Poeta dos despropósitos, Manoel de Barros morreu ontem, aos 97 anos.

É preciso transver o mundo

Com sua caligrafia miúda, Manoel de Barros escreveu sonhos. Às 8h05min de ontem, 13, o escritor atingiu “a pureza de não saber mais nada”. O poeta da natureza já avisara que “a morte é indestrutível”. Indo devagar, “atrasou o fim” da vida, chegando aos 97 anos. “Ontem, choveu no futuro”, e a literatura nacional perdeu um grande. 

O escritor Manoel Wenceslau Leite de Barros estava internado desde 24 de outubro. Antes disso, já não podia frequentar o “lugar de ser inútil”, o pequeno escritório de 3 por 4 metros onde, havia décadas, se trancava para escrever. De acordo com o hospital Proncor, em Campo Grande (MT), Manoel teve falência múltipla dos órgãos na manhã de ontem.

“O poeta era de sorriso fácil e gostava de ouvir histórias simples”, conta Márcio de Camillo, cantor e compositor sul-matogrossense. Os dois conviveram por mais de vinte anos. “Estar com ele era um exercício de constante aprendizagem. Manoel dialogava não só com a poesia, mas com todas as artes”, relembra. 

“Velinha”
Antes da doença, Manoel já “estava se apagando como uma velinha”, diz a filha Martha. Ano passado, o escritor perdeu seu segundo filho, o primogênito Pedro, vítima de um AVC. Em 2007, o cuiabano já tinha perdido o filho João Wenceslau, morto em acidente de avião. Ele deixa a esposa Stella (ou dona Pássara), com quem foi casado desde 1947, e a filha Martha Barros (a menina avoada), além de netos e bisnetos. 

“O ser biológico Manoel de Barros passou para outra dimensão. Sua poesia fica com todos nós e continuará encantando e transformando a humanidade eternamente”, destaca Pedro Cezar, diretor do documentário Só Dez Por Cento é Mentira, de 2008 (assista em http://bit.ly/1v6BmQD). O filme é um dos poucos registros da fala de Manoel, que amava conversar, mas não gostava de gravações.  

Além de poeta, foi fazendeiro. “Depois de dez anos, consegui que a minha fazenda desse renda para eu ficar à disposição da poesia. Aí que eu pude ser o vagabundo profissional como eu sou agora.”  

Nascido há quase 98 anos às margens do rio Cuiabá, no Pantanal, Manoel publicou o primeiro livro, Poemas concebidos sem pecado, em 1937. Depois disso, lançou outros 18 livros de poesia, além de obras infantis e autobiográficas. O último volume, Escritos em verbal de ave, saiu em 2011. 
Em 2013, antes de completar 97 anos, Manoel ainda escreveu o poema “A turma”. E então se recolheu no silêncio. Ele vivia de modo recluso em Campo Grande, desde o final da década de 1970.  

Popular, Manoel foi também premiado. Ganhou o Prêmio Jabuti duas vezes, em 1990 e 2002, com as obras O guardador de águas (1989) e O fazedor de amanhecer (2001). Em 2000, foi premiado pela Academia Brasileira de Letras. Em 1966, ganhou o prêmio nacional de poesias com Gramática Expositiva do Chão. Em 1998, levou o Prêmio Nacional de Literatura do Ministério da Cultura, pelo conjunto da obra.  

MANOEL DE BARROS JOGOU SOBRE O MUNDO UM OLHAR FRESCO, NOVO, ESVAZIADO DO CONTEMPORÂNEO. PARECE FORA DO TEMPO PORQUE MORA NO ETERNO

Gregório Duvivier, poeta, escritor, roteirista e ator

MANOEL DE BARROS SIMPLIFICOU A POESIA. ELE FAZIA POESIA ELABORADA, MAS SEM A PRETENSÃO DE DIZER NADA DEMAIS. ERA UMA COISA ORGÂNICA

Socorro Acioli, escritora

MANOEL DÁ UM SIGNIFICADO DIFERENTE ÀS PALAVRAS. COLOCA AS PALAVRAS PARA FORA DE SI, COMO UMA PEQUENA LOUCURA

Batista de Lima, professor e escritor