Desemprego fica em 5,3% em julho é o menor da série para o mês
Na passagem de um trimestre móvel para o outro, foram criadas 1 milhão de vagas, com um avanço de 1% na população ocupada.
Candidato preenche ficha para vaga de emprego no Rio — Foto: Daniel Marenco/Agencia O Globo
Por Vinicius Neder — Rio de Janeiro - 27/08/2026
Taxa de desemprego fica em 5,3% em julho, menor da série para o mês, mas renda fica estável, diz IBGE
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) referentes ao trimestre móvel de maio a julho foram divulgados nesta quinta-feira
A taxa de desemprego se manteve nas mínimas históricas, com 5,3% no trimestre móvel encerrado em julho, informou nesta quinta-feira o IBGE, ao divulgar a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua). É a menor taxa para o mês desde 2012, mas o rendimento ficou estável.
Houve queda na taxa. No trimestre móvel imediatamente anterior, terminado em abril, o indicador foi de 5,8%. Um ano antes, nos três meses encerrados em julho de 2025, havia ficado em 5,6%.
É a menor taxa para os trimestres móveis terminados em julho da série histórica do IBGE, iniciada em 2012. A taxa ficou em linha com o esperado pelo mercado. Segundo pesquisa do jornal Valor, a projeção de analistas era exatamente de 5,3%.
Geração de vagas, com recorde de ocupados
A ligeira queda no desemprego foi puxada pela geração de postos de trabalho, formais e informais.
Em um ano, foram criadas 899 mil vagas de trabalho no trimestre móvel até julho, quando se considera a variação da população ocupada.
No total, 103,3 milhões estavam empregados, em trabalhos formais e informais, em todo o país, renovando o recorde da série histórica do IBGE.
Na passagem de um trimestre móvel para o outro, foram criadas 1 milhão de vagas, com um avanço de 1% na população ocupada.
Com isso, o total de desempregados — pelo critério global das pesquisas sobre mercado de trabalho, seguido pelo IBGE, são as pessoas que estão procurando emprego, mas não acham — ficou em 5,8 milhões, queda de 8% (503 mil pessoas a menos) ante o trimestre móvel imediatamente anterior. No período de um ano, foi uma queda de 4,9%, ou 299 mil desempregados a menos.
Rendimento tem ligeira queda, sinal de desaceleração
Ao longo do primeiro semestre do ano, a taxa de desemprego veio registrando níveis abaixo dos vistos na primeira metade de 2025, mas com leituras muito próximas na comparação mês a mês.
Especialistas têm visto aí um sinal de estabilização, após sucessivas melhoras desde a retomada da economia após a pandemia de Covid-19. Como a estabilização ocorre com a taxa de desemprego nas mínimas, ainda é um sinal de aquecimento do mercado de trabalho.
A desaceleração aparece nos dados de renda. Na passagem do trimestre móvel terminado em abril para o encerrado em julho, houve ligeira queda, de 0,7%, no rendimento real habitual de todos os trabalhos, para R$ 3.762.
Para o IBGE, a pequena variação significa estabilidade. Na comparação com um ano antes, o rendimento médio do trabalho ainda cresceu 3,3%.
Avanço em empregos que pagam menos pode fazer diferença, diz IBGE
Segundo William Kratochwill, analista da Pnad Contínua, a estabilidade no rendimento médio pode ter a ver também com um “efeito composição”.
Isso porque, na expansão do emprego, a construção civil foi destaque, com 371 mil ocupados a mais na comparação com o trimestre imediatamente anterior. E esses trabalhadores, como pedreiros e auxiliares de obras, ganham menos.
— (A estabilidade no rendimento) Pode ser (por causa da) absorção dessa mão-de-obra, que tem nível salarial mais baixo — disse Kratochwill.
Esfriamento é gradual, dizem economistas
Para economistas, os dados divulgados nesta quinta-feira reforçam um cenário de mercado de trabalho ainda aquecido, mas esfriando de forma bastante gradual, movimento que tende a continuar nos próximos meses.
A avaliação se baseia na evolução do emprego, mais do que na taxa de desemprego. E aí o destaque foi o avanço da população ocupada, tanto em trabalhos formais quanto informais.
Citando cálculos próprios que tiram os efeitos sazonais e estimam os indicadores para julho, e não para o trimestre móvel, Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence, chamou a atenção para o fato de que houve um avanço até mais acelerado dos empregos informais.
— A surpresa foi, justamente, quando dessazonalizamos os dados, vermos mais ocupações de junho para julho, e com mais informais do que formais — disse Imaizumi.
O avanço nas ocupações informais ajuda a moderar a renda. Isso também por causa do “efeito composição” citado por Kratochwill, do IBGE: como o os trabalhos informais, tipicamente, pagam menos, quando o peso da informalidade no total de empregos sobe, há mais salários baixos para compor a renda, puxando o rendimento médio para baixo.
— Se fosse só pelo efeito de composição, deveríamos ter visto o rendimento um pouco mais para baixo. O que não ocorreu — afirmou Imaizumi.
Ou seja, a queda no rendimento médio, na comparação com o trimestre móvel imediatamente anterior, deveria ter sido maior. Se não caiu tanto, explicou o economista da 4intelligence, é porque mesmo os salários dos informais estão maiores, sinal de aquecimento no mercado de trabalho e indicativo de que o arrefecimento nos próximos meses tende a ser gradual.
Na visão da economista-chefe da empresa de pagamentos PicPay, Ariane Benedito, o gradualismo na desaceleração vem de sinais “mistos”, positivos e negativos, revelados pela Pnad desta quinta-feira.
Entre os sinais negativos, a economista chamou a atenção para o pequeno avanço no emprego formal, para o fato de ele ter sido puxado por trabalhos informais e para a concentração da criação de vagas na construção civil, já destacada por Kratochwill, do IBGE.
— Não dá para dizer que o mercado de trabalho está em desaceleração. Ele está em acomodação. A partir de agora, tende a ficar muito mais na tendência da atividade econômica — disse Ariane, lembrando que a economia também está esfriando gradualmente e não de forma abrupta.
Segundo Imaizumi, a dinâmica da renda é um vetor de aquecimento em meio ao arrefecimento, mais do que o ritmo de criação de empregos. Em parte porque a regra de reajuste do salário mínimo garantirá aumento real em 2027 — e o piso serve de referência para todo o mercado, inclusive informal.
Pressão sobre a inflação
Por isso, com a demanda ainda forte, o quadro é de pressão sobre a inflação, dificultando o trabalho do Banco Central (BC), que vem reduzindo os juros de olho nos preços.
Para Ariane, do PicPay, o cenário de acomodação sugerido pelos dados da Pnad não adiciona mais lenha na fogueira da inflação. Mas também não alivia, especialmente naqueles preços mais sensíveis à demanda sustentada pela renda, como os serviços.
— Para ter uma descompressão maior desses preços, precisaríamos ter uma perda de mercado de trabalho muito maior. Na verdade, não perdemos nada de mercado de trabalho. A leitura é de resiliência, ainda que com sinais mistos — disse Ariane.
Para Alberto Ramos, chefe de pesquisa econômica da América Latina do banco americano Goldman Sachs, o mercado de trabalho brasileiro segue forte, ainda que tenha começado a ficar, gradualmente, menos “apertado”. Mesmo assim, um mercado de trabalho ainda “resiliente” segue adicionando “significativas pressões de custos” na inflação, particularmente de serviços.
https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/08/27/taxa-de-desemprego-fica-em-53percent-em-julho-diz-ibge.ghtml



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