Desafios de Lula em 2026 vão além da reeleição e testarão a resiliência política do presidente

Lula tem pela frente, por exemplo, problemas históricos da sociedade brasileira, como a violência urbana e os altos juros na economia.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o advogado-geral da União, Jorge Messias, indicado ao STF — Foto: Ricardo Stuckert/Presidência da República

Por Isabella Calzolari, g1 — Brasília - 04/01/2026 

Lula tem dito que vai tentar o quarto mandato à frente da Presidência. Até lá, precisará encarar problemas históricos da sociedade brasileira, como violência urbana e juros altos, além de precisar equilibrar a relação com um Congresso resistente ao Planalto.

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O ano que começa para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a partir desta semana — quando ele volta das férias no Rio de Janeiro — traz desafios que vão além da tentativa de se reeleger para o quarto mandato na Presidência.

Lula tem pela frente, por exemplo, problemas históricos da sociedade brasileira, como a violência urbana e os altos juros na economia.

Além disso, vai ter que encarar o ano eleitoral com um Congresso, senão hostil, pelo menos resistente ao Palácio do Planalto. O cenário também é desafiador na busca por eleger para o PT, seu partido, o maior número possível de governadores, senadores e deputados, em meio a um eleitorado dividido entre o conservadorismo da oposição e o programa mais progressista que Lula representa.

Outros temas na agenda são:

• saída de ministros para disputa eleitoral;

• indicação de Messias para o STF;

• crime organizado;

• relação com Donald Trump;

• projeto de anistia e PL da dosimetria;

• crescimento da economia, dívida pública.

Saída de ministros

Na retomada da agenda oficial, Lula deve se reunir individualmente com ministros que vão sair do governo para disputar a eleição.

Ao menos 20 ministros devem deixar o cargo até abril de 2026 – período para desincompatibiliza-ção, como manda e lei. Entre eles, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad.

A vontade do presidente é que Haddad dispute o governo do estado de São Paulo. Para Lula, é importante ter um palanque forte na eleição do estado mais rico do país, além da chance de ter no Palácio dos Bandeirantes um de seus principais aliados. O atual governador, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é um dos principais nomes da oposição, e pode, inclusive, disputar a Presidência contra Lula.

Já o desejo de Haddad é deixar o comando do Ministério da Fazenda em fevereiro para colaborar com a campanha de Lula à reeleição.

Entre os ministros de dentro do Palácio do Planalato, o único que ainda não está definido se sairá do governo é o da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL-SP). Rui Costa, da Casa Civil, vai concorrer ao Senado pela Bahia. Já a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, quer disputar uma vaga na Câmara pelo Paraná.

"Eu sei que tem uma enxurrada de ministros que vão sair. Eu não vou impedir ninguém de sair. Vou apenas torcer para os que saírem sejam eleitos", disse Lula durante um café com jornalistas em dezembro do ano passado.

Aos jornalistas, Lula falou que também vai conversar com o vice-presidente, Geraldo Alckmin, para saber o que "ele quer ser". A aposta do PSB, partido de Alckmin, é que ele permaneça como vice de Lula.

Tentativa do quarto mandato

Lula já deixou claro que tentará disputar o quarto mandato presidencial neste ano. O petista tem afirmado que não deixará a "extrema direita" voltar a governar o país e que tendo "saúde e dis-posição", disputará a reeleição.

Lula, no momento, figura à frente dos demais candidatos nas pesquisas de intenção de votos.

No ano passado, enquanto a direita enfrentava divisões sobre a candidatura presidencial, o presi-dente lançou programas mirando sua reeleição, como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. Já neste ano, a jornada 6x1 deve ser um dos temas prioritários do governo Lula podendo ser até um dos "motes" de campanha de Lula.

O lançamento da candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) gerou irritação no Centrão, que prefere o governador Tarcísio Gomes de Freitas (SP-Rep) como candidato em 2026. Tarcísio, no entanto, descartou publicamente a possibilidade de concorrer ao Planalto e disse que pretende disputar a reeleição, mas as duas alternativas seguem na mesa.

Lula completou 80 anos em 2025. A idade do presidente foi argumento para a revista britânica The Economist defender que o petista não deveria concorrer à reeleição. A publicação lembrou que, caso seja reeleito, Lula concluiria um eventual quarto mandato aos 85 anos.

O editorial cita que "apesar de todo o seu talento político, é simplesmente arriscado demais para o Brasil ter alguém tão idoso no poder por mais quatro anos. Carisma não é escudo contra o declínio cognitivo".

A revista compara o petista ao ex-presidente dos EUA Joe Biden, que desistiu da disputa pela Casa Branca meses antes da eleição após pressões do partido e de parte do eleitorado democrata. A crise na campanha de Biden começou depois que ele teve um mau desempenho em um debate contra Donald Trump. À época, a capacidade cognitiva do presidente Biden foi colocada em dúvida.

Indicação de Messias no STF

O fim do ano passado foi marcado por atritos entre Lula e os presidentes do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB). A indicação de Jorge Mes-sias para a vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) deixada por Luís Roberto Barroso azedou a relação de Lula e Alcolumbre. Alcolumbre defendia o nome do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), ex-presidente do Senado, para ocupar a vaga. Lula preferiu indicar o atual advogado-geral da União.

