Esta ilustração artística visualiza a estrela massiva gama-Cas e sua companheira anã branca, pequena, porém densa — Foto: ESA/Y. Nazé
Gamma Cas consiste em uma estrela do tipo Be rodeada por um disco de material; parte desse material flui em direção à estrela companheira; um segundo disco se forma ao redor da companheira, e o material eventualmente flui em direção aos polos, onde emite raios X (setas verdes). Alguns desses raios X são refletidos pela superfície da anã branca (setas roxas)
Descoberta esclarece origem de emissão de raios X incomum e revela nova classe de sistemas estelares binários; entenda
Por - Arthur Almeida - 24/03/2026
Uma pesquisa liderada por astrônomos da Universidade de Liège, na Bélgica, conseguiu identificar a origem das misteriosas emissões de raios X da estrela γ Cassiopeia (mais conhecida pelo apelido "γ Cas"), localizada na constelação de Cassiopeia. Com base em observações realizadas pelo telescópio espacial japonês XRISM, os cientistas demonstraram que a radiação extrema é produzida por uma anã branca magnética que orbita a estrela, e não pela própria γ Cas, como algumas hipóteses sugeriam, colocando fim em um mistério de 50 anos.
Detalhes do estudo foram publicados nesta terça-feira (24) em um artigo científico na revista Astronomy & Astrophysics. A descoberta, além de resolver um enigma que persistia há quase meio século, ainda comprova a existência de uma classe de sistemas binários que, até então, era prevista apenas de maneira teórica.
Visível a olho nu, γ Cas já era conhecida desde o século 19 como a primeira estrela do tipo Be identificada. Esses astros são muito massivos e giram rapidamente ejetando matéria, formando discos ao seu redor. No entanto, desde 1976, observações revelaram um comportamento incomum: γ Cas emitia raios X com intensidade cerca de 40 vezes superior à de estrelas similares, além de apresentar plasma com temperaturas superiores a 100 milhões de graus e variações extremamente rápidas.
“A ciência propôs vários cenários para explicar essa emissão”, afirma a astrônoma Yaël Nazé, professora da Universidade de Liège, na Bélgica, e coautora do estudo, em comunicado à imprensa. “Um deles envolvia a reconexão magnética local entre a superfície da estrela Be e seu disco. Outros sugeriam que os raios X estariam ligados a uma companheira, seja uma estrela desprovida de suas camadas externas, uma estrela de nêutrons ou uma anã branca em acreção (aumento da massa de um objeto espacial).”
Observações de alta precisão resolvem o enigma
Mesmo depois de décadas de estudos e da identificação de cerca de 20 objetos semelhantes, os chamados “análogos de γ Cas”, nenhuma hipótese havia sido comprovada de forma conclusiva. A resposta veio, por fim, com o instrumento Resolve, um microcalorímetro de alta precisão instalado no XRISM, capaz de analisar espectros de raios X com detalhamento sem precedentes.
A equipe realizou três campanhas de observação entre dezembro de 2024 e junho de 2025, cobrindo todo o período orbital do sistema binário, de aproximadamente 203 dias. Os dados trouxeram uma evidência decisiva: as assinaturas espectrais do plasma quente variavam em velocidade ao longo do tempo, acompanhando o movimento orbital da estrela companheira.
“Os espectros revelaram que as assinaturas do plasma de alta temperatura mudam de velocidade entre as três observações, seguindo o movimento orbital da anã branca em vez do da estrela Be”, explica a pesquisadora. Essa mudança foi medida com alta confiabilidade estatística. É, de fato, a primeira evidência direta de que o plasma ultraquente responsável pelos raios X está associado à estrela companheira compacta, e não à própria estrela Be.”
Para além disso, a análise da largura das linhas espectrais, que se encontram a velocidades de cerca de 200 km/s, permitiu descartar o cenário de uma anã branca não magnética. Em vez disso, os dados indicam a presença de um campo magnético significativo, que canaliza o material em acreção.
Confirmação de uma nova classe de sistemas
Com base nessas observações, os pesquisadores propõem um modelo claro: a estrela Be ejeta material que forma um disco ao seu redor; parte desse material é capturada pela anã branca, criando um segundo disco de acreção. O campo magnético do objeto compacto direciona esse fluxo para seus polos, onde a energia é liberada na forma de raios X.
A estrela gama-Cas (γ-Cas) forma a ponta central da constelação de Cassiopeia, com seu característico formato de "W". Próxima à estrela polar Polaris, ela é visível todas as noites para observadores do hemisfério norte. A estrela, que gira rapidamente, ejeta um disco de matéria em rotação, resultando em variações em seu brilho. Pequenos telescópios revelam essa cintilação, tornando-a um alvo popular para astrônomos amadores.
A descoberta resolve o caso de γ Cas e, ao mesmo tempo, confirma a existência de uma população de sistemas binários composta por estrelas do tipo Be e anãs brancas em acreção — uma classe prevista há décadas, mas nunca identificada de forma precisa.
No entanto, os resultados também desafiam modelos teóricos estabelecidos. Observações indicam que esses sistemas representam cerca de 10% das estrelas Be e estão associados principalmente às mais massivas, em contraste com previsões que apontavam para uma população mais numerosa e composta por estrelas de menor massa.
“Essa discrepância sugere uma revisão dos modelos de evolução binária, particularmente no que diz respeito à eficiência da transferência de massa entre os componentes, uma conclusão que está em consonância com a de diversos estudos independentes recentes”, destaca Nazé. “Resolver esse mistério, portanto, abre novos caminhos de pesquisa para os próximos anos.”
A pesquisadora também enfatiza a importância mais ampla da descoberta: “Compreender a evolução dos sistemas binários é crucial para a compreensão, por exemplo, das ondas gravitacionais, já que são justamente os sistemas binários massivos que as emitem no final de suas vidas”.
https://revistagalileu.globo.com/ciencia/espaco/noticia/2026/03/misterio-astronomico-de-50-anos-e-solucionado-por-missao-japonesa.ghtml