ENTRE JULHO E AGOSTO
Produção acumula um avanço de 4,2% entre junho e agosto, mas freia em setembro. No ano, alta é de 2,9%
Apesar de enfrentar um ano difícil, com crescimento abaixo do projetado em 2012, a indústria cearense apresentou, entre junho e agosto, três altas mensais consecutivas, acumulando assim um crescimento de 4,2% no período. Em setembro, porém, a produção industrial sazonalmente ajustada do Ceará voltou a frear e acabou caindo 2,2%, sendo essa a terceira maior taxa de queda entre as demais regiões brasileiras. As informações foram divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
"Creio que o recuo de setembro é um ajuste normal do mercado, que vinha com bons resultados. As empresas estão com novas perspectivas para o fim do ano e isso pode ter segurado a produção. Não é uma queda que preocupe o setor, pois, no geral, estamos com dados positivos", diz Pedro Jorge Vianna, coordenador de economia e estatística do Instituto de Desenvolvimento Industrial do Ceará (Indi).
O pensamento positivo de Vianna tem explicação. É que, apesar da queda mensal, a produção industrial cearense ainda acumula um crescimento de 2,9% neste ano. "Dada a perspectiva de um fraco desenvolvimento do PIB (Produto Interno Bruno) nacional para 2013, o resultado do Estado até que é bom. Isso sem falar que em 2012 tivemos foi uma queda de 1,3% na indústria, o que está longe de acontecer neste ano. Acredito em uma recuperação já em outubro e que fechemos 2013 com o crescimento entre 2,5% e 3%", opina Pedro Jorge.
A indústria cearense também apresentou dados positivos na comparação com setembro do ano passado, já que cresceu 4,5%, a quarta taxa positiva consecutiva nesse tipo de confronto. Tal índice ficou inclusive acima da média nacional (2%), mas vale ressaltar que setembro deste ano teve dois dias úteis a mais do que o mesmo mês de 2013 (19 contra 21).
Calçados puxam produção
No acumulado do ano até setembro, cinco dos dez setores investigados pelo IBGE apontaram crescimento na produção do Ceará. O maior impacto positivo foi observado no ramo de calçados e artigos de couro (23,2%), seguido por produtos têxteis (9,8%) e refino de petróleo e produção de álcool (23,5%). Nestas atividades sobressaíram, respectivamente, a maior produção dos itens calçados de plástico e de couro (ambos de uso feminino); fios de algodão retorcidos e tecidos de malha de fibras artificiais ou sintéticas; e óleo diesel e óleos combustíveis e gás liquefeito de petróleo (GLP).
No quadro comparativo entre setembro deste ano e o mesmo mês de 2013, o setor de calçados e artigos de couro também contribui bastante para a produção industrial cearense, com crescimento de 10,4%, logo atrás dos produtos têxteis (12,2%). Nesse caso, os setores foram impulsionados pelo aumento na produção de calçados de couro de uso feminino e de fios de algodão retorcidos, respectivamente.
No Brasil
Nacionalmente, a produção industrial cresceu em 6 dos 14 locais pesquisados pelo IBGE na passagem de agosto para setembro. O destaque foi a alta de 6,8% na Bahia, ante queda de 8,6% em julho. Rio de Janeiro (4,4%), Goiás (4,1%), Minas Gerais (2,1%) e Espírito Santo (1,8%) também registraram avanço acima da média nacional (0,7%). O Rio Grande do Sul foi o único Estado que cresceu abaixo da média, com taxa de 0,4%.
O recuo mais intenso veio de Pernambuco, com queda de 8,2%, a terceira consecutiva. O estado acumula queda de 12,1% no terceiro trimestre. Além dele, de São Paulo e do Ceará, tiveram queda na produção Paraná (-2,4%), Amazonas (-1,9%), Nordeste (-1,9%), Santa Catarina (-0,9%) e Pará (-0,2%).
Apesar da alta no País, a indústria ainda não mostra um avanço consistente, avaliou o técnico da coordenação de Indústria do IBGE, Fernando Abritta. Segundo ele, grande parte das regiões pesquisadas apresenta o mesmo comportamento errático observado no indicador geral.
Competitividade foi afetada pelo câmbio, avalia BNDES
São Paulo O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho disse ontem que a indústria brasileira perdeu competitividade após longos ciclos de apreciação cambial. Ele lembrou que a participação do setor no PIB caiu de 25% a 26%, no final do século passado, para 13% a 14% atualmente.
"Após dois períodos longos de apreciação cambial, o primeiro de 1994 a 2000, provocado pela política de paridade e com juro lá em cima, e depois de 2005 a 2011, com a melhora extraordinária dos preços de commodities, com uma política também de valorização do real e com economia crescendo, a percepção não foi clara dos impactos na indústria", explicou. Coutinho participou de conferência promovida pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
Coutinho afirmou que é preciso lutar para recuperar a capacidade competitiva da indústria e disse ser necessária uma política industrial de longo prazo, independentemente de problemas conjunturais, como a variação cambial. O presidente do BNDES pediu que o trabalhador defenda uma melhora competitiva da indústria com preservação de emprego e admitiu: "Sem fazer qualquer juízo de valor, é da natureza do capitalista sacrificar empregos em busca do lucro".
Para ele, "felizmente a tendência da taxa de câmbio daqui para a frente será de depreciação do real", diante do cenário de redução na liquidez e aumento nos juros do mercado norte-americano. Coutinho lembrou que no passado recente se desgastou dentro do governo, quando a taxa de câmbio estava em R$ 1,60, mas que "medidas ousadas", como taxação com IOF de importados, foram tomadas, o que trouxe o dólar para em torno de R$ 2.
Dúvidas
O presidente do BNDES citou o novo ciclo de volatilidade cambial recente no País e admitiu que as dúvidas em relação ao desempenho fiscal do Brasil, aliadas ao crescimento dos EUA no trimestre passado, vêm puxando o dólar desde a semana passada. "Quando a economia norte-americana mostra sinal de vitalidade, o mercado precifica subida". Ele estimou que a pressão "nos próximos dois anos" será pela depreciação do real.
No acumulado do ano até setembro, cinco dos dez setores investigados pelo IBGE apontaram crescimento na produção do Ceará. O maior impacto positivo foi observado no ramo de calçados e artigos de couro (23,2%) Foto: Silvana Tarelho
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