MAIS RENDA E CRÉDITO
De jovens que acabaram de conquistar o primeiro emprego a pessoas que já constituíram família e possuem casa própria, todos têm à disposição, além da própria renda, o crédito oferecido por instituições financeiras e lojas
Ainda que o aumento da renda da população nos últimos anos tenha sido o principal propulsor da alta do consumo, outros fatores continuam contribuindo para o maior poder de compra dos brasileiros. Um deles é o crescimento da População Economicamente Ativa (PEA). Apenas no Ceará, a população de 18 a 59 anos aumentou em 30 mil pessoas entre 2013 e 2014, passando de 5,10 milhões para 5,13 milhões de indivíduos. Atualmente, eles representam 58% da população cearense. Os dados são de um levantamento da consultoria IPC Marketing.
De jovens que acabaram de conquistar o primeiro emprego a pessoas que já constituíram família e possuem casa própria, todos têm à disposição, além da própria renda, o crédito oferecido constantemente por instituições financeiras e estabelecimentos comerciais.
Contudo, associadas à educação financeira insuficiente ou ao descontrole na hora das compras, as facilidades para adquirir produtos e serviços podem se converter, em pouco tempo, em dívidas que exigem do consumidor sacrifícios inesperados.
"Muitos dos novos consumidores são pessoas que passam a fazer parte da População Economicamente Ativa sem um preparo maior. Vários deles não conseguem entender as relações de juros, como funcionam as prestações", aponta o professor de Finanças do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec/RJ), Gilberto Braga.
Acesso a financiamentos
Associada à falta de conhecimento, ilustra, há a facilidade para se conseguir crédito. "Hoje, qualquer pessoa que tenha carteira de trabalho e nome limpo, mesmo que não esteja trabalhando, consegue um cartão de crédito de mil reais", comenta.
Conforme Braga, esse crédito é interpretado pelas instituições financeiras como um risco que vale a pena correr, uma vez que, ainda que o devedor utilize o recurso e não tenha dinheiro suficiente na data do pagamento, poderá recorrer, na maioria dos casos, a amigos e familiares que o ajudarão a quitar a dívida.
De acordo com o economista da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Ceará (Fecomércio-CE) Alex Araújo, um dos equívocos resultantes da educação financeira deficiente é o consumo não planejado, através do qual as compras são feitas sem uma noção real do seu valor ou mesmo de sua importância. "A sua despesa tem que ser a sua necessidade, e não aquilo que você ganha", orienta.
Cultura de poupança
O economista também destaca que ainda é frágil a "cultura da poupança" no País, uma vez que relativamente poucas pessoas realmente se preocupam em poupar parte do rendimento.
Gilberto Braga ressalta que o endividamento da população tende a ser danoso para a economia como tudo. Um dos motivos para isso, aponta, é o fato de muitos dos devedores, após conseguirem sanar as dívidas, se tornarem excessivamente cautelosos com os gastos.
"São pessoas que vão de um extremo a outro. Isso é ruim para a economia. O ideal é que haja consumidores conscientes, que são eternos consumidores", fala. Para o professor, o poder público poderia tomar medidas voltadas à redução da inadimplência. Uma delas, indica é aprimorar a educação financeira no ensino básico. Ele também cita a maior divulgação do trabalho de instituições que oferecem auxílio a pessoas com problemas para quitar dívidas, a exemplo das defensorias públicas. (JM)