Vítima de Epstein, brasileira relata apagão de memória após anos de abusos: 'Para que eu pudesse continuar vivendo'

Quando as primeiras denúncias sobre o caso vieram à tona, em 2008, Marina foi procurada pelo FBI

À Marie Claire, Marina Lacerda descreve o processo de recuperação das memórias dos abusos e os efeitos do trauma em sua vida

Por Hysa Conrado, Marie Claire — São Paulo 20/06/2026 

Marina tinha 14 anos quando os abusos de Epstein começaram — Foto: Instagram/ Reprodução

A brasileira Marina Lacerda tinha 14 anos quando foi cooptada pela rede de exploração e tráfico sexual de menores comandada pelo financista norte-americano Jeffrey Epstein. Durante três anos, ela sofreu abusos recorrentes e foi violentada pelo bilionário na frente de outras jovens. Apesar da gravidade das agressões, Marina bloqueou as memórias do período por quase duas décadas.

“Meu cérebro rejeitou tudo aquilo para que eu pudesse continuar vivendo”, afirma ela, hoje com 38 anos, em entrevista à Marie Claire.

As lembranças começaram a voltar no ano passado, depois de ela ter ouvido o relato de outra vítima, uma das suas amigas que também foi aliciada na época.

“Quando dei meu depoimento, contei várias coisas: que ele usava brinquedos sexuais, que fazia sexo oral, que gostava de determinadas práticas. Mas não mencionei que ele tinha me estuprado. Até que minha amiga disse: ‘O Jeffrey estuprou a gente várias vezes. Não só isso. Ele colocava você em cima dele, deixava outras meninas no quarto assistindo e estuprava você na nossa frente’. Eu fiquei em choque”, lembra.

Quando as primeiras denúncias sobre o caso vieram à tona, em 2008, Marina foi procurada pelo FBI e chegou a ser identificada como “Vítima Menor 1” durante as investigações. Segundo seu relato, naquele período ela foi manipulada e silenciada por advogados ligados ao próprio financista, que a convenceram de que poderia ser acusada de tráfico sexual caso colaborasse com as autoridades.

Com medo das consequências, Marina passou anos evitando qualquer envolvimento ou associação com o caso, inclusive assistir ao noticiário. Após a morte de Epstein na prisão, em 2019, ela voltou a ser procurada pelo FBI e, em setembro de 2025, decidiu deixar o anonimato para tornar sua história pública. A conversa com a amiga foi um divisor de águas na forma como ela passou a lidar com os traumas da época.

“Ela contou que ele dizia às outras meninas: ‘Estão vendo como a Marina faz? Estão vendo como é uma menina obediente? É assim que vocês vão avançar comigo. Se quiserem continuar aqui, tem que ser do meu jeito. É assim que eu gosto.’ Eu tinha bloqueado completamente isso da minha memória. Depois daquela conversa, comecei a lembrar de várias coisas”, afirma.

A história de violência vivida por Marina, porém, começou muito antes de Epstein entrar em sua vida. Natural de Belo Horizonte (MG), ela se mudou para os Estados Unidos ainda criança com a mãe e, até os 12 anos, foi violentada sexualmente pelo padrasto. Na época, ela tentou denunciar os abusos à polícia, mas foi desacreditada. O sentimento de desamparo reapareceu quando os advogados ligados a Epstein tentaram responsabilizá-la pelo que ela havia vivido na mansão do bilionário.

“Naquela época, minha memória ainda estava muito fresca. Eu me lembrava de muita coisa. Comecei a relatar a minha história, o que sabia, o que tinha visto na casa de Jeffrey, as meninas que frequentavam o local e as coisas que ele fazia com a gente. Foi então que eles disseram: ‘Você pode ser presa.’ Senti muito medo, foi um período muito difícil”, conta.

Anos depois, mesmo sem acessar essas memórias, Marina se recorda de ter vivido um período de forte declínio psicológico em 2019. Ela passou a abusar de medicamentos e álcool, enquanto sua saúde se deteriorava rapidamente. “Foi uma época muito complicada, quase morri. Por isso me afastei por um tempo”, conta.

“As meninas de Nova York que ainda falam sobre o assunto trocam informações entre si, principalmente porque eu esqueci muita coisa. Veja só: eu realmente acreditava que aquele homem nunca tinha me estuprado. O trauma simplesmente apaga partes da memória”, afirma.

Reabilitada, hoje Marina diz levar uma vida feliz. Ela se dedica ao combate à violência de gênero e afirma que, apesar do medo e das ameaças que recebe, não se arrepende de ter deixado o anonimato para levar suas denúncias adiante.

