Tradições populares estão ameaçadas

MESTRES DA CULTURA

Jovens de Fortaleza e Região Metropolitana não se interessam mais em participar e manter os grupos de folguedos

A Diana do Pastoril Nossa Senhora de Fátima, Ivanila Gomes, puxa uma música antiga para anunciar a brincadeira: "meu São José, dê-nos licença para o pastoril brincar. Viemos para adorar Jesus nasceu para nos salvar...". O público de crianças e adultos quase não lembra mais a canção que embalou gerações durante o período natalino. O esforço e a dedicação para empolgar quem assiste à apresentação é a mesma que move Ivanila para manter o grupo em atividade. "É complicado porque os jovens não querem mais integrar um pastoril ou outra manifestação folclórica. Hoje eles preferem a suingueira ou outro ritmo", lamenta.

A preocupação da coordenadora do grupo é a mesma de pesquisadores e especialistas em cultura popular. Segundo eles, as manifestações tradicionais, como pastoril, dança da caninha verde, bumba-meu-boi, congada, coco, maneiro-pau, entre outras, estão ameaçadas de extinção em Fortaleza e municípios da Região Metropolitana, mesmo com o esforço dos mestres da cultura, que têm a missão de transmitir seus saberes às novas gerações. "Eles são patrimônios imateriais vivos da nossa cultura, mas sozinhos não estão conseguindo motivar os mais jovens a manter os folguedos", constata a socióloga e antropóloga, Peregrina Campelo.

Um exemplo disso, aponta, ocorre com a dança da caninha verde, da mestre Gertrudes Ferreira dos Santos (D. Gerta), do Mucuripe. Seus herdeiros não querem manter o grupo e quase não se apresentam mais. "Infelizmente, se nada for feito, a manifestação tão popular em uma outra época pode morrer", diz.

Sem referências

Dos oito grupos ou tesouros vivos da cultura popular cearense existentes na Capital e municípios vizinhos, três faleceram: mestre Juca do Balaio (Pacatuba); d. Nice Firmeza (Mondubim) e Seu Oliveira (Aquiraz). O restante, d. Gerta (Mucuripe); Mestre Zé Pio (Pirambu); Maria Edite Ferreira (São Luis do Curu); Pastoril N. S. de Fátima (Maracanaú) e José Abreu (Palhaço Pimenta, de Fortaleza) enfrentam sérias dificuldades de sobrevivência. "Para salvar o pastoril, 80% dos brincantes são da família", conta Ivanila.

Para o professor de História da Arte, Mitologia e Estética da Universidade de Fortaleza (Unifor), Carlos Velasquez, o problema não é a falta de empenho dos mestres ou apoio governamental, pois esse pessoal ganha ajuda de custo no valor de um salário mínimo vitalício.

A questão, determina, é o efeito da globalização na nossa sociedade. "A invasão de outras culturas contribuiu para a perda de nossas referências culturais mais tradicionais", afirma. Para sobreviver, exemplifica ele, o forró teve que mudar. Ele já não tem mais o mesmo ritmo de antigamente com sanfona, triângulo e zabumba. "A quadrilha junina é outra manifestação que se transformou para se manter viva, com vestimenta estilizada, rica e muita coreografia. Quem não for pelo mesmo caminho, vai se extinguir sim", ajuíza ele.

Mestre Zé Pio é o guardião da memória de vários Bois de Fortaleza e desenvolve um trabalho social com crianças do bairro Goiabeiras, ensinando a cultura do Bumba-meu-boi e contribuindo para a difusão dessa manifestação foto Tuno Vieira/ Uma das poucas tradições a se manter, o artesanato de bilros conta com a renovação de seus mestres, que buscam novidades para atrair a clientela pela beleza e singularidade das peças confeccionadas à mão.
O jornalista e pesquisador Gilmar de Carvalho concorda com Velasquez e frisa que não está sendo pessimista e sim realista ao apontar que uma pessoa sozinha, como no caso do mestre da cultura, não pode fazer muita coisa e defende a constituição de uma comissão interdisciplinar para não só analisar a problemática e sim buscar alternativas para salvar essas manifestações. "Como não existe um sentimento de pertencimento, o jovem não entende o sentido daquilo e tem até vergonha de vestir certas roupas. É preciso conseguir o envolvimento das comunidades, evoluir e encontrar saídas como as quadrilhas juninas conseguiram e hoje apresentam um verdadeiro espetáculo de dança, teatro e coreografia".

