Integrante de um dos grupos de WhatsApp da CRESCER, Jamille Karlinski, de Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul, planejava dar um irmãozinho à filha Mirella. Mas o corpo dela liberou dois óvulos, um deles se dividiu, e vieram Matheus, Miguel e Benjamin. Em relato, a mãe conta a história emocionante dessa gestação inesperada, os perrengues e as delícias de criar três bebês de uma vez
Por Tainá Goulart - 23/09/2026
Jamille Karlinski e o marido, Roberto, foram à primeira ultrassonografia cheios de expectativa para ver um bebê. Queriam apenas dar um irmãozinho à filha Mirella, hoje com 8 anos. Saíram de lá com uma notícia que mudaria tudo, e que, na verdade, ainda cresceria. O casal, de Frederico Westphalen, no interior do Rio Grande do Sul, se tornaria pai e mãe de trigêmeos, num caso raríssimo: dois deles gêmeos idênticos, de uma placenta, e o terceiro numa bolsa e placenta totalmente separadas.
A caminhada até ali não foi simples. Em janeiro do ano passado, Jamille engravidou, mas sofreu uma perda em março. Meses depois, veio a coragem de tentar de novo. "A gente pensou em ter outro, pensava que ia ser só um até então. Aí, quando eu engravidei, foi uma alegria, mas em março eu perdi. Então, passou o luto e, em junho, aquele medo de novo existia, mas decidimos tentar novamente, e foi quando eu descobri que estava grávida outra vez" conta.
Como não houve nenhum procedimento cirúrgico, o casal decidiu deixar nas mãos de Deus e no tempo dele. Foi uma gestação, nas palavras dela, natural e guiada. Os "arco-íris", como chama os filhos que vieram depois da perda, voltaram para iluminar a casa. E vieram em triplo.
"Espera aí, que eu acho que tem mais um"
A descoberta aconteceu em camadas, quase como um roteiro de cinema. Na primeira ultrassom, a médica identificou dois sacos gestacionais, já que, no ciclo de Jamille, haviam sido liberados dois óvulos, um de cada ovário. Já era emocionante. Mas, não parou por aí. E foi a própria futura mãe quem desconfiou de que havia algo além dos gêmeos.
"A médica falou: não, acho que você tem gêmeos, tem dois na família? Já tinha duas bolsinhas lá rodando. E aí eu disse: gêmeos não, mas, espera aí, que eu acho que tem mais um. Quando ela falou do terceiro, disse que a gente ia ter que confirmar, porque era recente ainda, dali uns 20 dias", conta Jamille.
Foram três semanas de pura ansiedade até a confirmação. "Fiquei naquela ansiedade aqueles 20 dias, será que tem ou não, que dois já era certo, né? Aí o terceiro foi confirmado. com uma outra ultrassom, e vimos que tinha o terceiro lá escondidinho, estava lá, dividindo os cantos."
A reação da família virou anedota de casa, contada por Jamille com muita risada. "Ficava pensando: meu Deus, dois já, mais um, e três, Jesus amado. O pai até brincou naquele dia da ultrassom: você tem que ver o carro, o apartamento, tem que adaptar tudo. Mas, tudo se ajeitou, porém, no dia da confirmação, eu só não desmaiei porque estava deitada, e o pai, só não caiu pois o óculos segurou os olhos."
Jamille é mãe dos trigêmeos Matheus, Miguel e Benjamin, que nasceram de duas placentas diferen-tes — Foto: Arquivo Pessoal
O exame que confirmou os filhos gêmeos em uma placenta e o terceiro, em outra. Ao lado, Jamille nos últimos dias de gestação — Foto: Arquivo Pessoal
A família completa de Jamille — Foto: Arquivo Pessoal
Jamille com os filhos — Foto: Arquivo Pessoal
Um caso raro dentro de outro caso raro
O que torna a história de Jamille ainda mais especial é a raridade genética por trás dela. Não se trata de trigêmeos comuns. Matheus e Miguel são gêmeos idênticos, que compartilharam uma mesma placenta, enquanto Benjamin se desenvolveu sozinho, em uma bolsa e placenta separadas. Ou seja, uma gestação tripla que combina gêmeos univitelinos com um terceiro bebê de origem distinta, tudo de forma natural, sem qualquer tratamento de fertilidade. O caso dela, segundo relatos médicos, é de 1 em 3 milhões em gestações.
A própria médica, conta Jamille, ressaltou o quanto aquilo fugia do comum. "Ela disse que já era diferente, já era raro. Por ser trigêmeos já é uma coisa natural rara, então, ainda mais raro por ser dois juntos e ainda outro em outra bolsa", explica.
E o mais curioso é que não havia histórico próximo de gêmeos na família. "Eu perguntava se tinha casos, e diziam que não. Depois, comecei a pesquisar mais, mas nada perto, nem irmão, nem prima. Só apareceu uma tia mais distante e conhecidos, mas até então a gente não sabia de nada de gêmeos, muito menos de trigêmeos."
Uma gestação de alto risco (e uma fome absurda)
Carregar três bebês exigiu cuidado redobrado, e Jamille não romantiza os desafios. "Foi bem preocupante, por ser uma gestação de alto risco. Então, tudo tinha que cuidar mais, a alimentação, tinha a questão da pré-eclâmpsia, que eu não tive, mas tive que tomar remédio para controlar a pressão. Teve todo um cuidado a mais do que numa gestação só", relembra.
