Nobel de Física 2026: entenda como um quilômetro cúbico de gelo na Antártida passou a captar partículas vindas do universo distante
Nobel de Física de 2025 vai para pesquisadores pela descoberta de túnel quântico macroscópico e da quantização de energia em circuitos elétricos
Francis Halzen foi premiado por idealizar e liderar o IceCube, observatório no Polo Sul que detectou neutrinos de altíssima energia e abriu caminho para um novo tipo de astronomia.
Por g1 - 06/10/2026
Eles estão por toda parte, atravessam a Terra e o corpo humano a todo instante e não deixam sinal. Os neutrinos estão entre as partículas mais abundantes do universo e também entre as mais difíceis de flagrar. Foi para capturar os mais raros e energéticos deles que o físico belga Francis Halzen, da Universidade de Wisconsin-Madison (EUA), propôs transformar o gelo do Polo Sul em detector.
A ideia, apresentada pela primeira vez em 1988, deu origem ao Observatório de Neutrinos IceCube e rendeu a Halzen o Nobel de Física de 2026, anunciado nesta terça-feira (6) pela Academia Real das Ciências da Suécia.
Nobel 2026:
Segundo a Academia, o prêmio reconhece as contribuições decisivas do pesquisador ao observatório e a descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica, ou seja, produzidos muito além do Sistema Solar. O valor é de 12 milhões de coroas suecas, cerca de R$ 6 milhões de reais.
Observatório de Neutrinos IceCube — Foto: Divulgação/ Laboratório IceCube
Observatório de Neutrinos IceCube — Foto: Ilya Bodo/IceCube/NSF
Neutrinos no de alta energia da Via Láctea — Foto: Divulgação
Aceleradores naturais que a ciência ainda não decifrou
O cosmos abriga aceleradores de partículas naturais capazes de lançar partículas com energias até um milhão de vezes maiores do que as alcançadas nos laboratórios da Terra. Os cientistas sabem disso há décadas, mas ainda não respondem a perguntas básicas sobre essas fontes: o que são, onde estão e quais processos ocorrem dentro delas.
A dificuldade está nos mensageiros. As partículas carregadas emitidas por esses ambientes mudam de direção ao longo do caminho e chegam à Terra sem indicar de onde vieram. Os neutrinos, produzidos nos mesmos locais, se comportam de outra forma: viajam sem desviar e sem perder energia. Por isso, carregam informações que não podem ser obtidas de nenhuma outra maneira e apontam, como uma bússola, para a origem.
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Como um bloco de gelo vira telescópio
Só em raríssimas ocasiões um neutrino se choca com o núcleo de um átomo. Quando isso acontece no gelo, a colisão produz um clarão de luz, e é esse brilho que o IceCube registra. Sensores instalados nas profundezas do gelo glacial, transparente e livre de interferências, captam o flash e permitem reconstruir a energia da partícula e a direção de onde ela veio.
O Polo Sul ofereceu outra vantagem: é uma região geologicamente estável, sem terremotos. A proposta de Halzen logo atraiu outros pesquisadores e, poucos anos depois, os primeiros sensores foram testados no gelo.
Neutrinos cósmicos de energia extrema são tão raros que só um volume enorme de matéria garante colisões suficientes para estudo. O IceCube ocupa um quilômetro cúbico inteiro de gelo, o equivalente a centenas de estádios de futebol empilhados, e foi concluído em 2011.
Os primeiros neutrinos de alta energia apareceram pouco depois. Alguns anos mais tarde, a equipe publicou a confirmação de que parte deles só poderia ter se originado muito além do Sistema Solar. A partir daí, a busca pelas fontes desses neutrinos no universo pôde começar de fato. Em 2017, um único neutrino rastreado pelo detector foi associado a uma galáxia distante com um buraco negro supermassivo em atividade, observada ao mesmo tempo por telescópios ao redor do mundo.
Uma nova forma de olhar o céu
Para o presidente do Comitê Nobel de Física, Mark Pearce, Halzen comandou uma equipe internacional de pesquisadores e engenheiros que entregou à ciência um instrumento fantástico. Segundo ele, a tenacidade e a visão científica do belga pavimentaram o caminho para um novo tipo de astronomia.
