Policial civil sequestrado e baleado por militares estava vivo quando foi arremessado em rio
Militar da Marinha diz não saber se perito da Polícia Civil baleado ainda estava vivo ao ser jogado em rio
Por Paolla Serra — Rio de Janeiro
Perito papiloscopista Renato Couto, de 41 anos, foi capturado, em uma viatura da Marinha, após procurar o empresário Lourival Ferreira de Lima. — Foto: Arquivo
Perícia conclui que papiloscopista Renato Couto, cujo corpo foi encontrado no Rio Guandu, morreu por hemorragia decorrente dos tiros e por afogamento
Profissionais do Instituto Médico-Legal (IML) concluíram que o perito papiloscopista Renato Couto, de 41 anos, — sequestrado e baleado ao menos três vezes por militares da Marinha — estava vivo quando foi arremessado no Rio Guandu, na altura de Japeri, na Baixada Fluminense. De acordo com a perícia feita no cadáver, o policial civil foi morto por hemorragia decorrente dos disparos de arma de fogo e ainda por asfixia mecânica provocada pelo afogamento.
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O corpo foi localizado pelo Corpo de Bombeiros, por volta de 8h desta segunda-feira, dia 16, em uma das margens do Guandu, preso à vegetação. Segundo investigações da 18ª DP (Praça da Bandeira), ele foi sequestrado e baleado pelos militares da Marinha Bruno Santos de Lima, Manoel Vitor Silva Soares e Daris Fidelis Motta, e pelo empresário Lourival Ferreira de Lima, pai do primeiro e dono de um ferro-velho na região. O perito teria tido uma discussão no local após perceber que materiais de uma obra foram furtados por usuários de crack e vendidos para o estabelecimento.
— A gente quer justiça e que eles sejam punidos severamente. Nada justifica o que fizeram. Meu irmão já tinha ido lá várias vezes. Eles armaram para matá-lo. Ele foi morto com a nota fiscal no bolso. O meu irmão só procurou o que era dele, só foi rever o que estava lá. Meu irmão foi agredido. Eles eram um ferro-velho ilegal. A última vez que estive com o meu irmão foi no dia das mães e disse que estava cheio de dívidas por conta daquilo. Só quem é trabalhador sabe como está tudo caro. E meu irmão montou a loja para ter uma segunda renda e fazer a casa para a minha mãe — disse a fisioterapeuta Débora Couto de Mendonça, de 38 anos, que reconheceu o corpo do irmão.
Em depoimento na distrital, o primeiro-sargento Bruno Santos de Lima afirmou que o grupo “não combinou nada específico” sobre onde colocar o corpo. Ele relatou que eles deixarem a Avenida Radial Oeste, onde deu tiros e colocou o policial civil dentro de uma viatura da Marinha e partiram. Estavam “em via pública”, no sentido Baixada Fluminense, quando ele “avistou um grande rio”, o Guandu, em que sugeriu que a vítima fosse deixada, não sabendo precisar se ela apresentava sinais vitais quando foi arremessada por cima da mureta do viaduto.
De acordo com o termo de declaração do militar, ao qual O GLOBO teve acesso, Bruno contou que, na última quarta-feira, dia 11, foi informado por Lourival de que um homem havia lhe procurado em seu ferro-velho para lhe ameaçar e o acusar de receptar materiais furtados de sua obra. Segundo seu pai, ele disse ter respondido que só trabalhava com doações de órgãos públicos, mas o indivíduo teria exigido dinheiro e prometido retornar.
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Na sexta-feira, dia 13, Bruno contou ter recebido ligações de que o homem voltara ao ferro-velho do pai e lhe ameaçara caso não lhe transferisse R$ 10 mil. Ele acionou um de seus subordinados, o terceiro sargento Manoel Vitor Silva Soares, e o cabo Daris Fidelis Motta, para irem, com uma viatura do 1º Distrito Naval, em “defesa” de Lourival.
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Bruno disse que, na ocasião, portava sua pistola particular, uma Taurus calibre nove milímetros e vestia um colete balístico. Ao chegar ao estabelecimento, na Rua Oswaldo Aranha, na Praça da Bandeira, avistou seu pai “com um semblante cabisbaixo, ao lado de um indivíduo”. Por esse motivo, o sargento contou ter saído da viatura já com a arma em punho, identificando-se como militar e ordenando que Renato Couto colocasse as mãos para cima.
No depoimento, o primeiro-sargento relatou que, ao revistar o perito papiloscopista, notou que ele estava com uma pistola na cintura e, nessa ocasião, o policial civil sacou a pistola e ambos entraram em luta corporal. Lourival, Daris e Manoel também teriam se envolvido na briga, tentando separá-los. Bruno disse se recordar que, “em determinado momento, conseguiu desferir um tiro na perna” de Renato, mas, mesmo, assim, ele teria conseguido tomar sua arma.
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O terceiro sargento alegou que, durante toda a ação, Renato Couto gritava “Polícia! Polícia”, sem precisar se queria se identificar ou pedir ajuda. Por esse motivo, Bruno Santos de Lima relatou ter efetuado mais um disparo na altura da barriga do perito, tendo sua resistência então diminuído. “Em transtorno em razão dos acontecimentos e da comoção que se formava em volta”, o militar disse ter tentado começar a colocar a vítima na viatura, tendo sido auxiliado por Daris, e deixado o local.
Na 18ª DP, Bruno informou não se recordar se ele e os demais militares cogitaram levar Renato a um hospital. Perguntado sobre a arma do perito papiloscopista, informa que a colocou em seu bolso e, sem notar se havia o brasão da Polícia Civil no ferrolho, a arremessou no Rio Guandu junto com o corpo da vítima. Em seguida, eles retornaram para a base do 1º Distrito Naval, na Praça Mauá, e o terceiro sargento relatou ter terminado seu serviço “em horário normal”.
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