando”, afirma.
A decisão de concentrar inicialmente a medida em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo está ligada justamente aos casos identificados e à cadeia de transmissão registrada nessa região.
Por que crianças a partir dos 6 meses também vão receber a vacina?
Normalmente, a vacina funciona melhor a partir de 1 ano de idade. Em uma situação de maior risco, porém, crianças entre 6 e 11 meses podem receber uma dose adicional, conhecida como “dose zero”.
Segundo Kfouri, nessa idade a proteção é parcial, mas pode reduzir a possibilidade de a criança adoecer, especialmente de desenvolver formas graves.
Esse grupo merece atenção porque os menores de 1 ano ainda não receberam as doses previstas a partir dos 12 meses e podem ser atingidos pela doença com maior frequência.
“Dar uma dose entre 6 e 11 meses não vai conseguir uma proteção ideal. Mas dá uma proteção parcial que faz com que a gente reduza a chance de essa criança pequena adoecer, especialmente de forma grave”, explica.
Cobertura abaixo da meta aumenta preocupação
Outro ponto de atenção é a cobertura da tríplice viral. Em 2026, a primeira dose alcançou 77,5% de cobertura no estado de São Paulo, enquanto a segunda chegou a 65,5%. A meta do Ministério da Saúde é de 95% para ambas. Em 2025, os índices eram de 94% e 84,4%, respectivamente.
Kfouri explica que a meta de 95% busca reduzir drasticamente a quantidade de pessoas suscetíveis e, consequentemente, a possibilidade de o vírus conseguir manter uma cadeia de transmissão.
Quanto maior o número de pessoas protegidas, menor a chance de um caso importado encontrar indivíduos suscetíveis suficientes para continuar disseminando a doença.
É justamente por isso que o cenário paulista funciona como um alerta para o restante do Brasil: impedir a expansão do sarampo não depende apenas de controlar os casos já identificados em São Paulo, mas também de evitar que o vírus encontre bolsões de pessoas não imunizadas em outras partes do país.
“Depois que você perde o controle, a epidemia se instala e é muito difícil de segurar”, alerta Kfouri.
O sarampo pode matar?
Sim. O sarampo é uma doença aguda causada por um vírus altamente transmissível e pode provocar complicações graves.
Os casos mais graves são mais comuns em crianças menores de 5 anos, principalmente as desnutridas, em adultos com mais de 20 anos, em pessoas com doenças que provocam baixa imunidade e em outros grupos em situação de vulnerabilidade.
Entre as possíveis complicações estão: otite média, broncopneumonia, diarreia e encefalite. As mortes podem ocorrer em decorrência dessas complicações, especialmente da pneumonia, uma infecção nos pulmões, e da encefalite, infecção no sistema nervoso central que provoca inflamação do cérebro.
Quais são os sintomas do sarampo?
O sarampo costuma provocar febre de 38,5°C ou mais e manchas avermelhadas pelo corpo. Essas manchas começam na cabeça e avançam em direção aos pés.
O quadro também pode estar associado a um ou mais dos seguintes sintomas:
• tosse seca, principalmente no início;
• coriza;
• conjuntivite não purulenta.
A vacina contra o sarampo pode causar reações?
As vacinas contra o sarampo são altamente eficazes e, de maneira geral, provocam poucas reações e são bem toleradas.
As reações mais comuns são dor no local da aplicação, febre baixa ou um discreto exantema, segundo Marinho. A vacina só é contraindicada para pessoas com histórico de anafilaxia em dose prévia ou gravemente imunocomprometidas.
Os chamados Eventos Supostamente Atribuíveis à Vacinação ou Imunização (ESAVI) podem ocorrer por reações a algum componente da vacina ou por manifestações clínicas semelhantes às provocadas pelo vírus selvagem, decorrentes da replicação do vírus vacinal.
Essas manifestações geralmente são menos intensas e são popularmente chamadas de “sarampinho”. É importante destacar que esse quadro é leve.
https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/08/02/aumento-sarampo-sao-paulo-alerta-outros-estados-entenda-risco-disseminacao.ghtml



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