Durante séculos, estudar o universo significou observar a luz. O IceCube acrescentou os neutrinos a esse repertório. As interações registradas sem parar pelo observatório devem revelar como funcionam os ambientes violentos onde essas partículas nascem e podem até expor fenômenos cósmicos ainda desconhecidos.
Curiosidades sobre o Nobel de Física
• O ganhador mais jovem do Nobel de Física foi Lawrence Bragg, que recebeu o prêmio aos 25 anos, em 1915, junto com seu pai.
• Em 47 ocasiões, apenas um laureado foi premiado. Já em 32 anos, o prêmio foi dividido entre dois cientistas, e em 38 vezes, três dividiram o reconhecimento.
• Arthur Ashkin, por sua vez, detém o título de mais velho a ganhar o prêmio, aos 96 anos, em 2018.
• Já Marie Curie foi a primeira mulher a receber o Nobel de Física, em 1903, por suas descobertas sobre a radiação, sendo também a primeira a ganhar dois prêmios Nobel, o segundo em Química.
Desde 1901, o Nobel de Física já premiou mais de 200 cientistas. Entre os agraciados estão nomes como Albert Einstein (1921), Marie Curie (1903) e Peter Higgs (2013).
O que é o Prêmio Nobel?
A láurea foi criada pelo químico e empresário Alfred Nobel. Inventor da dinamite em 1867, o sueco doou a maior parte de sua fortuna em testamento para a criação de prêmios de física, química, medicina, literatura e paz (o prêmio de economia foi criado anos mais tarde).
O documento dizia que os prêmios deveriam ser concedidos "àqueles que, durante o ano anterior, tenham conferido o maior benefício à humanidade".
Contudo, hoje em dia, conforme explica Juleen Zierath, membro do Instituto Karolinska, o júri do Nobel de Medicina, essa regra não é mais tão levada à risca.
"Você pode ter feito essa descoberta em um estágio muito inicial de sua carreira de pesquisa, ou pode ter feito essa descoberta em um estágio muito avançado de sua carreira de pesquisador", ressalta a pesquisadora.
Como o prêmio é escolhido?
Todos os anos, o Comitê do Nobel envia um pedido de nomeação para membros da comunidade científica.
Isso significa que alguns candidatos elegíveis recebem um convite especial para enviar seus nomes. Sem esse convite, nenhum postulante pode concorrer ao prêmio.
"Você não pode se nomear, mas membros de comunidades científicas, reitores de faculdades de medicina, ex-laureados com o Prêmio Nobel e outros que trabalham no ramo científico mais amplo e que receberam esse pedido podem fazer uma indicação", diz Zierath.
Quantas pessoas podem compartilhar o mesmo prêmio?
Até três pessoas podem compartilhar um Prêmio Nobel, ou uma organização pode ganhar a láurea da Paz.
A Fundação Nobel, responsável por realizar os desejos do seu fundador, ressalta que essa regra está descrita no testamento de Alfred Nobel.
“Em nenhum caso o valor do prêmio pode ser dividido entre mais de três pessoas", destaca um trecho do documento. Alguns pesquisadores, porém, criticam essa escolha e afirmam que as descobertas científicas de hoje em dia são muito mais coletivas: um trabalho de vários pesquisadores.
A láurea pode ser concedida postumamente? Tem limite de idade?
Não, um Prêmio Nobel não pode ser concedido postumamente.
Apesar, disso, a Fundação ressalta que, desde 1974, se o destinatário do prêmio falecer após o anúncio, a láurea ainda poderá ser concedida.
Sobre o limite de idade, o prêmio também não tem uma regra a respeito.
"O que eu diria é que, na maioria das vezes, levamos muitos anos até que o campo científico reconheça que a descoberta que você fez é uma distinção que deveria ser considerada para um Prêmio Nobel. Então, às vezes você tem que ser bastante paciente", ressalta Zierath.
https://g1.globo.com/ciencia/noticia/2026/10/06/nobel-de-fisica-2026-entenda-descoberta-que-rendeu-o-premio-a-pesquisadores.ghtml




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