O coordenador do Patrimônio Histórico e Artístico da Secretaria Estadual de Cultura (Secult), Otávio Menezes, reconhece a situação e defende mudanças. "Não se pode engessar os folguedos e sim modernizá-los".

Palhaço Pimenta é o novo tesouro vivo do Ceará

A história de amor entre José de Abreu Brasil e o circo tem quase seis décadas de existência. Uma relação que exigiu esforço, dedicação e muita superação é agora reconhecida oficialmente. Durante o 8º Encontro de Mestres do Mundo, no Crato, entre os dias 18 e 20 próximos, José, ou simplesmente palhaço Pimenta, será diplomado como o mais novo Tesouro Vivo da Cultura Popular do Ceará por seu trabalho dentro e fora do picadeiro.

José de Abreu Brasil, o palhaço Pimenta, será diplomado no próximo encontro dos Mestres do Mundo, que acontecerá no Crato, entre os dias 18 e 20 de dezembro, por seu trabalho em transmitir a arte do circo
Natural de Canindé, o palhaço José de Abreu Brasil é o primeiro representante circense no privilegiado grupo dos 60 Mestres da Cultura do Ceará

O coordenador do Patrimônio Histórico e Artístico da Secult, Otávio Menezes, confirmou a data do evento que dá reconhecimento ao artista, que desde os 14 anos respira e transpira as artes circenses.

"Como todo mestre da cultura, ele tem a missão de transmitir os conhecimentos da arte que atua para as próximas gerações com o objetivo de manter a manifestação viva".

Missão

"O espírito do circo já nasceu comigo e essa paixão é para sempre", afirma Pimenta, explicando que a missão não será problema para ele. Quase chegando aos 70 anos de idade, ele conta que foi tomado pela magia dos artistas circenses desde a primeira vez que os viu atuar.

Antes de se tornar palhaço, relata, atuou em números teatrais e no trapézio. Atualmente, dirige o Circo Teatro Pimenta, que já conta com três gerações dedicadas à tradição circense.

Há três anos possui sua própria lona, onde mora e atua com a família. Antes disso, ainda quase menino, trabalhou em uma vacaria. Em uma de suas entregas, viu o Circo Uiara no meio do caminho. "Nunca tinha visto aquela beleza", frisa. Assim que conseguiu dinheiro voltou para ver o espetáculo, e ficou completamente encantado.

Experiência

A partir dali, não teve dúvidas: seguiu o caminho com o grupo. Nas primeiras semanas viu que a realidade no cotidiano da lona não era fácil e voltou para a vacaria, mas não demorou a retornar para o Circo Uiara.

Foi lá onde aprendeu trapézio, teatro e palhaço. Se intitulou palhaço Pimenta, pela sua simpatia e gosto pelo ardor do tempero. Seu Pimenta garante que é depois de velho que o palhaço adquire a experiência no ritmo que o público gosta. Para ele, sua comicidade pode ser dividida em três momentos: entradas, paródias e comédias

LÊDA GONÇALVES
REPÓRTER

FIQUE POR DENTRO

Memória de um saber coletivo a ser transmitido

O Mestre da Cultura é um portador ativo de uma tradição. Guarda em seu corpo a memória de um saber coletivo, mas não se restringe a repeti-la. Inova e desenvolve a herança que a ele foi repassada. Não se trata de um guardião ou de um preservador da cultura, mas de um criador e inovador. No seu corpo se condensam saberes, muitas vezes, milenares na origem, trabalhados pela coletividade através dos séculos e renovados constantemente, por outros mestres como ele. O mestre, um sujeito ativo das tradições culturais, é a um só tempo artífice e artista. Os mestres são os patrimônios imateriais vivos da nossa cultura.

Nos últimos dez anos, esses mestres, suas expressões e conhecimentos ganharam reconhecimento, proteção e valorização oficial como patrimônio imaterial da cultura nacional, através das leis de Patrimônio Vivo, de Tesouros Vivos da Cultura, ou de Mestres. Tais leis garantem um auxílio financeiro a pessoas ou grupos para a manutenção de suas atividades. O abono é vitalício e tem o valor médio de um salário mínimo.

Em Fortaleza e Região Metropolitana são oito mestres e grupos: Juca do Balaio (maracatu - falecido); D. Gerta (caninha verde); Mestre Pio (bumba-meu-boi); D. Edite (rede travessa); Sr. Oliveira (jangadas - falecido); D. Nice (bordado - falecida); Francisca (rendeira); Palhaço Pimenta (artes circenses) e Pastoril N. S. de Fátima.