Esquema da farinha: dono de padaria foi morto após se recusar a comprar produto imposto por milícia

Comerciantes afirmam que recebem quantidades maiores do que as solicitadas e são obrigados a ficar com a mercadoria.

Rafael Oliveira Braga se recusou a comprar farinha. — Foto: Fantástico

Rafael Oliveira Braga é apontado por investigadores como exemplo da violência usada para impor monopólios de venda em áreas dominadas por milícias no Rio de Janeiro.

Por Fantástico - 09/06/2026 

Milícia e tráfico transformam comerciantes e clientes em reféns no Rio de Janeiro

A recusa em comprar farinha de um fornecedor determinado por criminosos teria custado a vida de um comerciante na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Segundo a Polícia Civil, Rafael Oliveira Braga foi assassinado em março do ano passado após resistir às exigências de um esquema que obriga comerciantes a adquirir produtos de distribuidoras ligadas a grupos criminosos.

O caso é citado por investigadores como um dos exemplos mais graves da violência empregada para garantir o controle da venda de mercadorias em comunidades dominadas por milícias e facções. De acordo com a polícia, Rafael foi morto em frente à própria padaria depois de se negar a comprar farinha de trigo de empresas associadas ao esquema. Dois homens apontados como integrantes da milícia foram indiciados pelo crime.

Monopólio do crime

O Fantástico mostrou detalhes sobre o avanço de um modelo de exploração econômica que, segundo comerciantes e autoridades, transformou produtos básicos em fonte de arrecadação para grupos criminosos. Proprietários de padarias relatam que deixaram de ter liberdade para escolher fornecedores e passaram a ser obrigados a comprar farinha de distribuidoras determinadas pelos criminosos.

Segundo relatos obtidos durante a investigação, a imposição não se limita à escolha do fornecedor. Comerciantes afirmam que recebem quantidades maiores do que as solicitadas e são obrigados a ficar com a mercadoria. Quem tenta descumprir as regras pode sofrer ameaças e retaliações.

A exploração do mercado da farinha tem impacto direto em um dos alimentos mais consumidos pelos brasileiros: o pão francês. Donos de estabelecimentos afirmam que passaram a pagar mais caro por produtos de qualidade inferior, o que acaba sendo repassado ao consumidor final.

Para investigadores, o assassinato de Rafael expõe como a disputa pelo controle de mercados considerados legais se tornou uma importante fonte de receita para organizações criminosas. Além da farinha, as investigações apontam a atuação de grupos criminosos na comercialização de frango assado, água, gás, hortifrúti e outros produtos essenciais.

O caso também evidencia o clima de medo enfrentado por comerciantes dessas regiões. Muitos evitam denunciar o esquema por receio de represálias e afirmam que, na prática, perderam a liberdade de decidir de quem comprar e o que vender. 

Prisões

Na última quarta-feira (3), a Polícia Civil cumpriu 14 mandados de busca e apreensão em endereços relacionados às empresas investigadas.

Em um dos depósitos, os agentes encontraram produtos fora da validade e prenderam um homem em flagrante. Em outro local, foram identificadas condições precárias de armazenamento, com alimentos próximos a fezes de animais.

As investigações apontam que o controle da venda de produtos gera uma importante fonte de renda para organizações criminosas. Segundo a polícia, os recursos abastecem o chamado caixa de guerra das facções e milícias, usado para compra de armas e manutenção do domínio territorial.

Enquanto isso, comerciantes relatam sensação de impotência diante das ameaças.

"Eu te confesso, eu perdi a vontade de trabalhar. Em breve, se Deus quiser, eu passo minha loja. Você trabalha para eles, vira funcionário deles", afirmou uma das vítimas ouvidas pelo Fantástico.

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