EM FORTALEZA
A arte imersa em espaços públicos como obras da construção urbana. Em Fortaleza, várias são as intervenções de artistas em praças, ruas, caçadas e igrejas. Sem manutenção e conhecimento popular, elas vão se acabando e se perdendo no tempo.
Uma gama de obras do artista Sérvulo Esmeraldo, cearense do Crato, compõe a paisagem artificial da Cidade. Muitas sem conservação e sem identificação. O Monumento ao Saneamento Básico, na Praia do Náutico, está pichado e enferrujado. A obra tem importância na história da escultura brasileira, como uma das primeiras em estilo contemporâneo e maiores em extensão - possui quase 40 metros.
Já a Fonte Cinética da Praça da Sé está coberta de lixo. A Escultura em Aço Pintado, situada em frente ao Centro Cultural Banco do Nordeste, no Centro, está suja e sem manutenção. A Femme Bateau, da Ponte dos Ingleses, não tem sinalização alguma. As pessoas não sabem nem que ela está lá e nem do que se trata. Tal situação se repete com todas as outras obras que vêm perdendo a visibilidade com o passar dos anos.
Segundo a pesquisadora Dodora Guimarães Esmeraldo, esposa de Sérvulo, nenhuma das obras do artista está bem conservada, não só as púbicas, mas as privadas. Um exemplo de escultura particular em degradação é a coluna de cubos vermelhos na Rua dos Pocinhos, no Centro.
A Escultura em Aço Pintado, presente no campus da Universidade Federal do Ceará (UFC), está escondida por um abrigo de ônibus, como lembra Dodora.
Além disso, as peças não contam com iluminação e nem sinalização da história e nome do autor. Para ela, a cidade deve se ocupar do seu patrimônio artístico e cuidar dele.
Tristeza
Isso tudo faz com que a integração da arte com o espaço público se esvaia. Para Sérvulo Esmeraldo, a sensação é de tristeza de ver suas obras sem cuidado. Conforme o professor de História da Arte da Universidade de Fortaleza (Unifor), Carlos Velázquez, há um costume de colocar toda a responsabilidade da degradação das peças na falta de preparo da população, o que não é característica inerente. "O povo não foi educado a conservar, mas o que estão faltando são projetos públicos de valorização da estrutura das cidades".
A jornalista e pesquisadora da obra do escultor Zenon Barreto, Sabrina Albuquerque, acredita que ações de reparo até acontecem, por vezes, no entanto sem o cuidado com a manutenção do projeto original, sem uma preocupação artística.
Ela cita a estátua de Iracema como exemplo. "Em uma última restauração, o arco foi colocado do lado oposto ao que era". Outro problema é mudar a instalação de lugar, o que, volta e meia, acontece em Fortaleza. "Toda obra pública tem relação com o local, então não é possível deslocá-la", avisa.
Desconhecimento
Quanto à fruição das peças, a jornalista acredita que exista, sim, ao modo muito próprio do povo que, muitas vezes, desconhece a história. "Trata-se de uma questão de uso e desuso da obra. As pessoas as utilizam da maneira que lhe convier".
É como a estátua da Rachel de Queiroz, presente na Praça dos Leões. "Dela, os transeuntes fazem o uso que querem. É possível sentar com a Rachel. Já tiraram até seus óculos. Outro exemplo é o monumento a José de Alencar que era utilizado para secar roupas. As pessoas sentam nas estátuas e se apropriam daquele bem público", observa.
E as obras são abertas, como aponta Sabrina Albuquerque. O povo renomeia as esculturas, como aconteceu com o Monumento do Saneamento Básico, chamado de "chifre do prefeito".
A jornalista destaca que tudo isso é uma forma de fruição. "São modos diferentes de dialogar com a arte", sugere a pesquisadora.
FIQUE POR DENTRO
Artista tem reconhecimento internacional
Escultor, gravador e desenhista, Sérvulo Esmeraldo, cearense do Crato, ingressou na arte de maneira profissional no fim da década de 1940, frequentando o ateliê livre da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP), em Fortaleza. Transferiu-se para São Paulo em 1951.
Em 1957, obteve bolsa de estudos do governo da França, onde viveu 20 anos. Na década de 1960, dedicou-se a projetos movidos a motores, ímãs e eletroímãs. Usando apenas a eletricidade estática, chegou à série de Excitables, trabalho que o particularizou na arte cinética internacional. Em 1977, iniciou o retorno à terra natal, trabalhando em projetos de arte pública que incluíam esculturas na paisagem de Fortaleza, para onde se mudou em 1980.