Na volta do recesso legislativo, a Casa Civil deve enviar ao Congresso a mensagem do governo com a indicação de Messias ao STF. A indicação foi em novembro do ano passado, mas o governo de Lula optou por não cumprir esse passo até agora, para ganhar tempo na articulação de Messias por apoio. A decisão gerou críticas de Alcolumbre, que citou tentativa de "interferir indevidamente no cronograma da Casa".

Depois, Alcolumbre fez novas declarações criticando o governo e chamou de mentiroso quem afirmou que ele estava tentando "usurpar prerrogativas" do presidente da República ao definir o ritmo da sabatina de Messias. Alcolumbre chegou a marcar a sabatina de Messias para 10 de de-zembro mesmo sem o envio da mensagem que formalizava a indicação ao Senado, mas depois cancelou.

Para que Messias possa tomar posse como ministro da Corte, é necessário o aval do Senado, onde o advogado-geral da União precisará de pelo menos 41 votos favoráveis.

Antes do início do recesso, Jorge Messias fez reuniões com senadores em busca de apoio. A indicação enfrenta resistências de uma ala no Senado. Na última reunião ministerial de 2025, Lula orientou os ministros a ligarem para senadores e pedirem votos a favor da indicação de Messias.

Segurança e crime organizado

No final do ano passado, Lula buscou acertar os ponteiros com o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), que havia voltado a se distanciar do Palácio do Planalto por causa da votação do PL da Dosimetria, da PEC da Segurança Pública e, principalmente, do projeto de Lei Antifacção.

Lula criticou Hugo Motta por escolher para relator do projeto de lei Antifacção o ex-secretário de Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite, aliado do governador Tarcísio Gomes de Freitas.

O projeto, que visa combater o crime organizado no Brasil, foi aprovado no Senado em dezembro.

A proposta cria o Marco Legal de Combate ao Crime Organizado e aumenta a punição, estabelecendo até 60 anos de prisão para lideranças e com possibilidade de agravantes, e dificulta a progressão de regime para membros de grupos criminosos. Também prevê que chefes de facções e milícias terão de cumprir as penas em presídios federais de segurança máxima.

Agora, o texto volta para avaliação da Câmara dos Deputados antes de ser enviado para sanção ou veto do presidente Lula (PT) - se forem mantidas as alterações dos senadores.

Em outra frente, o governo também aposta na aprovação da PEC da Segurança Pública. Lula buscava a aprovação da proposta ainda no ano passado, mas os líderes decidiram deixar a análise do projeto para este ano diante de impasses a respeito do texto.

A PEC da Segurança Pública cria mecanismos para integrar forças de segurança pública do país. O Palácio do Planalto enxerga a PEC como uma das principais ações para combater o crime organizado.

O tema segurança pública deve ser tratado como prioridade na pauta do Congresso e nos debates eleitorais. O tema será um das assuntos centrais nas campanhas já que é um tema visto com muita relevância pela população.

Relação com Donald Trump

Outro desafio de Lula vai ser a sua relação com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A relação entre os dois países passou por altos e baixos desde que o republicano assumiu o poder, em janeiro do ano passado.

Em julho, o governo norte-americano impôs tarifas que chegaram a 50% em produtos brasileiros.

Ao justificar a elevação da tarifa sobre o Brasil, Trump citou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e disse ser "uma vergonha internacional" o julgamento do ex-presidente no Supremo Tribunal Fede-ral (STF).

Pouco depois, o governo Trump também revogou os vistos de membros do Judiciário brasileiro, de ministros do governo Lula e sancionou o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes e sua esposa com a Lei Magnitsky, utilizada para punir estrangeiros. Em dezembro, o mi-nistro foi retirado da lista de sancionados.

Em setembro, os dois presidentes se encontraram brevemente durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York. Na ocasião, Trump disse que teve "uma química excelente" com o presidente brasileiro, "que pareceu um cara muito agradável".

Desde então, os dois presidentes se encontraram presencialmente uma vez, na Malásia, e se falaram por telefone outras duas vezes. Em todos os contatos o presidente brasileiro defendeu a retirada das medidas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil.

No final de novembro, o governo americano Unidos anunciou a retirada das tarifas de alguns produtos brasileiros. Trump afirmou que a retirada das tarifas foi resultado das negociações entre os dois governos.

Mesmo assim, cerca de 63% das exportações do Brasil aos Estados Unidos seguem sujeitas às tarifas ampliadas em julho, sobretudo os do setor industrial.

O capítulo mais recente da relação entre os dois mandatários são os ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela realizado neste sábado (3). Na ocasião, forças americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro.

Apesar de não reconhecer a vitória de Maduro nas últimas eleições, Lula é contra a invasão americana ao país.

Após o ataque, Trump afirmou que os EUA vão "administrar" a Venezuela de forma interina, anunciou a entrada de petroleiras norte-americana em solo venezuelano e disse que ampliará "o domínio americano no Hemisfério Ocidental".