E teve um sintoma que a marcou profundamente: a fome. "A fome era absurda, absurda mesmo. Na minha primeira gestação, um hambúrguer já me satisfazia. Nessa, um era muito pouco, tinha que comer dois para me satisfazer, e sempre comendo, beliscando aqui e ali."
Antes de os trigêmeos nascerem, Jamille precisou deixar a própria cidade em nome da segurança dos bebês. Como Frederico Westphalen não conta com UTI Neonatal Pediátrica e a gestação era de alto risco, ela se mudou temporariamente para Passo Fundo, a cerca de duas horas e meia de casa, ainda em novembro de 2025, com 24 semanas, para fazer o acompanhamento de perto.
Lá, o casal se hospedou no apartamento de um amigo do pai dela até o nascimento e a alta dos meninos. "Fiquei 22 dias internada até eles nascerem, no Hospital São Vicente de Paulo, e foi a primeira vez que fiquei tanto tempo longe da minha filha. Como internei perto do Natal, a Mirella ficou pouco no hospital, mas na virada de ano não estava, confesso que fiquei muito sentida", recorda Jamille.
Os bebês nasceram com 33 semanas e quatro dias, um tempo considerado bom para trigêmeos, porque o menorzinho já não estava ganhando peso suficiente. "Um dos pequeninhos não estava ganhando peso, já estava pronto para nascer. Independente de tamanho, ele queria nascer de qualquer jeito, e os outros dois, que estavam na placenta junto, estavam de boa ali, ganhando peso e dividindo comigo", conta a mãe. Benjamin, o caçula, nasceu com 1,480 kg, enquanto Matheus veio com 1,980 kg e Miguel com 1,890 kg. Eles ficaram 24 dias na UTI e, depois, mais uma semana em observação na pediatria.
O dedinho que selou uma amizade
Um dos momentos mais emocionantes do relato de Jamille aconteceu ainda na UTI, quando Mirella conheceu os irmãos. Um deles marcou a menina para sempre, e a mãe conta a cena com ternura. "O Benjamin segurou o dedo dela na UTI, e ela ficou muito emocionada. Hoje, são os dois puxa-sacos um do outro, muito grudados, ele com ela", relembra. Justamente o que nasceu menor foi quem agarrou o dedo da irmã mais velha, como se já garantisse ali uma parceria para a vida toda. "Parece que ele planejou tudo!", brinca.
A natureza, aliás, fez questão de dividir as semelhanças de forma curiosa entre os pais. "Os dois que estavam juntos na mesma placenta são parecidos comigo. E o outro, o Benjamin, é o pai escrito", diverte-se Jamille.
A rotina de quatro: uma montanha-russa
Com uma rede de apoio formada pelo marido, pela mãe e pelo sogro, Jamille toca a rotina de quatro filhos com bom humor e organização. Os trigêmeos, garante ela, são tranquilos. "Se não fosse a rede de apoio, tu enlouquece, mas eles não são muito chorões. Choram só nas vacinas, numa gripezinha ou coisa assim. Eles choram só para dormir, para mamar. Os três primeiros meses foram um pouquinho loucos, mais por causa das cólicas, mas era tudo durante o dia, de noite a gente dormia bem", conta.
A amamentação, no início, funcionava em rodízio, sempre começando pelo menorzinho, e sem nenhuma tabela rígida. "Chorava um, corria para fazer a mamadeira do outro e seguia amamentando o próximo, sempre em rodízio. A cabeça ficava maluca, mas tudo bem", brinca.
Hoje, com os bebês em oito meses (a idade corrigida, já que nasceram prematuros e seguem essa contagem para a introdução alimentar), a casa é pura ação. "Eu digo que é uma montanha-russa. Dois dormem, um acorda e vai brincar, quando eles estão quase para dormir de novo, o terceiro acorda. Mas, às vezes, dá para os três brincarem juntos também. Agora, começou a briga do brinquedo. Ai, Jesus, isso aqui é só o início."
O cuidado com o ciúme de Mirella
Entre trocar fraldas e revezar mamadeiras, Jamille não esquece da filha mais velha. Ela percebeu que, com quatro filhos, o desafio não era só o cuidado físico dos bebês, mas a atenção emocional de Mirella. "Tu tem que dar atenção para quem precisa de mais atenção, e nesse caso é a mais velha. Os pequenos são só cuidados, tem quem auxilie. Ela não teve tanto ciúme, mas, às vezes, diz: comprou para eles, não comprou para mim. Aí a gente tenta ter jogo de cintura, explicar que quando ela era bebê também precisou disso e daquilo, porque, senão, você surta", conta.
E Mirella retribui sendo a maior parceira da mãe, numa dedicação que emociona. "Ela ajuda bastante. No início, acordava para ajudar a segurar um para dar de mamar no outro, incansavelmente. Agora, chega da aula cansada, mas está sempre atenta, sempre com eles, pendurada para cá e para lá. Se um chora de um lado, ela grita: o que que foi, piá, que que tu tem? E pega e saracoteia para cá e para lá", descreve, entre risos. Os irmãos, por sua vez, são apaixonados pela mais velha, tanto que um deles a chama de "dada".
Jamille resume a vida de mãe de quatro, sendo três de uma vez, como uma aventura cansativa e deliciosa em igual medida. De um planejamento singelo de dar um irmãozinho à filha, ela ganhou três de uma vez, num daqueles enredos que a vida só escreve para quem, como ela mesma diz, entrega os planos a algo maior. Os planos, afinal, eram outros. E vieram em triplo.
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