O impacto do trauma sobre a memória

A psicóloga e sexóloga Lais Melq explica que a perda de memória associada ao trauma é um fenômeno amplamente reconhecido pela psicologia. Segundo ela, a dificuldade de recordar acontecimentos, bem como a presença de lembranças fragmentadas e não lineares, está entre as manifestações mais comuns de experiências traumáticas.

“Também é um dos sinais mais mal compreendidos não só pelo sistema de justiça, mas também por familiares e pessoas próximas, que tendem a interpretar esses lapsos de memória como sinal de pouca credibilidade, quando, na verdade, esse é exatamente o padrão esperado em alguém que passou por um trauma”, afirma.

De acordo com a especialista, a dificuldade de lembrar partes importantes de uma experiência traumática é um fenômeno reconhecido pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) e integra os critérios diagnósticos do transtorno de estresse pós-traumático.

Durante situações de violência ou ameaça, os hormônios do estresse alteram o funcionamento do cérebro: áreas ligadas às sensações e emoções ficam mais ativas, enquanto aquelas responsáveis por organizar memórias perdem eficiência. Por isso, eventos traumáticos costumam ser lembrados de forma fragmentada e não linear.

“O resultado é que permanecem vários fragmentos de memória muito intensos, mas sem uma ordem clara dos acontecimentos. Isso ajuda a explicar por que muitas pessoas têm dificuldade para relatar o que aconteceu, mas se lembram de um cheiro específico, de uma sensação corporal ou até de um sentimento de constrangimento”, explica Melq.

Segundo a psicóloga, a seletividade da memória funciona como um mecanismo de sobrevivência em situações de ameaça. Em casos extremos, quando a pessoa não consegue lutar nem fugir, o organismo pode entrar em um estado de desligamento para se proteger. “É como um disjuntor que cai para impedir que todo o sistema elétrico entre em colapso”, exemplifica.

Além disso, Melq acrescenta que pessoas que se sentiram desprotegidas na infância ou em outros momentos da vida tendem a recorrer a estratégias evitativas diante de experiências traumáticas, entre elas o bloqueio de memórias.

“Por exemplo, se alguém desenvolveu um esquema de desconfiança por ter vivido situações de abuso, uma nova violência pode reforçar essa crença de forma muito dolorosa. Como forma de enfrentamento, a pessoa pode afastar essa informação da consciência para não precisar conviver permanentemente com a ideia de que deve desconfiar de todos”, explica.

Luciana Temer, professora de direito da PUC-SP e presidente do Instituto Liberta, organização dedicada à prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes, explica que é comum que experiências traumáticas permaneçam inacessíveis à memória por longos períodos. “Até como uma espécie de defesa da vítima, para que ela possa proteger-se daqueles acontecimentos e seguir a vida.”

Segundo Temer, quando essas memórias começam a emergir, especialmente em casos que envolvem pessoas próximas ou figuras públicas, como Epstein, é comum que as vítimas sejam desacreditadas.

“Se não sabemos que esse processo de defesa realmente existe, é muito comum que essas pessoas sejam questionadas sobre essas lembranças”, afirma. “Por isso é necessário evitar que as violências aconteçam. Porque, depois que a violência acontece, é isso: você vai ser questionada, vai ter que proteger-se dos impactos das violências que viveu, sobretudo quando elas são praticadas por pessoas próximas.”

Nesse sentido, a psicóloga Lais Melq ressalta que forçar uma pessoa a recordar algo para o qual ela ainda não está preparada pode causar mais sofrimento do que compreensão. O acesso a essas memórias deve ocorrer de forma cuidadosa, respeitosa e, quando necessário, acompanhado por profissionais capacitados.

“A segurança emocional, o acolhimento e a ausência de julgamento criam condições mais favoráveis para que a pessoa compreenda sua própria experiência e elabore suas lembranças de forma gradual e espontânea", observa.

A especialista explica que as pessoas com quem a vítima convive exercem grande influência sobre suas emoções e seu processo de recuperação. Por isso, é importante que todos demonstrem paciência e empatia com quem sofreu o abuso.

“E seguir estimulando para que essa pessoa continue agindo de acordo com aquilo que faz sentido para a vida dela, mesmo que a memória nunca se torne totalmente linear. Isso acontece com muitas pessoas, que realmente passam a vida inteira sem conseguir se lembrar de determinados acontecimentos”, pontua.

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