Em uma publicação nas redes sociais neste sábado, Lula condenou o ataque e afirmou que a ação militar ultrapassa a linha do que é aceitável na relação entre países.

"Atacar países, em flagrante violação do direito internacional, é o primeiro passo para um mundo de violência, caos e instabilidade, onde a lei do mais forte prevalece sobre o multilateralismo. A condenação ao uso da força é consistente com a posição que o Brasil sempre tem adotado em situações recentes em outros países e regiões", acrescentou.

Desde o início da escalada de tensão entre os países, Lula tem condenado uma eventual intervenção dos EUA na América Latina, e disse ter conversado com o presidente Trump em diversas ocasiões sobre o tema.

Em manifestações públicas, Lula também pediu que divergências sejam resolvidas por meio do diálogo, e que a América do Sul fosse mantida como uma zona de paz.

Projeto da Anistia e da Dosimetria

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já afirmou que vai vetar o projeto que reduz as penas do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e de outros condenados por atos golpistas, o chamado Pro-jeto da Dosimetria. Se o presidente vetar, o tema volta a ser apreciado pelo Congresso.

Deputados e senadores vão decidir se mantêm ou derrubam o veto. Para derrubar, precisam do apoio de 257 deputados e 41 senadores. Se o veto for derrubado, a proposta se torna lei.

Em paralelo, a proposta já é alvo de uma ação de parlamentares no Supremo Tribunal Federal (STF) para parar a tramitação do texto no Congresso. E, mesmo se virar lei, o texto pode ter a validade questionada no Supremo.

O chamado PL da Dosimetria foi a saída encontrada pelas cúpulas da Câmara e do Senado e por líderes partidários para responder à pressão de aliados de Bolsonaro por um perdão integral das penas — a anistia.

Diferentemente da anistia, que extinguiria as penas e anularia as condenações, o PL da Dosimetria mantém as condenações, mas permite que os condenados pleiteiem uma redução no tempo de prisão.

Em setembro, a Câmara sinalizou que poderia acelerar a tramitação do projeto de anistia a participantes de atos golpistas ao aprovar a urgência do texto. A urgência votada foi relativa a um projeto de lei de 2023, do deputado federal Marcelo Crivella (Republicanos-RJ). Entretanto, esse texto ainda deve mudar.

Economia

Um outro tema que o presidente Lula terá que enfrentar ao longo do ano eleitoral será a condução da economia. Os números gerais têm sido bons, como os baixos índices de desemprego, o aumento da renda e o crescimento do PIB.

Economistas apontam que, apesar desses bons resultados, o governo Lula opta por gastar além do que seria prudente para impulsionar a atividade econômica do país, em vez de cortar gastos.

Isso causa um efeito rebote na alta dívida pública e na inflação. Para evitar que a inflação dispare, o Banco Central tem mantido a taxa de juros básica da economia nos maiores patamares das últimas décadas.

As contas do governo registraram rombo de R$ 83,8 bilhões até novembro. Sendo que, só no mês de novembro, as contas registraram um déficit de R$ 20,2 bilhões.

Mesmo assim, o governo prevê terminar o ano cumprindo a meta fiscal, com base nos números de dezembro, que ainda serão fechados.

O rombo acumulado até novembro de 2025 é o pior o período desde 2023, quando o saldo foi negativo em R$ 122,8 bilhões. O rombo de novembro de 2025 é o pior para o mês desde 2023, quando o saldo foi negativo em R$ 41,7 bilhões

O resultado representa uma piora em comparação com novembro do ano passado, quando foi registrado um saldo negativo de R$ 4,5 bilhões (corrigido pela inflação).

Em novembro, a Secretaria do Tesouro Nacional estimou que a dívida do setor público consolidado, envolvendo governo, estados, municípios e estatais, continuará avançando até o fim do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando atingirá 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB).

Em setembro de 20,5 o endividamento do governo estava em 78,1% do PIB — o equivalente a R$ 9,75 trilhões.

🔎 A dívida do setor público consolidado é um conceito fiscal que representa o montante total das obrigações financeiras assumidas por um ente da Federação (União, Estados, Distrito Federal e Municípios), apurado sem duplicidade.

🔎O indicador é considerado um termômetro da chamada "solvência" de uma nação, ou seja, da capacidade de honrar seus compromissos futuros. Quanto maior o indicador, maior o risco de um calote em momentos de crise.

Se confirmado, o endividamento brasileiro terá uma alta de 10,8 pontos percentuais no governo Lula, visto que somava 71,7% do PIB em dezembro de 2022, quando o governo Jair Bolsonaro chegou ao fim.

💵 Em termos práticos, com uma dívida mais alta há uma pressão maior sobre a taxa de juros brasileira. Isso se reflete nos juros cobrados pelo mercado financeiro ao setor produtivo da economia, restringindo o crescimento do país.

https://g1.globo.com/politica/noticia/2026/01/04/desafios-de-lula-em-2026-vao-alem-da-reeleicao-e-testarao-a-resiliencia-politica-do-presidente.ghtml