Por Sérgio Roxo — Brasília 04/05/2026
Lula diz que prioridade é reduzir taxação e tratar de sanções a autoridades; Trump pode citar situação da Venezuela no encontro — Foto: Evaristo Sa e Jim Watson/ AFP
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva viajará aos Estados Unidos para se encontrar com o presidente americano, Donald Trump. A reunião, que ocorrerá na Casa Branca, em Washington, está prevista para quinta-feira.
Durante uma conversa telefônica em janeiro, Lula e Trump acertaram a visita do brasileiro aos Estados Unidos, mas a guerra contra o Irã adiou a viagem. O brasileiro tem criticado a ofensiva americana contra o país do Oriente Médio.
Em fevereiro, Lula chegou a afirmar que a visita a Trump deveria ocorrer na primeira semana de março. Este será o terceiro contato pessoal entre os dois presidentes desde que Trump assumiu seu segundo mandato, e o segundo em solo americano. Os dois tiveram um breve encontro, de aproximadamente um minuto, nos bastidores da Assembleia Geral da ONU, em setembro, logo após o discurso de Lula e imediatamente antes da fala de Trump no evento.
Em outubro, a pedido do governo do Brasil, Trump voltou a se encontrar com Lula, desta vez na Malásia, onde os dois participaram como convidados da 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), bloco que reúne economias do Sudeste Asiático.
Para a visita a Washington agora, Lula deixará o Brasil na quarta-feira e deve retornar na sexta. A viagem acontece quando o governo vive o pior momento em sua relação com o Congresso, após o Senado rejeitar a indicação feita pelo presidente do advogado-geral da União (AGU), Jorge Messias, para uma vaga de ministro do Supremo Tribunal Federal (STF).
Por isso, a expectativa é que o Planalto se valha do encontro com Trump para mostrar que Lula tem prestígio internacional e afastar a pecha de "pato manco" que a oposição tenta pregar no petista depois da derrota inédita da semana passada. O termo costuma ser usado para se referir a presidentes em fim de mandato com baixo capital político.
Entre os temas que devem ser discutidos entre os dois presidentes, estão, além da guerra promovida contra o Irã, o tarifaço sobre exportações brasileiras. Em fevereiro, a Suprema Corte americana derrubou o tarifaço de 50% de Trump que atingia produtos brasileiros. Mas, dias depois da decisão, o presidente dos Estados Unidos fez questão de reafirmar que seu governo segue investigando o Brasil e a China por supostas práticas comerciais desleais.
"Se essas investigações concluírem que existem práticas comerciais desleais e que medidas corretivas são justificadas, as tarifas são uma das ferramentas que podem ser impostas", afirmava nota divulgada, na época, pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês), agência de representação comercial americana.
Outro assunto que deve ser discutido é a possibilidade de os Estados Unidos classificarem as facções Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. As autoridades brasileiras temem que a eventual classificação traga riscos à soberania nacional. Em março, o Departamento de Estado dos Estados Unidos afirmou ao GLOBO que o governo americano considera facções criminosas brasileiras uma ameaça relevante à segurança regional.
Ainda dentro desse tema, Lula também deve discutir com Trump sobre a intenção do Brasil de fortalecer a cooperação entre os dois países no combate ao crime organizado, com foco em lavagem de dinheiro, tráfico de armas e intercâmbio de dados financeiros.
Os dois presidentes discutirão ainda a exploração de minerais críticos. Em fevereiro, o governo dos Estados Unidos convidou o Brasil a integrar uma nova coalizão internacional voltada ao fornecimento, à mineração e ao refino de minerais críticos. A proposta apresentada por Washington envolve parcerias para garantir o acesso a insumos como lítio, grafita, cobre, níquel e terras raras, além da criação de mecanismos de preço mínimo, com o objetivo de oferecer maior previsibilidade ao mercado e reduzir a volatilidade.
A situação política da Venezuela e o seu impacto na América do Sul será outro assunto abordado. Lula é um crítico de primeira hora da intervenção militar americana que resultou na prisão do ditador Nicolás Maduro, em 3 de janeiro. A vice de Maduro, Delcy Rodríguez, assumiu a presidência interina com o apoio dos Estados Unidos.
https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/05/04/lula-viajara-aos-estados-unidos-para-encontro-com-trump-nos-proximos-dias.ghtml