Tombamento não é única ferramenta de proteção
O professor de História da Arte da Unifor, Carlos Velázquez, é reticente com tornar as estruturas artísticas patrimônios. "A cultura não é patrimonial e sim dinâmica. Transformar obras em patrimônio histórico faz com que elas fiquem paradas. Isso atrapalha muito a vigorosidade da arte. É a perda da virtuosidade, acompanhada de degradação estética e espiritual", avalia.
O Monumento ao Saneamento Básico, na Praia do Náutico, uma das primeiras obras brasileiras em estilo contemporâneo, está pichado e enferrujado
O artista pensa a composição em relação às características do ambiente. Então, para o professor, é preciso valorizar, em primeiro lugar, o local onde a obra está e, depois, a arte. Há necessidade, na visão de Velázquez, de uma revitalização das praças, ruas, calçadas e igrejas e todo o entorno das instalações para que elas recobrem seus sentidos. "Uma obra não é coisa isolada. Dialoga com o mundo".
O tombamento não é a única ferramenta de proteção, como lembra o coordenador do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal de Cultural de Fortaleza (Secultfor), Alênio Carlos Alencar. As obras de arte podem ser tombadas, mas é importante que elas tenham políticas de restauração. Nenhuma, na Capital, é protegida pelo Patrimônio Histórico atualmente. "O que acontece é o espaço público ser tombado e, por consequência, as esculturas ou monumentos também serem, como nos casos do Passeio Público e da Praça dos Leões", diz Alencar.
A manutenção das obras públicas de Fortaleza é de responsabilidade das Secretarias Executivas Regionais, assim como dos espaços em que elas estão. O trabalho de preservação é feito de seis em seis meses.
Projeto
Sobre o Monumento do Saneamento Básico, a Secretaria Executiva Regional (SER) II informa que a restauração está incluída no projeto de requalificação da Avenida Beira-Mar, assim como as jangadas do Mucuripe. Essas últimas, que foram retiradas, retornarão ao local com a finalização das obras.
Já a Fonte Cinética da Praça da Sé, a Regional do Centro revela que o logradouro já foi recuperado e a obra de arte está em constante manutenção de limpeza, além de funcionar frequentemente. A praça é coberta por dois auxiliares de fiscalização para garantir o bom estado da localidade e da fonte.
O primeiro passo da Secultfor para restauro das instalações será realizar um inventário de todas as obras da cidade. O órgão investe em uma política de patrimônio cultural focada no tombamento, enveredando para a concepção da educação, como forma de valorizar a arte. Um dos projetos é criar publicações - folders e cartazes - esmiuçando as instalações presentes na Capital. Fora isso, promover a sinalização das estruturas para atingir vários públicos e chamar atenção para a importância da obra.
Exposição reúne trabalhos
As obras de Sérvulo Esmeraldo se adaptam à estrutura arquitetônica dos locais onde estão inseridas. Para ele, é uma forma de compartilhar experiências e saberes.
São 40 esculturas públicas na Capital. A implementação se deu quando a "luz" o trouxe de volta ao Ceará. Daí o nome da exposição do Palácio da Abolição, em cartaz até dezembro.
O artista diz que leva muito em conta o espaço do entorno antes de pensar na instalação. Até porque suas obras se moldam à paisagem urbana. No Palácio da Abolição, as esculturas, com uma visão mais horizontal, enfeitam o jardim que tem uma estrutura bem plana. O pátio externo, repleto de árvores altas, conta com obras elevadas.
À medida que surgiram as construções, apareceu também a necessidade de esculturas que representassem os pontos específicos. Com a presença de Sérvulo, Fortaleza entra no circuito da escultura contemporânea.
A exposição "Luz" conta com mais de 60 obras nos jardins, pátio interno e galeria do Palácio da Abolição. Sérvulo Esmeraldo, 84, nascido no Crato, celebra 63 anos de arte ao expor grande parte das suas obras: esculturas, relevos e desenhos realizados desde a sua volta a Fortaleza, onde se fixou em 1980. A mostra é resultado de um diálogo com o conjunto arquitetônico projetado pelo famoso arquiteto brasileiro Sérgio Bernardes - o Palácio da Abolição.
A Fonte Cinética, na Praça da Sé, está coberta de lixo. No entanto, conforme a Prefeitura, passa por constante manutenção de limpeza e funciona frequentemente. O logradouro é coberto por dois auxiliares de fiscalização Fotos: Alex Costa
LINA MOSCOSO
REPÓRTER