Ritmos da quadra junina se misturam aos sons da Amazônia.
Em Belém, os festejos de São João contam não apenas com a tradicional exibição de quadrilhas juninas. A cultura popular da região também seu espaço garantido com o Arrastão do Pavulagem, que sai pelas ruas da cidade levando cerca de 20 mil pessoas a cada fim de semana no mês de junho.
Crianças, jovens e adultos enfeitados com os inconfundíveis chapéus de palha com fitas coloridas acompanham o cortejo que sai da escadinha do cais, no bairro da Campina, até a praça da República em um percurso de cerca de um quilômetro e meio, realizado ao som de quadrilha, xotes, retumbão e carimbó.
Nem o sol forte da época é capaz de tirar a disposição dos participantes como a fotógrafa e publicitária Daísa Passos, de 26 anos, que segue o arrastão. “É uma das poucas manifestações culturais em que pessoas de todos os tipos se misturam. É um espaço totalmente democrático. E isso encanta quem quer que seja. A gente vê famílias inteiras juntas, do netinho à vovó. Você leva a família ou vai para encontrar os amigos. Todo mundo se diverte e não tem como não sair feliz”, diz.
A jovem conta que começou a participar ainda na adolescência e desde então se tornou presença constante no evento. “Eu cresci com o arrastão e não me vejo um ano sem ir. Temos um São João completamente diferente dos outros estados. Somos regados ao som do carimbó. E os cortejos fazem com o que o ritmo não se perca no meio de tantas culturas que o Brasil tem e que se misturam quando tanta gente diferente está no mesmo lugar”, define.
Tradição
A iniciativa começou há 27 anos, com a reunião dos músicos Ronaldo Silva, Júnior Soares, Rui Baldez e uma pequena comitiva de dançarinos, bonecos cabeçudos, pernas-de-pau e brincantes, que formam o Batalhão da Estrela, em apresentações na praça da República em que convidavam o público para brincar de boi-bumbá no Teatro Waldemar Henrique.
“Na época nem tínhamos um boi de verdade, com a figura do ‘tripa’, que dá vida e movimento ao brinquedo; usávamos um boizinho de tala para animar as toadas. Mas aos poucos o movimento cresceu tanto que o teatro não comportou mais aquela multidão”, relembra Silva, que preside o Instituto Arraial do Pavulagem, organização não-governamental que além de fomentar a cultura e a memória locais, incentiva ações de educação ambiental.
O músico diz que a formação do cortejo nasceu das festas juninas brasileiras, das tradicionais homenagens aos santos católicos Santo Antônio, São João, São Pedro e São Marçal, e dos bois do nordeste, mas aos poucos ganhou identidade própria com o acréscimo de elementos regionais.
“Com o passar do tempo o nosso boi-bumbá ganhou cara própria, inspirado no boi Tinga, de São Caetano de Odivelas, que não é como o Catirina, que é um boi de comédia. O rosário – espécie de guirlanda de flores - que ele traz na cabeça também uma coisa feita aqui. O cortejo ainda ficou mais rico com os cabeçudos e os cavalinhos e com uma variedade rítmica grande com o xote, o retumbão, que vêm da marujada de Bragança”, conclui.
A estrela: o boi
Dora Soares, 48 anos, sabe da responsabilidade que pesa sobre suas mãos. Cabe à artesã confeccionar um dos ícones do arrastão: o boi-bumbá. O ofício, ela conta que aprendeu com o marido, o carnavalesco Evaldo Gomes, que morreu há três anos, deixando para a esposa o legado dos bordados e da perfeita combinação de cores de fitas, paetês, miçangas e outros adereços que ornamentam um dos principais símbolos da quadra junina.
“É um trabalho que não exige só criatividade, em saber quais os motivos vamos escolher, ou só a técnica para forrar o tecido, aplicar os bordados, mas pede principalmente dedicação e muita paciência, já que se um ponto estiver errado, ou um paetê mal preso, tem que desmanchar e fazer tudo de novo”, revela.
Neste ano, a preparação do boi exigiu um mês de trabalho, dividido entre as atividades que ela realiza como secretária. Para confeccionar a peça foram gastos 3,5 metros de cetim para a barra da saia do brinquedo, 2,5 metros de veludo para revestir, um metro e meio de pluma (marabu), 30 pacotes de paetês, 30 metros de fitas de cores diversas, e mais de três mil miçangas, apoiados em uma estrutura feita de ripas de madeira leve e de miriti, uma palmeira típica da região de várzea. A Copa do Mundo no Brasil foi a inspiração para a criação da artesã.
E quem pensa que a participação de Dora se encerra quando o boi é entregue, engana-se. Ela diz que faz questão de acompanhá-lo em todas as saídas de cortejo para se certificar de que nenhuma peça se soltou e fazer reparos emergenciais. “Além da disposição, da alegria que a gente leva para o arrastão, saio com tudo na bolsa: cola quente, tesoura, alfinete de segurança, fitas, flores e bordados para repor se precisar. E sempre vou ao lado do boizinho para ver se chegou bem, inteiro; é um apego que a gente cria, sabe?”, confessa.
Outro personagem que trabalha nos bastidores para a festa acontecer é Márcio Gomes, 36 anos, que durante a quadra junina assume o papel de “tripa”, o homem que se veste de boi para dar movimento à peça e brincar no meio do público. Franzino, com 1,60 m, ele diz que é necessário energia para dar conta do brinquedo, que pesa em média 25 quilos.
“Na véspera da saída, como bastante carboidrato porque nos dias das apresentações, a alimentação tem que ser leve e beber muito líquido. Não é fácil dançar, fazer as evoluções durante uma hora e meia debaixo de sol quente, descalço e vestindo duas camisas de mangas compridas”, entrega Gomes, que está na função há 26 anos.
Ele surpreende quando conta o porquê da escolha em dançar com os pés nus. “E tu já viste boi andar calçado, de sapato? A gente procura manter viva essa tradição para mostrar para as crianças que é preciso valorizar essa cultura. Os mais novos, os mais velhos, todos ficam encantados, querem se aproximar, tocar no boi, tirar foto com a gente, dançar no nosso lado; é muito gratificante”, diz.
Serviço
O primeiro Arrastão do Boi Pavulagem 2014 ocorreu no último domingo (15) e próximos serão realizados nos dias 22 e 29 de junho e 6 de julho. A concentração será às 9h na escadinha do cais do porto, na avenida Boulevard Castilhos França, ao lado da Estação das Docas. Depois o cortejo segue pela avenida Presidente Vargas até a praça da República, onde a banda do Arraial do Pavulagem realizará um show com a participação de artistas locais.
Luana LaboissiereDo G1 PA